In contra. Colisão entre existências distintas

No ponto de encontro de um tempo desencontrado, um ecrã

Deixo a memória de um encontro. Um encontro acontece sempre sobre a memória de outros. Do diálogo entre as imagens que nos deixam, surgem renascidos em formas novas. Pela perda, pelo fragmento, pela imperfeição, acontece a possibilidade de gerar, de regenerar o nosso estar no mundo, porque só o perdido, o fragmentado e o imperfeito se podem ligar. É por isso que falamos e somos falados “na palavra doutro”.

– A leitura é um exercício de humildade? – perguntei.

– É um exercício de humildade, sem dúvida. É um aprender a ser pobre. Um aprender a aceitar-se pobre. – respondeu-me Paulo José de Miranda.

– Que bonito. – comentei.

– Obrigado – disse o escritor, inclinando a cabeça.

Foi assim que terminámos a nossa conversa de há pouco. Contudo, foi deste modo, que, no silêncio, se me abriu. Quando sinto que há palavras que se aproximaram mais do que outras, registo-as na agenda, na data em que me chegaram. Já estou dentro da noite, mas transcrevi-as na primeira linha do dia. Quis partilhá-las no início da leitura, convidando quem aparecer a empobrecer com José Rodrigues Miguéis e Paulo José de Miranda.

Lembro-me de estar a ler Um Prego no Coração, que me foi apresentado numa aula na faculdade, numa varanda envidraçada de um quarto alugado com vista para a Praça de Espanha, e das luzes dos carros na rotunda aparecendo e desaparecendo entre os meus pés, pousados sobre o parapeito da janela. Nesta tarde, a vista é outra, são prédios que impedem que a luz entre na varanda, que, de tão pequena, não consigo estender as pernas. A cidade e a estação do ano, também, e Paulo José Miranda passou a ter uma voz, expressões e gestos, para mim, entre os quais o folhear das páginas de Um Homem Sorri à Morte – Com Meia Cara (1959), de José Rodrigues Miguéis.

O gosto e, ainda, a relação que o escritor encontra entre a obra e o presente contexto pandémico, foram o pretexto da escolha d’ Um Homem Sorri à Morte – Com Meia Cara. Entre a vida e a ficção, “ficamos face ao ponto de vista do doente, de alguém que se debate com o sofrimento entre a vida e a morte e, desse modo, como se encontra no próprio texto, distanciamento em relação ao mundo. Depois, este doente não é apenas alguém que momentaneamente padece de algum mal, que também o é, trata-se de alguém que vive os seus dias, mesmo quando não hospitalizado, como é o caso, numa relação especial com a doença, sempre em alerta para com ela. É o ponto de vista do hipocondríaco. Mas a hipocondria, que alaga todo o texto, extravasa para a nossa experiência humana comum. Em determinado momento, lê-se: «O que é um hipocondríaco? Será a obsessão das doenças uma expressão do temor da morte, ou de um exagerado apego à vida? […] a dramatização ou gratificação subjectiva de um obscuro desejo de aniquilamento? […] Será antes um meio de fugir às responsabilidades e exigências da vida diária e social, uma escapatória de indolência e timidez, de quem se entrincheira na muralha dos sintomas para poder dizer ao mundo: “Ah, vejam do que eu seria capaz, se tivesse saúde! Não me peçam nada, nada esperem de mim, eu sou um doente inepto”?»[1] Temos aqui, como se pode ver, um esboço da nossa relação com a vida e a morte através da procura de saber o que é uma doença. Doença essa que põe alguém a viver em constante suspeita de estar doente, como se tudo o que se sente fosse de algum modo um sinal do mau funcionamento do organismo. O hipocondríaco a ter consciência do corpo, do organismo como um mau sinal, transforma-se num detective perverso de si mesmo. Como Miguéis escreve: «Vivia na antecipação de um acidente. Mas qual?»[2] Que modo maravilhoso de descrever a situação, no fundo, de descrever a vida.

E o autor equipara o desconhecimento acerca desta doença com o desconhecimento acerca do sonho e da razão por que sonhamos ou acerca da criação estética ou ainda do amor e da paixão, modos de viver que vão para além da satisfação do impulso biológico de conservação da espécie. E, de algum modo, este tempo que vivemos, da Covid-19, se identifica com este livro subterraneamente. Ainda que não nos transforme em hipocondríacos, todos nós começamos a olhar com desconfiança para os sintomas do nosso organismo e a comportarmo-nos de modo a evitar, como se fosse possível, fazer com que o organismo não sinta sintomas indesejáveis. Repare-se que, tal como acontece com os hipocondríacos, que não aceitam os resultados dos testes que não comprovam a existência de uma doença, também os testes da Covid-19 não são claros em relação ao contaminado”, escreve Paulo José de Miranda, num documento com notas, que me enviou antes da entrevista.

É no desconhecimento que nos encontramos. Pela doença, experimentarmo-nos (estrangeiros). É um outro leitor-texto, que se ergue na expulsão para um lugar obscuro, despovoado, porque novo. Inaugura-se um exercício de leitura, que constitui uma espécie de reenvio à natureza. E somos pobres, não possuidores. Por isso, procuramos. E é só o trânsito que nos diz. As metáforas, através das quais a personagem se caracteriza, pertencem ao universo da viagem. José Rodrigues Miguéis, experimentou-se “expatriado”, num período de expatriação, em Nova Iorque: “A neve, que eu adorava, pareceu-me um túmulo. A minha solidão tornou-se infinita, como a de um condenado a deportação na Lua. Julguei não poder com o esforço. Iriam acabar assim, tristemente, as minhas andanças de expatriado?”[3]

O que nos coloca alerta, retira-nos poder. Reconhecemos que não coincidimos, ao tactear a distância entre o que nos acontece e o que sabemos. “Temos uma consciência muito nebulada daquilo que é a vida, do que nos acontece. Não percebemos bem aquilo que estamos a fazer, porque não temos os dados. Não sabemos o que falta, porque não temos o conhecimento do que é o ser humano.” A doença está em nós, mas é vivida como não fazendo parte, vinda de fora. “É algo que está mal. ‘Eu’ é quando estou bem. […] Isso dá-nos uma consciência de que não somos nós. Se a existência fosse assim, não chegava à existência. Se a existência, no início, se começasse a destruir a si mesma, não chegava a existir. Há algo dentro de mim que está errado.”

A identidade, enquanto comportamento e imagem, não existe. Mas, a experiência da doença, da que coloca a vida em perigo, mostra-o de forma abrupta. Acerca do momento em que o narrador é visitado por “uma criança de vinte e poucos anos”, que se “habituara a chamar filha”, e esta se inclina para o seu leito, aproximando-se-lhe, recorda: “[…] tive um momento de fraqueza e virei a cara para a esquerda, a esconder a minha deformidade: «Não olhe para mim (disse eu), não sou o mesmo!»”

A doença pode despir-nos, ao ponto do desaparecimento, a morte. Tudo o que identificava, caracterizava e situava o sujeito até então, cai. Passou a ser só (da) dor, sinusite crónica, “cólon espástico”, gastrite, peritonite, infecção grave no encéfalo. Construiu a sua própria imagem a partir desta, que inunda o mundo, tornando-se o próprio mundo, isto é, o ego.

Tudo o que não está relacionado com, apaga-se. “A queda da bolsa, um terramoto, a morte do vizinho, deixa de ter importância, porque tenho um inimigo dentro de mim, a destruir-me, a querer fazer com que desapareça. Há uma perda de identidade, daquilo que sou, porque, numa outra circunstância, todas essas coisas à volta importar-me-iam, mas, de repente, deixam de importar. Fico refém desse inimigo.” Sobre esse corpo a corpo com o corpo, n’ Um Homem Sorri à Morte – Com Meia Cara, lê-se: “Esta solidão do homem consigo mesmo, com o seu combate e o seu destino, este ensismamento ou alheamento do mundo, este (ouso escrevê-lo?) egoísmo, é uma das coisas mais pasmosas e, a um tempo, mais consoladoras, que a doença nos oferece. Cortam-se as relações com o mundo, e todos os factores da vida que não digam respeito à salvação física são desprezados. Como entramos na vida, na solidão e obstinação dum esforço pessoal, assim lutamos para mantê-la e afrontar o fim.”[4]

Notou, talvez mais tarde, quando escreveu o relato, já recuperado, no lado da saúde, que, também para alguns médicos, era a sua própria patologia, “era apenas a «infecção do ângulo ponto-cerebeloso»”[5], considerado “um objecto de curiosidade clínica, uma simples trouxa humana”: “[…] o sujeito agarrou-me com brusquidão pelos cabelos e começou a descrever o meu estado ao visitante: arrepelando-me, forçou-me a inclinar a cabeça para a direita e para a esquerda, puxou-me e observou-me as orelhas, espiou-me os olhos, o nariz, a garganta, e sempre descrevendo os meus sintomas, sem o mínimo recato nem qualquer consideração pela pessoa do portador. Eu não existia, era um feixe de sintomas.”

José Rodrigues Miguéis, enquanto narrador e personagem, ao longo do seu internamento, vai convocando os outros transeuntes do hospital, médicos, enfermeiros, pacientes. Com atenção, traça-lhes o carácter, interpreta-os e comenta-os. A este respeito, perguntei a Paulo José se este comportamento, de quem se experimenta no lugar do diagnosticador, é uma forma de resgate, na primeira pessoa, da sua autoridade, num período onde foi só a terceira, a cobaia, o cenário, o espectáculo. “Não tenho a certeza se esse exercício era de quando estava doente ou, mais tarde, de quando escreve. Essa é a parte da ficção do texto, a organização do olhar, das impressões. […] Esse diagnóstico já é do escritor, e não do hipocondríaco. É um livro muito híbrido, mas é uma obra literária.” Neste sentido, pensámos a noção de testemunho, a importância, ou não, para o leitor, de estar a par da biografia do autor, que sofreu destas doenças, era hipocondríaco e expatriado. Uma vez que, apesar de dedicar a obra a dois médicos, diz que esta “foi sobretudo para os hipocondríacos – os aterrados da doença, os obcecados do fim […], depois para os que queiram saber como se reage num leito de hospital, quando a morte ronda; e talvez também para aqueles médicos a quem interesse saber como vêem os seus doentes.” Será que estes destinatários precisam de ter conhecimento da veracidade do relato, para que se sintam acompanhados, unidos pelo testemunho? “O texto não ganha com isso, Raquel. Mas, para a crítica literária, isso é importante porque nos permite ver até onde estica a corda, até onde ele consegue fazer aquela tensão entre ele e o outro, que é o literário. É muito importante e interessante para percebermos como monta isto, onde faz o corte entre o que é ele e a literatura”, responde-me, apontando, imediatamente, um excerto que me passou despercebido, e lê-mo:

“Ao traçar estas páginas de memórias de uma crise, entre tantas, que talvez um dia reúna em maior tomo, punha-se-me este problema: até que ponto pode um escritor falar das suas experiências pessoais, sem incorrer na pecha do subjectivismo e sem ser indiscreto a respeito de si próprio? […] O sofrimento, como parte tecidual da existência, é um enigma que empolga os homens. // Mas independentemente da desproporção dos caos, a questão peca pela base, pois não é do autor que aqui se trata, essencialmente, mas sim do que, na sua experiência pessoal, possa ser comum, comunicável […] O que importa ao escritor, subjectivador do objectivo […] é recriar para os leitores o quadro das experiências de que foi centro, dando-lhes a ilusão, porventura instrutiva, de serem eles os actores do drama.”[6]

É aqui que Paulo José Miranda encontra o fascínio, o confronto entre “o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, que, no fundo, é o que designa a Poesia, desde Aristóteles, que escreveu que a História diz-nos o que aconteceu, e a Poesia, o que poderia ter acontecido. Esta guerra entre o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, é este embate. É o que faz disto uma obra literária, independentemente do testemunho estar lá também.”

A travessia chega a uma “suspensão da morte”. Quase no fim d’ Um Homem Sorri à Morte – Com Meia Cara, José Rodrigues Miguéis partilha que “a vida tem em si mesma um mérito, e se alguma finalidade nela podemos lobrigar é esta apenas: perpetuar-se, expandir-se, multiplicar-se.”[7] Partindo ou não de factos pessoais, a literatura é biográfica, porque é uma escrita da vida, amplia-a, perpetua-a, expande-a, multiplica-a. E o que é a vida? Não a sabemos. “Dela, só temos uma consciência muito nebulada”, disse-nos o escritor no início. “Ler faz-nos perceber o quão desconhecidos somos de nós mesmos. Faz-nos ter cada vez mais essa clareza, essa claridade, essa percepção.” Pensamos que ganhamos, mas na verdade perdemos? –interroguei. “Não é para perder. Tornamo-nos mais conscientes do que não somos. Perder a identidade, a noção do que estamos a dizer, perder a ilusão de que, enfim, a ética pode ser dita.”

– A leitura é um exercício de humildade?

– É um exercício de humildade, sem dúvida. É um aprender a ser pobre. Um aprender a aceitar-se pobre. – respondeu-me Paulo José Miranda.

– Que bonito. – comentei.

– Obrigado – disse o escritor, inclinando a cabeça.


[1] José Rodrigues Miguéis, Um Homem Sorri à Morte – Com Meia Cara, Lisboa, Estúdios Cor, 1965, p.26

[2] Op.cit. p.33

[3] Op.cit., p.37

[4] Op.cit. p.96

[5] Op.cit., p.104

[6] Op.cit., p.11

[7] Op.cit., p.114

Este artigo encontra-se ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia da cortesia de Paulo José Miranda