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Palhetas Perdidas: Sociedade Harmonia Eborense

Tendo sido considerada Instituição de Utilidade Pública em 2015, e reconhecida como a primeira Entidade de Interesse Histórico e Cultural ou Social Local da cidade de Évora em 2018, a Sociedade Harmonia Eborense (SHE), sediada desde 1902 na praça do Giraldo, tem nos seus mais de 170 anos de história, no seu vasto património, e na sua diversificada oferta cultural ligada ao teatro e à música os seus pontos de destaque.

Fundada em 1849, no contexto social fracturante do pós-guerra civil de 1828-1834, a SHE remete no seu nome precisamente para o duplo sentido da palavra Harmonia – na música, e entre os homens; tendo sido esse o seu leitmotif desde então, segundo nos explica Pablo Vidal, actual presidente e responsável pelo pelouro da música. “O teatro e a música estiveram presentes na vida da sociedade desde o seu início, pelo que temos ainda hoje partituras e antigos textos de peças de teatro criados na SHE, assim como uma vasta biblioteca que inclui livros raros e únicos”, refere, lembrando ao mesmo tempo que a preservação desse espólio e património, de elevado interesse cultural e histórico, é também uma das principais missões da associação.

Tendo atravessado, naturalmente, diversas fases e acontecimentos desde a sua fundação, incluindo a Primeira Guerra Mundial (época em que foi um local primordial de acesso a notícias sobre a mesma), nos anos da ditadura a SHE viu a sua actividade cultural ser reduzida, em prol de uma vocação mais recreativa, destinada a um grupo mais restrito. “Na altura do Estado Novo, pode dizer-se que a SHE era, de certa forma, um pouco complacente com o regime”, explica Pablo. “Era mais elitista, exclusivamente masculina, e, com o passar dos anos, foi progressivamente ficando cada vez mais orientada para o jogo.” Já na década de 90, o jogo foi proibido em assembleia, o que permitiu à SHE regressar à sua vocação cultural inicial e, ao mesmo tempo, tornar-se uma casa mais aberta a todos, sem qualquer tipo de restrições.

Oriundo da Argentina, Pablo chegou a Portugal em 2001, tendo arranjado trabalho em Évora como músico-terapeuta. Descobriu a sociedade em 2004, e foi tendo contacto com a mesma enquanto músico e enquanto associado. Em 2017, foi convidado a integrar a direcção como vogal e responsável pela programação musical, vindo a presidir posteriormente a direcção formada em 2018, que se mantém até aos dias de hoje.

“Entre 2010 e 2012, a sociedade esteve fechada, e, nessa altura, sai a lei do arrendamento, pelo que o valor do mesmo dispara”, explica. “Nesse contexto, a oferta cultural foi essencial para trazer pessoas a este espaço, e dessa forma sustentar e manter a SHE.” A juntar aos concertos, que acontecem uma vez por semana aos sábados ou sextas, a SHE tem também uma Jam aberta às quartas-feiras, que atrai muitos dos músicos locais de Évora, aulas de guitarra e de forró, entre outras actividades ligadas a diferentes áreas artísticas, tais como o teatro e a literatura.

O presidente lembra, nesse sentido, a relevância de esta se tratar de uma organização sem fins lucrativos, e destaca o papel do voluntariado na actividade da mesma: “Tirando dois funcionários que temos na copa e na porta, toda a gente que colabora desde a direcção a sócios fá-lo de forma voluntária, tendo como motivações apenas a dinamização da associação e da cidade, e a possibilidade de oferecer aos sócios e ao público uma programação abrangente e diversificada.”

Essa diversidade na oferta tem reflexo nos diferentes públicos que por ali vão passando. Se determinados estilos têm um público relativamente específico (o músico dá como exemplo o público que assiste aos concertos de hip-hop), a convivência entre os sócios habituais e os públicos dos diversos estilos tem sido tranquila e enriquecedora, sendo comum a todos os concertos, segundo Pablo, a envolvência e interesse por parte de quem assiste, o que leva a que muitas das bandas e artistas manifestem vontade em voltar àquela casa.

“Numa cidade com a dimensão de Évora, levar a cabo actividade cultural é sempre um desafio”, defende o presidente, remetendo para a proporção entre número total de habitantes face à vasta oferta cultural existente na cidade (evocando a eventual relação entre o aumento dessa oferta com a candidatura da cidade a Capital Europeia da Cultura em 2027), e ao fenómeno universitário que leva a que muitos estudantes saiam da cidade ao fim-de-semana. “Ainda assim, é inegável que existe público para essa oferta e que as pessoas têm interesse nas coisas que vão acontecendo”, defende.

Assumindo que até agora e em parte por constrangimentos ligados ao PAEL (Programa de Apoio à Economia Local destinado a municípios, lançado em 2012), a SHE não recebe qualquer apoio financeiro por parte da câmara, Pablo refere contudo que a relação entre as duas partes é boa e se traduz para já num apoio logístico por parte da Junta de Freguesia para as celebrações do aniversário da SHE, a 23 de Abril. Para o futuro, existem negociações com autarquia para a realização de um festival no centro histórico da cidade, em parceria com a Associação Pé de Chumbo. “A ideia é realizar em quatro dias um conjunto de actividades e convidar as diferentes associações do distrito”, explica.

Se nesse evento se pretende celebrar, de certa forma, o papel do movimento associativo enquanto ferramenta da sociedade, Pablo defende que o associativismo em si é precisamente um conceito central na história e na maneira de ser da SHE, e deve ser tido em conta no presente e futuro da sociedade: “Não queremos apenas público a assistir aos concertos e peças, queremos sócios que tenham uma participação activa”, defende. Nesse sentido, acredita que o exemplo que dá ao trabalhar em regime de voluntariado deve incentivar outros a fazerem o mesmo.

“O que recebemos em troca é podermos ter aqui actividades culturais e receber diferentes públicos de várias idades, vindos de várias cidades diferentes”, explica. Dessa forma, procura-se tanto mostrar aos sócios mais antigos que a sociedade está viva e dinamizada, como incentivar a que os mais jovens se liguem àquela casa e à sua cultura. “Se estas casas não forem dinamizadas e se não houver juventude a pegar nelas e a compreender o valor do associativismo, morrem” defende. Nesse sentido, para o presidente, a vida e saúde da Sociedade Harmonia Eborense dependerão, mais do que tudo, “da força das pessoas e da vontade destas em fazer as coisas por uma causa maior que elas próprias”.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

Texto de João Espadinha
Fotografia da cortesia da Sociedade Harmonia Eborense

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