Por te amar, não te levo as pipocas de canela.

Tenho o cesto quase cheio, que teimo em trazer no lugar do carrinho e acabo quase sempre a meter o rossio na rua da betesga, coisa que até faço bastante bem, com esta mania de ser a maria organizada.

Já tenho quase tudo o que preciso e ia pôr as pipocas de canela por cima das bolachas com recheio de chocolate do menino, mas voltei a pô-las na prateleira num rasgo de consciência. É que quando não a tenho leve, não consigo dormir e já sei que não podes comer estas coisas.

O cartão onde cai o subsídio de refeição deu para pagar as compras todas, até mesmo os livros a que não resisti e me tiveram horas no corredor, alheada do mundo, entre palavras e com a cara enterrada no cheiro das páginas novas.

Comovo-me sempre que te vejo brincar com o teu neto, enquanto cocheias e esperas pela cirurgia que espera por ti. 

Imagino que tenhas muitas dores, mas é raro queixares-te. 

Sei que todo o tempo não te chega quando estás com ele. 

Ouvi, há uns tempos, que ser avô é ser pai com açúcar e acho que é daquelas coisas que só se entendem quando somos pais. 

Deixa-te a boca doce poderes enrolar-te no chão com o teu neto enquanto ele dá gargalhadas contagiantes sem teres que te preocupar com a comida no lume, a roupa para estender ou os transportes do dia seguinte. 

É uma fase de vida diferente daquela que vivo enquanto mãe e profissional, aquela que tu viveste quando eu era pequena. 

É não querer saber se há migalhas no sofá ou no chão e explicar tudo até à exaustão. 

É de lamber os beiços quando lhe ralhas e os cantos da tua boca deixam adivinhar um sorriso que tentas conter. Um sorriso de orgulho e de um amor que não tem medida e sei que, como eu, lhe queres mais a ele que à própria vida. 

Quem meus filhos beija, minha boca adoça e eu? Eu vivo com uma bola de berlim coberta de açúcar no céu da boca.

Acabei por trazer as pipocas de canela. 

O amor é egoísta, deixem-me lá em paz.

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Texto de Cláudia Cecílio
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