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Pelo direito a um imaginário insubmisso: a cultura das margens que Lisboa criou

Carla M. Cardoso fala-nos sobre a transformação do Terreiro do Paço em Lisboa, de parque de estacionamento a espaço de profunda significância histórica, e destaca a importância do Festival Iminente como um catalisador para celebrar a diversidade cultural e reivindicar o direito à cidade e à expressão. Carla convida-nos ainda a participar nesta edição do festival e a contribuir para um futuro onde as margens se tornem centros, onde todas as histórias sejam valorizadas e onde a cultura seja verdadeiramente acessível a todos.

Texto de Redação

Fotografia da cortesia de Carla M. Cardoso

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O sítio onde hoje encontramos um homem vestido de panda a atrair turistas para uma fotografia com o Cais das Colunas e o Tejo em pano de fundo, já foi um parque de estacionamento. Foi assim que o conheci nas décadas de 1980 e 1990, mas, através de uma imagem que a artista Ângela Ferreira me deu a conhecer há umas semanas, descobri que nesse cais já existiu também um pequeno palco onde escravos eram expostos para serem vendidos. Aquele que é hoje um espaço de entretenimento turístico, já foi local de profunda dor histórica. Praça onde se assassinaram reis e se fizeram revoluções, onde um espanhol foi defenestrado, onde se realizaram autos de fé e se encenaram manifestações, onde livros e obras de arte importantes arderam, onde rainhas desembarcaram e onde um papa celebrou a missa, foi também local onde muitos morreram afogados ao fugirem dos fogos que o terramoto gerou. O Terreiro do Paço é uma metáfora poderosa para a cidade de Lisboa e para muitas outras cidades em todo o mundo. Revela a nossa capacidade de seguir em frente, muitas vezes apagando histórias essenciais, mas, muito mais vezes, silenciando histórias invisíveis dos que lá foram vendidos, dos que lá morreram afogados, dos que por lá correm para não perder o barco, dos que lá celebram passagens de ano com uma garrafa de espumante barato comprado na Baixa, numa loja de indianos, que não são indianos, mas que não sabemos quem são.

Este ano, esta praça polifónica é também o palco para um Takeover do Festival Iminente, sob o mote descentralizar. Por uma cidade sem margens, só centros. Esta é mais do que uma simples declaração; é um desafio ao modo como olhamos e utilizamos os nossos espaços urbanos e uma forma de convocatória para criar visibilidade e descoberta cultural. É um apelo para repensar o desenho das nossas cidades.

Um dos trabalhos mais inspiradores do Iminente é a sua colaboração com bairros a que muitos chamam periféricos de Lisboa. Como nos chama à atenção o texto de introdução da exposição do colectivo Unidigrazz na Galeria Underdogs: “Aquilo a que chamamos 'periferia' e 'centro' está nos olhos de quem vê.” Os workshops artísticos comunitários não são apenas eventos, são actos de capacitação que ambicionam a reivindicação do direito à cidade, a visibilidade de culturas e a expressão de outras vozes. É um trabalho colectivo que, militantemente, procura demonstrar que a cultura não é monolítica, mas diversa e capaz de gerar maior equidade.

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie alertou-nos para os perigos dos estereótipos, não por serem inteiramente falsos, mas porque são incompletos. Reduzem uma única história a ser a única história, silenciando todas as outras vozes e experiências que um lugar pode conter. O Terreiro do Paço, com a sua história multifacetada, é testemunho dessas múltiplas histórias que uma cidade pode abrigar, mas que repetidamente apaga.

Quando escuto os participantes deste projecto a que, colectivamente, se decidiu chamar “Bairros” e que vivem geograficamente bem no centro da área metropolitana de Lisboa, escuto histórias dessas visões estereotipadas, histórias de distanciamento, de segregação, de negação do seu direito a usufruir da cidade e dos seus serviços, histórias de racismo, de violência e de paragens de autocarro em sítios estranhos e distantes.

O trabalho que estes participantes desenvolvem em colaboração com artistas que puderam escolher é um exemplo sublime de como a cultura pode transcender fronteiras e desafiar estereótipos, oferecendo uma nova perspectiva sobre as margens, possibilitando um direito fundamental: o direito ao imaginário.

Num mundo onde estas distâncias parecem estar a crescer, o Iminente Takeover, ao apresentar o fruto dessas colaborações, pode ser um momento único de celebração para nos recordar que podemos escolher construir pontes em vez de muros, que podemos celebrar a diferença em vez de temê-la, que podemos dar voz às margens para que possam ocupar o centro, que podemos ir descobrir outros centros, e que tudo isso junto nos torna incomensuravelmente mais ricos. Este imaginário insubmisso que queremos mostrar com este Takeover é um convite para que todos nós possamos sonhar juntos com um futuro mais participado.

Ao trazer artistas e comunidades das margens para o centro da cidade, o Iminente tenta cumprir a promessa de que a cultura pode ser uma força transformadora, um agente de mudança que inspira e capacita. É uma celebração do pluralismo de vozes e perspectivas que enriquecem o nosso mundo.

Para isso, desafiámos artistas com maior visibilidade a connosco construírem uma constelação de outros artistas, muitas vezes emergentes, que revelam a multiplicidade com que é feita a nossa cultura, oferecendo palco e visibilidade no centro mais institucional do país. O Iminente Takeover quer apresentar a cultura não como um clube exclusivo, mas como um espaço aberto a todas as gentes.

À medida que nos aproximamos dessa grande celebração, é importante lembrar que a cultura, apesar de ser também expressão de identidades, não tem fronteiras, e que o direito à cidade, à cultura e à expressão é fundamental para uma sociedade justa, participada e, acima de tudo, mais empática. Queremos transformar o Terreiro do Paço, outrora um parque de estacionamento, num centro de celebração dessa variedade cultural e de todas as imaginações insubmissas. É para nos lembrar que a utopia faz bem, que podemos mudar o mundo, neste caso, com um festival de cada vez.

Faço, por isso, aqui esse convite. Os carros já não têm lá lugar, deixem-nos de fora, mas todos os que quiserem connosco construir esta cidade policêntrica, sem margens, nem periferias geográficas ou de outros tipos, venham ao Terreiro do Paço nos dias 14 e 15 de Outubro fazer parte desta celebração e reivindicação de cultura, de espaços de diversidade e do direito à cidade. Juntos, podemos criar um futuro onde as margens se tornam centros, onde todas as histórias possam ser ouvidas e celebradas, e onde a cultura possa ser verdadeiramente para todos. É este direito ao imaginário (ainda insubmisso) que queremos reivindicar.

- Sobre a Carla M. Cardoso -

Carla M. Cardoso é designer, professora e gestora cultural. Licenciada em Design de Produto na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa é diretora do Iminente onde coordena vários projetos, onde se destaca o Festival Iminente e Bairros: Workshops Artísticos Comunitários Iminente. É professora nas licenciaturas em Design Industrial, Programação e Produção Cultural e nos mestrados de Design de Produto e Gestão Cultural na ESAD.CR. Entre 2002 e 2012 foi coordenadora de produção e desenvolvimento de programa da experimentadesign. Foi diretora de produção da Trienal de Arquitectura de Lisboa (2012) e da Est Art Fair (2014). Foi coordenadora executiva do doclisboa’13 (2013), do Projecto Sociedade (SNBA, 2013/2014), do European Creative Hubs Forum para (British Council, 2015), do programa Escolha—Arquitectura (OASRS) e da exposição Arquitetura em Concurso (CCB / Garagem Sul, 2016), da exposição Paradisaea (Lux-Frágil, 2018), das exposições Agricultura e Arquitetura (2019) e O Mar é a Nossa Terra (2020) na Garagem Sul do CCB. Em 2022 foi co-curadora, com Alexandre Farto e António Brito Guterres, da exposição Interferências – Culturas Urbanas Emergentes no maat. Desde 2007 é co-diretora da Associação Futuro, onde co-dirigiu e coordenou vários programas e candidaturas.

Texto de Carla M. Cardoso
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