Ajudam a reduzir a ansiedade e o stress, aproximam-nos da natureza e são pedagógicas. As plantas fazem, cada vez mais, parte das casas e do dia a dia de muitos portugueses, e a pandemia parece ter contribuído para o aumento desta tendência. Mais que meros elementos decorativos, estes seres vivos tornam essenciais para quem os tem.

Sofia Manuel, mais conhecida por atripeirinha, teve contacto com plantas desde muito cedo na casa da avó. “Na altura, nem sequer percebia o quanto gostava das plantinhas. Era coisa de casa da avó. Ia para lá, sempre depois da escola, e então era um divertimento para nós tratar das plantas, tanto no jardim, como dentro de casa.”

Mas foi apenas, quando saiu da casa dos pais, e depois de uma temporada de trabalho em Moçambique – um local particularmente rico em flora –, que começou a ter as suas próprias plantas. “Depois de voltar de Moçambique, tive a minha própria casa, o meu primeiro ninho, e comecei a sentir que estava tudo muito despido, tudo muito sem vida. E foi aí, em 2016, que trouxe a minha primeira planta para casa.” A essa seguiram-se outras, muitas outras. Hoje tem mais de duzentas. “Comecei logo a lembrar-me da minha avó, então comecei a trazer mais, muitas das espécies que a minha avó já tinha, e foi aí que comecei, realmente, a estudar sobre o assunto.”

Das quatro paredes de casa, a jovem levou esta “paixão” para as redes sociais, ancorada numa outra, a de ensinar. “Juntei o útil ao agradável, porque, sempre que mostrava as minhas plantinhas, surgiam várias perguntas e acabava sempre por ter que dizer as mesmas coisas a pessoas diferentes. Então decidi criar também a página do YouTube e começar o Instagram mais a sério. Juntei as duas paixões: as plantas e comunicar e ensinar.”

Atualmente conta com mais de 17 mil seguidores no Instagram e cerca de 20 mil no YouTube, números que viu serem impactados pela pandemia. “Antes já estava a crescer muito e depois, na pandemia, continuou, porque as pessoas estavam privadas até de um passeio no parque. Não há ninguém que fique infeliz de ir ao parque, fazer um piquenique e por os pés na terra. Então, sem dúvida, que as pessoas começaram a trazer a natureza para dentro de casa e foi mesmo necessário nessa altura. As pessoas refugiavam-se até um pouco no cuidar de plantas.”

Para Sofia, estes seres vivos saltaram uma geração, a dos seus pais. “Foi quando houve, assim, a grande industrialização, só betão por todo o lado”, explica. Agora acredita que há uma vontade de aproximação da natureza, que associamos, “desde sempre, a este bem-estar”, que se reflete nesta tendência. “Esta geração está mais a precisar deste contacto com a natureza e de voltar às raízes, e as plantas em casa não são só um objeto de decoração. Elas são seres vivos que estão ali, que respondem aos estímulos e aos cuidados que lhes damos. E é tão gratificante quando vemos uma plantinha a desenvolver, com o cuidado que lhe demos.”

“Costuma-se dizer que os filhos são agora os animais, e os animais são as plantas.”, diz, entre risos. Num mundo cada vez mais citadino, em que parte da população vive em apartamentos, ter plantas em casa permite “trazer o jardim para dentro de casa”.

Trazer a natureza para dentro de casa

Natural de uma aldeia em Viseu, Lexie começou a ter plantas assim que veio estudar para Lisboa, onde ressentiu a falta de espaços verdes. “Não há assim muitos e aqueles que há é mais relva, não têm árvores, nem muita variedade.” A primeira planta que comprou foi um cato, quando morava num quarto “minúsculo”, na capital. Ele vingou e cresceu, bem como a vontade da jovem de ter mais. Hoje estão por toda a casa. “Comecei a acumular plantas e, depois, elas seguiram-me para todos os sítios, quando me mudei, tanto para Setúbal, como depois para Viseu.”

“Sinto-me mais calma, sem dúvida alguma. E dá-me prazer vê-las crescer e vê-las serem bem-sucedidas, no ambiente em que estão. Também gosto de tentar perceber os sinais quando alguma coisa está a correr mal, alguma folha amarelada, tentar perceber se é falta de alguma coisa, se é só a passagem do tempo”, partilha a jovem.

Aprender a cuidar

Luís Espinheira sempre conviveu com plantas no exterior de casa. Quando “começou a crescer o número de influenciadores digitais, nas redes sociais, que começaram a partilhar que era mito que as plantas no quarto faziam mal”, decidiu começar a levá-las para o seu quarto, um anexo independente do resto da moradia, onde reside com os seus pais. “Somos nós que controlamos as condições em que elas vivem. Por isso, é que o vício das plantas de interior dispara. Elas estão lá fora, estão entregues a São Pedro, por assim dizer. Se chove, faz sol, se elas se queimam, é um problema. Tê-las dentro de casa é mais desafiante, porque somos nós que temos de criar essas condições, o ambiente delas.”

O jovem, de 26 anos, de Viana do Castelo gosta, particularmente, do desafio de comprar as plantas ainda pequenas e “vê-las crescer”, e afirma mesmo que este pode ser um hobbie bastante didático. “Acho que elas nos ensinam responsabilidade. As pessoas mais novas deviam começar a ter plantas, para perceberem que o descuido pode influenciar aquele ser vivo”.

A pandemia não parece ter despertado apenas o entusiasmo naqueles que embarcaram pela primeira vez na aventura de ter uma selva doméstica. Mesmo os que já eram apreciadores reforçaram o número de exemplares. Foi o caso de Carlos Melo. A última vez que contou tinha cerca de 40 plantas, espalhadas por todas as divisões da casa. “Ter plantas, claro que está na moda não vamos ignorar isso, mas eu, por exemplo, gosto de ter plantas para elas crescerem, para depois dar um pezinho a alguém de quem gosto e essa pessoa também ficar com o mesmo gosto. Faz-me mais sentido isso do que estar sempre constantemente a comprar plantas.”

Carlos cresceu, em Cascais, a ajudar a mãe a tratar destes seres, mas foi a pandemia, os confinamentos e o facto de ter tido obras em casa, que mais contribuíram para que, durante o último ano, se dedicasse mais a este hobbie. “A paixão sempre esteve cá. Disponibilidade e tempo é que ia sendo à base do improviso e daquilo que ia sentindo.” Ter-se tornado “uma moda” acabou também por facilitar uma maior dedicação, por haver “muito mais conteúdo online para pesquisar.”

Uma atividade terapêutica

Habituados a ter plantas de quintal e natureza ao seu redor, Diogo Gomes e Celso Teixeira, naturais da Madeira, procuram reproduzir, no apartamento que partilham em Lisboa, a atmosfera tropical da ilha. “Termos plantas em casa é trazermos a Madeira até nós, tanto que a maior parte das plantas que temos, ou são plantas que as nossas mães tinham, ou são plantas que vemos em terrenos abandonados”, refere Diogo.

Começaram por ter catos e suculentas, quando ainda estavam a estudar, e porque eram “das poucas plantas que sobrevivem, dois, três meses, sem água no calor do verão". A crise sanitária e os confinamentos trouxeram o tempo e a disponibilidade para acolher e cuidar de outro tipo de flora.

Em abril de 2020, quando se viu fechado em casa e sem emprego, Diogo, formado na área de som e imagem, criou, no Instagram, a PlantoDependente. “Quase como um escape”, a conta, neste momento, com mais de nove mil seguidores, surgiu inicialmente “como um diário de quarentena”. A página cresceu mais de dois mil seguidores só nos primeiros dois meses e foi, nessa altura, que Celso, formado em jornalismo, se juntou ao projeto, e os dois jovens passaram também a orientá-lo para ajudar e aconselhar os seguidores nas dúvidas que fossem colocando sobres estes seres vivos mais complexos do que aparentam à primeira vista.

“Há pessoas que fazem yoga, natação, para acalmar a mente. Na parte da jardinagem, no momento em que estás a cuidar das plantas, não estás a pensar em mais nada. Estás-te a focar só numa coisa. No meio da pandemia, em que as pessoas tiveram mil e umas preocupações, aquilo ali era uma espécie de meditação.”

Num cenário pós-pandemia, Diogo acredita que se irá manter e até aumentar este “amor pelas plantas”. No entanto, poderá não ser tão fácil para a generalidade das pessoas cuidar da mesma quantidade de seres vivos. “Neste momento, estamos em casa, temos tempo, ou na hora de almoço, ou durante a pausa, para ir ver as plantas. De repente, quando duas horas do nosso dia são tiradas só para ir para o trabalho e voltar, e nem temos aqueles tempos intermédios, acho que as pessoas, das duas uma, ou irão mudar de plantas e começar a ter plantas que se aguentem melhor sozinhas, ou irão começar a reduzir.” Além disso, algumas delas precisam de um olhar mais vigilante. “Se estás em casa a trabalhar, é viável teres 15 plantas, porque, se há uma onda de calor de 30 graus, como houve no ano passado, estou em casa e vejo as plantas a começar a inchar, ou lhes vou dar água ou ligo um desumificador. Quem está no trabalho, elas morrem."

Foi também durante a pandemia, no início de dezembro, que Sofia Eiras Antunes, juntamente com uma sócia com formação em psicologia, lançou a Curae. “Nasceu por motivos mais pessoais, talvez, porque estava um pouco insatisfeita no meu trabalho a tempo interior. Por outro lado, sempre gostei muito de plantas e de animais, e sempre achei que seria só um hobbie. Mas, na verdade, depois, durante a pandemia, comecei a sentir ainda mais os benefícios das plantas e dos animais e comecei a perceber que as pessoas estavam a valorizar cada vez mais, nomeadamente, as plantas.” Acredita que sempre foram um “benefício”, mas “as pessoas não tinham esta consciência”, e que a pandemia trouxe a vontade “trazer para dentro o que há lá fora.” Até porque o mesmo aconteceu consigo: “Quando me comecei a sentir mais fechada e quando comecei a trabalhar mais de casa, acabei por ter esta necessidade de trazer plantas para casa. E depois houve ali um mês em que foi um boom. Acho que adotei cerca de 60 plantas.”

A Curae – que significa “cuidar de” em latim – foca-se na ideia de cuidar “em complementaridade” e fomenta-se à volta de 3 “P’s” (people, plants e pets). Para a cofundadora, “quando as pessoas cuidam das plantas, as plantas cuidam de volta. Toda a nossa natureza funciona em reciprocidade.” Da mera venda de plantas online, o conceito evoluiu para “uma experiência de cuidado”. Os seres vivos vêm acompanhados por exercícios de meditação e guias de tratamento. “É muito mais focado na experiência, e de as pessoas construírem a sua confiança através das plantas. Portanto, não acharem que são «plant killers». Isso é algo que achamos que se desconstrói rápido.” 

Texto por Flávia Brito
Fotografia da cortesia da Plantodependente

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