Para mim é sempre uma azáfama decidir o que vou fazer na passagem de ano. Passaram-se poucos anos desde que adotei um lema comum a tanta gente: Natal para a família, noite de trinta e um para as amizades. Depois, começaram as opções que me obrigam a escolher. Quero contar-vos que nas duas últimas viragens de ano, estive em Coimbra, naquela parte da cidade distante da tradição académica que nos acostumamos, mas que também é tradição. Passei-as nas casas comunitárias de estudantes que se chamam repúblicas, e que têm existido e resistido ao longo de séculos, participando da vida social, política e cultural da cidade.

Atualmente existem pouco mais de vinte casas e nem todas se organizam da mesma forma. Conservam diferentes práticas e os choques fazem-se notar, principalmente no Conselho de Repúblicas (CR), o órgão do qual todas as casas-repúblicas fazem parte, para discutir assuntos que lhes digam respeito, aos e às estudantes e à própria cidade. A ligação que existe entre as várias repúblicas de Coimbra, também através do CR, é um dos pontos-chave que as distingue de outras casas que possam “isoladamente” existir, como os Lysos no Porto ou o 69 em Lisboa, apesar do contacto esporádico entre estas. Finalmente, podemos apontar para as divergências que as repúblicas têm entre si. Em Coimbra, um dos pontos é, desde o seu retorno em 86, a “praxe académica”.

As repúblicas declararam-se anti-praxe ainda durante o período do fascismo, influenciando a tomada de decisão da Associação Académica, que também aboliu a praxe em 1969, no chamado “Luto Académico”, alegando a correspondência entre os valores perpetuados pela praxe e os fascistas, uma reunião tão bem recordada por José Mário Branco, nesta entrevista. Infelizmente, não são todas as casas que hoje se mantêm anti-praxe, uma minoria retomou a colaboração com o Conselho de Veteranos mesmo que formalmente a decisão que o proíbe nunca tenha sido revogada pelo Conselho de Repúblicas. Como sabemos, também a Associação Académica relegitimou oficialmente estas práticas 17 anos depois. Felizmente, muitas casas continuam a bater-se por esta luta e organizam o Cria’ctividade, que não sendo enquanto estrutura anti-praxe, apresenta-se como uma alternativa a esta, de práticas integrativas numa organização aberta, autónoma e horizontal. Desde 2014 promove debates, conversas, festas e concertos num exemplo de trabalho em que as repúblicas participam, juntamente com todos e todas as interessadas.

Não posso deixar de notar como as repúblicas às quais sou mais próxima são também as que melhor conheço por ter co-construído. Delas posso falar com mais propriedade e explicar porque é que são projetos dos quais me orgulho e nos quais acredito que devemos investir. Para mim, são pequenas ilhas onde aprendemos na prática a organizarmo-nos de forma comunitária e democrática mesmo com falhas e re-começos. Assim, coloco alguns destaques:

  1. A gestão coletiva e autónoma da casa através de reuniões ou assembleias periódicas onde todos e todas decidem aquilo a que nós nos diz respeito; Aqui, há espaço para abordar-se problemas de organização, divisão de tarefas, atividades que a casa pretenda promover… entre outras; Este é um espaço de aprofundamento das relações democráticas internas na casa e onde se pode olear o seu funcionamento não-hierárquico; Apresenta-se como uma alternativa ao modelo hierárquico hegemónico nas relações familiares e domésticas;
  2. A socialização do trabalho doméstico: sim, numa escala local mas também sim, a funcionar como protótipo de aplicabilidade a grande escala. Em casa, a divisão de tarefas pretende-se que seja feita equitativamente, através de um cálculo que divide o número de pessoas a viver em casa e os trabalhos que precisam de ser feitos: cozinhar, limpar, arrumar. Todos e todas fazemos tudo de forma rotativa.
  3. A consolidação de uma comunidade interna da qual fazem parte a geração de atuais moradores da casa mas também de “antigos”: toda a gente que já viveu na casa e fez parte do coletivo. Esta é uma importante rede de apoio, que continua a participar em momentos importantes da república e a apoiar a casa.
  4. As relações inter-repúblicas são alimentadas através de convívios informais como jantares e até eventos mais estruturados. Por exemplo, é comum ouvirmos que “tal casa convidou a nossa casa para jantar” ou que “chegou o mês do concurso de feijoadas” que as repúblicas da alta promovem.
  5. Além de habitações, as repúblicas são associações e procuram relacionar-se política, social e culturalmente com a cidade e com a comunidade que as rodeia. Além do Cria’ctividade, outras atividades são organizadas. Por exemplo, a República Ninho da Matulónia costuma focar-se nas relações com o bairro social e periférico de Celas, colaborando com a sua associação de moradores, maioritariamente idosas. Tal como os seus antigos, essas pessoas foram despejadas da alta para a construção da nova universidade no período salazarista. As repúblicas feministas, Marias do Loureiro e Rosa Luxemburgo têm travado importantes lutas mesmo dentro da nossa comunidade. Entre outras coisas, a primeira costuma abordar o tema das “festas como espaços seguros” e preparar salas de dança não-mistas, sem homens cis. A segunda, já acolheu um campo de formação de “Jineoloji”, ciência das mulheres curdas, a título de exemplo.

Finalmente, não posso deixar de notar o contributo gigante que os estudantes migrantes e erasmus têm dado na construção e aperfeiçoamento destes espaços, trazendo consigo uma enorme riqueza de experiências, lutas e resistências que puderam ser aplicadas ao nosso contexto. Devo concluir com a ressalva de que estes espaços comunitários e estudantis apresentam algumas fragilidades, além de enfrentarem dificuldades como as ameaças de despejo perante a escalada da gentrificação na cidade. Deixo um apelo a que venham conhecer as nossas casas, sobretudo se estiverem interessados em modos diferentes de viver as comunidades e os cuidados, lembrem-se “onde come um, comem dois, comem três”.

-Sobre a Raquel Pedro-

Raquel nasceu e cresceu numa aldeia, onde firmou a sua relação com a natureza e os animais. Tocou percussão numa banda filarmónica e passou por inúmeras atividades extra-curriculares. Aos 15 anos começou a estudar artes na Escola Artística António Arroio, onde se especializou em Realização Plástica do Espetáculo e aos 21 concluiu a Licenciatura em Estudos Comparatistas - Arte e Literatura Comparada, oferecida pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Atualmente desenvolve trabalhos de ilustração e aprofunda a investigação e escrita de artigos nas áreas da literatura e arte, a partir de uma perspetiva feminista e pós-colonial.

Texto de Raquel Pedro
Ilustração de Raquel Pedro
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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