Só este ano nos vimos obrigados ao distanciamento social que a COVID-19 impôs. Fomos forçados a ter deficar em casa, a deixar de estar fisicamente com aqueles que nos eram próximos e a ficarmos retirados do contexto social a que estamos habituados. Mas será que foi só a COVID-19 que impôs este distanciamento social? Ou já não andaríamos todos distanciados, socialmente, uns dos outros? Todos nós sabemos que os tempos mudaram. E não me refiro à pandemia associada à COVID-19.

Se pensarmos no nosso quotidiano, quantos de nós já não teremos visto situações em que observamos grupos de amigos, familiares, conhecidos que estão fisicamente próximos mas socialmente distantes? Refiro-me, por exemplo, à utilização individual do telemóvel, situação que vemos, frequentemente, em contexto de grupo em que cada um dos elementos está focado no ecrã do seu dispositivo, não existindo interação presencial entre os diferentes elementos do grupo. Esta nova abordagem trouxe transformações sociais que, provavelmente, todos vivenciamos diariamente. Talvez já terão sentido que, em certo momento, estavam a falar com alguém ou com intenção de comunicar alguma coisa a essa pessoa mas esta estava focada no seu telemóvel. Tornámo-nos socialmente mais distantes a cada dia que passa e não foi preciso que fosse a COVID-19 a fazê-lo. Já o estávamos a fazer através das nossas atitudes mesmo que, por vezes, inconscientemente.

Sei que posso parecer algo ingénuo por apresentar este discurso que parece corresponder ao moralmente desejável mas que, na prática, todos nós o contrariamos.

A pandemia da COVID-19 apenas fez salientar uma outra pandemia que já estava instalada: a pandemia dos afetos. O confinamento e o distanciamento social serviram o propósito de nos fazer sentir e aperceber o quão solitários estamos nas nossas vidas e fez-nos valorizar algo que antes tínhamos oportunidade de fazer diariamente, que é estar próximo daqueles que nos são próximos. Fomos obrigados a repensar formas de estarmos com aqueles de quem gostamos e sobretudo estratégias para evitar sentirmo-nos tão sós, fruto do isolamento e distanciamento social. As tecnologias que acima critiquei pelo seu uso generalizado, que antes desta pandemia, haviam minado as nossas relações sociais foram, no caso da COVID-19, a nossa tábua de salvação para conseguirmos comunicar com a nossa rede de suporte social. As videochamadas passaram a fazer parte das nossas rotinas e possibilitaram-nos manter a socialização com pessoas diferentes daquelas que habitam connosco. Esta diversificação da rede social e das pessoas com as quais comunicamos, apesar de parecer um preciosismo, é muito importante como fonte de desenvolvimento das nossas competências sociais e para o nosso bem-estar mental. Até porque o nosso ambiente doméstico enfrentou fortes desafios pela socialização 24h com as mesmas pessoas sob um ambiente que foi marcado pela ansiedade, nervosismo e tensão social. Vimo-nos a ter de falar, muito mais, com aqueles que habitam connosco e a resolver algumas situações e conflitos que antes não aconteciam, pois não passávamos tanto tempo juntos com as mesmas pessoas.

Dito isto, não foi só a COVID-19 que nos fez perceber que talvez não tenhamos valorizado devidamente a importância dos afetos, das emoções e dos sentimentos na nossa vida. Os abraços, os beijos e os cumprimentos foram também reinventados a até proibidos em certos contextos. Mas, já antes disto, quantos de nós já não se abraçavam, beijavam ou cumprimentavam devidamente? Mais do que isso, quantos de nós já não diziam, com alguma regularidade, aquilo que sentiam pelas pessoas de quem gostavam? Esta pandemia dos afeto que foi acentuada pela pandemia da COVID-19 tem de nos obrigar a repensar sobre isto: quanto tempo mais ou que novas pandemias precisam surgir para percebermos que devemos valorizar as pessoas que nos fazem bem, dizer-lhes que gostamos delas e valorizar a troca de afetos? Expressões como gosto de titenho saudades tuasfazes-me faltaés importante para mimobrigado por estares aqui já deixaram de fazer parte do nosso discurso muito antes da COVID-19. Não quer dizer que isto seja válido para todas as pessoas. Mas, de facto, são mais recorrentes os discursos dos pacientes que procuram o meu acompanhamento psicológico e que salientam o distanciamento e o isolamento social, uma menor autoestima e maiores pensamentos associados à solidão, até de pessoas jovens, ao contrário da ideia pré-concebida de que só as pessoas mais velhas é que se sentem mais sós. Os jovens também se têm sentido sós. podemo-nos sentir sós, apesar de estarmos rodeados de pessoas nas vossas vidas. Sentirmo-nos sós não é uma fragilidade. É fruto da sociedade em que vivemos, das evoluções e transformações sociais e nem sempre depende de nós. Não obstante, podemos adotar comportamentos e estratégias para saber melhor lidar com a solidão, algumas das quais já mencionei anteriormente, nomeadamente, valorizar e comunicar mais aquilo que sentimos, passar mais tempo em interação social com as pessoas que nos fazem sentir bem, dizer-lhes mais vezes o que sentimos por elas. Por último, importa salientar que procurar apoio psicológico, nesta fase, pode ser benéfico para saber lidar melhor com estes novos desafios com que todos fomos confrontados. Pedir ajuda nunca é um sinal de fraqueza mas significa, antes, que somos fortes o suficiente para admitirmos que não estamos a conseguir reunir todas as estratégias para lidar com determinado assunto e que, para isso, recorremos, de forma pró-ativa, a uma solução que nos permita ultrapassar os nossos obstáculos.

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Texto de João Geraldes
Psicólogo
Clínica Médica da Conduta
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