Localizado no coração da cidade de Coimbra, o Salão Brazil é nos dias de hoje uma das referências na oferta cultural da cidade de Coimbra, com uma programação musical intensiva e abrangente a nível estilístico.

Funcionando como sede da associação Jazz ao Centro Clube (JACC) desde 2012, é preciso conhecer a história desta mesma associação para que se compreenda a natureza da atividade levada a cabo neste espaço. Nesse sentido, é precisamente com José Miguel, membro da direção da JACC, que falamos. Natural de Viseu, reside em Coimbra desde que para lá foi estudar, e colabora com a JACC praticamente desde a sua génese, no início do milénio.

“Desde o início da atividade da JACC que o seu objetivo era promover e divulgar o jazz num âmbito nacional, sendo que a principal intenção inicial era ter uma programação regular de jazz”, explica. Corria o ano de 2003, e Coimbra era capital nacional da cultura quando foi constituída a associação, que desde então levou a cabo uma série de iniciativas, entre as quais a revista Jazz.pt e a editora JACC Records, sendo a primeira de todas essas iniciativas o festival Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, que, acontecendo em espaços diversos (alguns menos usuais) da cidade, procurava precisamente levar a música às pessoas, e aproximar o público da oferta cultural que havia em Coimbra. E se, por um lado, é essencial fazer referência a essas mesmas iniciativas que a JACC foi levando a cabo com vista a promover e divulgar o jazz em Portugal, foi apenas após quase 10 anos de atividade por parte da associação que foi possível concretizar a ideia inicial de uma programação regular de jazz.

Integrado num edifício centenário no centro histórico da cidade, o Salão Brazil, que durante muitos anos tinha funcionado como salão de jogos, até ser reconvertido em 2002 num restaurante, começou precisamente nessa década a receber propostas para programação musical por parte de diferentes agentes culturais da cidade, acabando por integrar a programação do festival Jazz ao Centro a partir do ano de 2006, recebendo as after-hours desse mesmo festival. A juntar a isso, recebia ocasionalmente eventos promovidos pela associação (aniversários da mesma, concertos pontuais, entre outros), pelo que, em 2012, sabendo da intenção do arrendatário do espaço em fazer o trespasse do negócio, a JACC chegou-se à frente e assumiu o mesmo, passando o Salão Brazil a funcionar como sede da associação.

“Estávamos há muito tempo ligados ao Salão, e sabíamos o potencial que este espaço tinha enquanto sala de concertos”, refere José. No arranque da programação regular do espaço, havia desde logo uma intenção direcionada a esse mesmo potencial, sendo claro desde o início que a música deveria ser protagonista: “Queríamos que isto fosse uma sala de concertos que tem um bar que serve de suporte e não o contrário”, explica.

No que toca à programação propriamente dita, se o jazz continua até aos dias de hoje a ter uma fatia significativa da programação (hoje em dia, em média, entre ¼ a 1/3 da programação mensal é ocupada por projetos de jazz), a partir de um determinado momento sentiu-se a necessidade de abrir a programação a propostas de outros estilos musicais: “Sentimos que era fundamental assumir esta como uma casa, onde as pessoas sabem que vão encontrar propostas de qualidade independentemente do género musical”, explica. A aposta, que acabou por se revelar certeira, visava precisamente captar novos públicos, e fazer chegar novas pessoas ao jazz: “Temos noção de que temos diferentes públicos que cruzamos aqui: muitas pessoas que, ao início, se calhar vinham cá para ver um concerto de rock acabaram por ficar curiosas e começaram a assistir aos projetos de jazz que aqui passavam. Esse cruzamento de públicos era um dos objetivos que tínhamos ao fazer esta abertura estilística”, defende.

Numa cidade com uma dinâmica forte ligada ao jazz, para a qual terá por certo contribuído o aparecimento do curso de instrumentista de jazz do conservatório de Coimbra, espaços como o Salão Brazil e o Quebra assumem a preponderância na oferta local, sendo assumido que muito do público acaba por ser comum aos dois espaços. Nesse sentido, a gestão feita por ambas as partes deve ser cautelosa, defende: “Há uma relação de respeito entre as diferentes casas que promovem jazz, pelo que entre essas mesmas casas procura-se articular a programação e agenda de forma que ninguém saia prejudicado”, explica. Mesmo alargando o espetro musical, para José é indiscutível a preponderância de Coimbra em relação a outras capitais de distrito (com exceção de Lisboa e Porto), no que há oferta cultural diz respeito. Se para José, por um lado, “não existe tal coisa como demasiada oferta cultural”, o próprio assume que, numa cidade de média dimensão, tal quantidade de oferta exige por parte de casas como Salão Brazil um trabalho intenso no que diz respeito à comunicação e divulgação dos concertos, no sentido de levar a música às pessoas e vice-versa. Nesse sentido, e tendo presente a forte ligação da cidade à tradição académica, um dos desafios do Salão Brazil continua a ser precisamente o de conseguir captar mais público proveniente das universidades, revela. Uma “luta” que, refere, também é travada pelos outros agentes culturais da cidade.

Não deixando de referir, no caso da JACC em particular, os apoios que a associação recebe da autarquia e da DGArtes, José explica a responsabilidade acrescida consequente, e o compromisso que deve assumir com o público e com os músicos. Nesse sentido, o papel de agente cultural da Jazz ao Centro tem também reflexo na programação do Salão Brazil, na qual concertos destinados a lançamentos de discos, ou a bandas que estão em circulação pelo país, assumem uma fatia significativa. Importante será também referir o andar superior do edifício, que, juntamente com o escritório, conta ainda com 5 quartos, permitindo à associação receber residências artísticas por parte de artistas que lá vão criar e gravar, especialmente na área do jazz.

José Miguel refere ainda, a propósito desse papel desempenhado pela JACC, projetos levados a cabo mais recentemente como a “Cena Jovem Jazz.pt”, que visa dar apoio a novas edições discográficas por jovens músicos, e o Ensemble “Mondego”, formado por músicos da região (a direcção artística está a cabo do saxofonista João Mortágua e do trompetista Ricardo Formoso, ambos a residir actualmente em Coimbra), e que durante os próximos anos tocará composições encomendadas a outros artistas locais: “É uma forma de mostrarmos que a cidade também pode ser criadora – promovendo a criação de obras que tenham uma ligação com a comunidade de cá”, explica.

A aposta numa oferta boa e diversificada é visível ao atentarmos na programação do passado e futuro recentes (inclui desde artistas/projetos como Paus ou Legendary Tigerman a grupos de jazz nacionais e internacionais com nomes como Jeffery Davis ou João Grilo), sendo que, para José Miguel, é essa própria oferta que impulsionará cada vez mais o crescimento do público para as diferentes propostas que naquele espaço (assim como noutros espaços da cidade) são feitas.

Texto de João Espadinha
Fotografias da cortesia do Salão Brasil

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