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Pode a imigração solucionar a desertificação do concelho mais envelhecido do país?

Martim Longo, situada num Algarve interior que traz no sotaque e nos costumes o Baixo Alentejo, é uma aldeia que faz parte do concelho mais envelhecido de Portugal, Alcoutim. Com cerca de 1030 habitantes, segue a tendência do concelho do qual faz parte: ver a sua população a diminuir de ano para ano, e principalmente a população jovem. Em 1960, o concelho de Alcoutim registava 9288 habitantes, mas apenas 23 % da população era considerada jovem. Em 60 anos, existiu uma diminuição acentuada para 2523 pessoas, com apenas cerca de 6 % de jovens, segundo dados recolhidos pelos Censos 2021.

©Patrícia Nogueira

O decréscimo da população vai-se notando nos montes desertos que, hoje, são feitos apenas de memórias – Montargil, Silgado, Viçoso, Mesquita, Ferrarias, por exemplo –, mas também das ruas que, em aldeias como Martim Longo, têm cada vez menos vida a acontecer dentro delas.

Por norma, a aldeia enche-se nas festividades, como o Natal, a Páscoa ou o primeiro fim de semana de setembro com a festa tradicional em honra da Nossa Senhora da Conceição. Esta festa junta as famílias e amigos que passam o ano inteiro sem se ver, os emigrantes portugueses que vêm à sua terra natal, de onde saíram para procurar uma vida melhor quando ainda eram jovens adultos. Mais recentemente, começaram a juntar-se a esta festa imigrantes que procuram, nesta aldeia, o início de uma outra vida. São também esses mesmos imigrantes que não deixam as ruas serem desertas e ocupam as casas que, outrora, foram ficando sem gente, como é o caso do técnico em computação Neel Patel, que mora por cima de um dos seis cafés da aldeia, que é também um restaurante e uma mercearia. 

Atualmente com 29 anos, Neel tem uma licenciatura e mestrado na área de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, e foi há quase cinco anos que decidiu agarrar em todo o dinheiro que tinha, cerca de 6 mil euros, e emigrar da Índia, país em que nasceu. Morou na Nova Zelândia, mas, quando decidiu vir para Portugal, para começar uma vida na Europa, foi, segundo o mesmo, «enganado». Na chegada, deparou-se com um armazém onde moravam mais conterrâneos seus do que aqueles que era suposto, em condições pelas quais jamais viria para Portugal. Fugiu, conta que perdeu todo o dinheiro e, atrás de si, foram alguns homens que o queriam, à força, para trabalhar. Desapareceu e chegou mesmo a ser sem-abrigo no largo do Martim Moniz, em Lisboa. Entre as palavras de português que vai falando e o inglês que domina, relata que chegou a passar dias com um pacote de leite no estômago, até ao momento em que outro senhor lhe deu emprego na Covilhã. No entanto, foram os painéis solares, que hoje cobrem a paisagem do concelho ao longo de quilómetros, que trouxeram Neel até Martim Longo.

A história de Neel e dos colegas com quem partilha casa cruzam-se, mas hoje dividem a habitação nas condições que consideram dignas. O tempo que já passou nesta aldeia faz dele o conselheiro de quem aqui chega. Aos poucos, vai apresentando aqueles que já na Índia eram a sua família, e o último nome de quem vai chegando não o esconde – Patel. Vanshika Patel é uma das pessoas mais próximas que tem, e que considera como sua irmã. A jovem tem 27 anos e mora numa casa mesmo no centro da aldeia com o seu marido. A casa de paredes caiadas, despida de bibelôs, quadros e adornos é, segundo o casal, «a casa perfeita, ao preço perfeito», para começar uma vida. Confessa que falta acesso à saúde, um hipermercado e transportes que proporcionem o acesso a outras localidades. Para si, a aldeia não é atrativa, mas a vida entre trabalho, casa, chamadas com a família que está longe, e convívio com aqueles que estão perto, não sobra tempo para muito mais. Vanshika estudou para trabalhar em controlo alimentar, mas, em Martim Longo, trabalha na «padaria do Zé Rosa». À medida que os outros imigrantes vão chegando, apresentam-se como o Sukanta, o Kazi, o AJ, a Himani e o Nirav. Têm idades compreendidas entre os 23 e 40 anos e nem todos trabalham na fábrica. Depois deste primeiro contacto, conhecemos quem trabalha na construção e, em Alcoutim, no lar de idosos, como é o caso da Himanshi Prajapati, que tem 26 anos. Fazem todos parte de uma comunidade de migrantes que começou a crescer há cerca de cinco anos, aquando da instalação dos primeiros painéis na zona. Muitos tiveram Martim Longo como primeira casa, outros não, mas nesta aldeia, frisam, «cada um tem o seu espaço».

«Se não fossem eles, não sei se isto ainda estava aqui»

A mercearia do senhor Fernando é o sítio onde o desejo de comer determinado alimento, mesmo que venha de longe, se torna realidade. É onde as encomendas de malaguetas, gengibre, fruta e legumes mais exóticos são feitas, às vezes com sorte, outras com espera pelo meio. Outras não chegam mesmo a acontecer, e, nesse caso, a comunidade indiana reúne-se para saber o que cada um precisa, e encomenda de uma cadeia de supermercado portuguesa todos os alimentos que querem.

Uma das malaguetas que o senhor Fernando costuma encomendar | ©Patrícia Nogueira

O senhor Fernando Fragoso tem o comércio aberto há 30 anos. Já viu passar muitas gerações pelo seu balcão e fez parte de uma das primeiras a emigrar para França. Morou em vários sítios e viajou por outros países europeus. «Eu já vivi muito, também já fui emigrante. Sei o que é ser emigrante e quanto temos de nos ajudar uns aos outros», frisa. Faz questão de destacar a relação que construiu com a comunidade indiana. Pelas suas palavras, vai contando que, por vezes, o chamam «papá»: «Não sou pai deles, mas, às vezes, é como se fosse, e eles fazem questão de dizer.» O termo que repete vem, segundo ele, das pequenas coisas que já fez, e continua a fazer, para ajudar a comunidade a estabelecer-se e a estar mais integrada. Já assinou papéis como testemunha para provar que tinham casa, oferece alimentos quando pode, entre outras coisas que vai enumerando e pelas quais não quer dinheiro nenhum. «Às vezes, aparecem-me aqui com bolinhos, e aqueles fritos que eles fazem. Eu sei que é para me agradecerem, mas eu não quero nada em troca, faço de boa vontade», garante.

A loja do senhor Fernando | ©Patrícia Nogueira

Com os dedos, vai somando com entusiamo as coisas que vê e aprende sobre a cultura da comunidade. Os torneios de cricket que se realizam num campo de futebol de terra, que ainda se mantém intacto; os «bolinhos do tamanho da palma da mão» que lhe oferecem; o facto de a Índia ser um país em crescimento populacional; os casamentos; o Ramadão (mês sagrado do calendário islâmico); o «esforço e agradecimento que depositam em tudo o que fazem»; mas também a camaradagem que encontrou a cada visita à sua mercearia. Apontando para as casas vizinhas, começa a contar quantos indianos, e casais já com filhos, vivem na zona. «Antes estava tudo vazio, agora vivem aí uns quantos, e digo mais, se não fossem eles, nós não tínhamos pessoas para trabalhar.»

Que o diga José Carlos Pereira, atual dono da padaria onde, segundo ele, 50 % dos trabalhadores têm nacionalidade indiana. José Carlos foi vice-presidente do município, e é dono da maior padaria da região. Quando fez parte dos órgãos políticos do município, destaca, o concelho não era o que é hoje. «Tínhamos povoações eletrificadas, mas não todas. Só existia abastecimento de água nas sedes de freguesia e, neste momento, o concelho de Alcoutim é dos únicos que tem abastecimento de água. Criámos infraestruturas desportivas, escolas, infantários, emprego, muita coisa», destaca. O dono da padaria e filho da terra cresceu numa altura em que o concelho de Alcoutim ainda era um dos mais desenvolvidos a nível económico. No tempo do seu pai, existiam várias pessoas a fabricar foices, olaria, e outros ofícios que, lamenta, «foram morrendo». 

Se contarmos os sítios que, atualmente, contribuem para a empregabilidade da aldeia de Martim Longo, os cafés, restaurantes e oficinas não entram na equação por serem maioritariamente de gestão familiar. Ao contrário das empresas de painéis solares e os lares de Martim Longo e Balurcos, que empregam mais de 20 pessoas cada. A padaria Serralgarve é um dos principais empregadores, e o proprietário José Carlos sublinha o dado. A sua expansão dependeu, segundo ele, sobretudo, da comunidade indiana que foi chegando, alguns mesmo para trabalhar na padaria: se não fossem eles, «não existia mão de obra para trabalhar». 

O início foi «complicado», recorda. O desafio começou na língua, uma vez que alguns não falavam inglês nem português, e os processos de legalização são morosos. José recorda «as idas às Finanças, à Segurança Social, a fazer registos, para o SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras], fizemos quilómetros e quilómetros». No entanto, para si, «a maior barreira foi, sem dúvida, a da língua». As diferenças culturais também se sentiram e, segundo ele, «foram sempre aceites», começando pela altura do Ramadão em que alterou os horários para que todos se sentissem confortáveis e pôs os casais a trabalhar juntos. Lembra uma situação em que se surpreendeu com a diferença cultural. «Nós fazemos muito pão com chouriço, à mão, e, no início, elas ficavam maldispostas, iam para a casa de banho vomitar e, no dia seguinte, ficavam em casa, mas agora estão habituadas.» No entanto, afirma que as diferenças são motivo de aprendizagem e de troca. Muitas vezes, o intervalo do almoço é a oportunidade para provar coisas novas e descreve que a sua casa chega a ser um ponto de convívio, destacando que a proximidade com os imigrantes o levou a já ter sido convidado para um casamento na Índia. 

Questionado sobre como foi a receção da comunidade a estes imigrantes, José confessa que aconteceu com alguma estranheza. «No início, estes imigrantes chegaram para trabalhar nos painéis solares, vinham muitos em carrinhas e chegavam a morar 20 [trabalhadores] numa casa. As pessoas daqui começaram a não se sentir bem, desconfiadas sobre o que poderia acontecer», conta. Mas nada disso se revelou um problema. «Nunca vi um indiano em Martim Longo, seja meu trabalhador ou não, a fazer mal alguém. Por vezes, enquanto patrão, chateio-me quando as coisas não correm bem, é natural.» Segundo o empregador, neste momento, todos são bem recebidos pela comunidade. O empregador afirma que «todos vivem em condições dignas e recebem salários acima do salário mínimo nacional português, exceto se estiverem no período experimental de três meses. Nesse caso, recebem o salário mínimo». José Carlos observa que alguns querem continuar a viver em Martim Longo e trazer a família, bem como há quem já tenha mesmo trazido e também quem já tenha os filhos na escola.

No que diz respeito à língua, José Carlos considera que contornou a situação. Dirigiu-se ao Instituto de Emprego e criou a ligação entre este e a escola para que os seus trabalhadores começassem a ter aulas de português para estrangeiros.

A língua não é barreira, mas futuro

O curso de Português Língua de Acolhimento acontece na Escola Básica Integrada de Martim Longo. Divide-se em duas turmas, numa aula que acontece uma vez por semana, às segundas-feiras, entre 17 e as 20 horas. O professor Rúben Silva, que vem de Vila Real de Santo António, é o responsável por cerca de 20 alunos de todas as idades e nacionalidades, mas maioritariamente indianos. A turma faz parte de uma comunidade de estrangeiros que, no concelho de Alcoutim, passou de 1,9 % da população para representar 5,2 %.

Na sala de aula, com as mesas dispostas em círculo, ecoam várias línguas e encontram-se os telemóveis com a aplicação Google Translator aberta em cima das mesas. A aula é sobre o tema «profissões». Aprendem-se palavras novas, completam-se frases, aprende-se o que é o artigo definido e como funcionam os nomes no plural. De um lado, está um casal de franceses, já reformados, que escolheram a Barrada – um monte que pertence à freguesia – para viver, assim como uma senhora inglesa, também reformada, que se mudou recentemente para o monte de Santa Justa e outro senhor francês que vive isolado no montinho da Várzea, onde goza a reforma no meio daquela que diz ser a «paz que finalmente encontrou». Seis dos alunos são jovens indianos, cinco empregados na padaria do senhor José Carlos e uma das jovens no centro de dia de Alcoutim. A língua que usam para falar entre os dez é o português, que  vão arranhando entre dúvidas como «porquê dizer hospitais e não “hospitales”»?

Rúben Silva leciona também em Alcoutim, mas conta que os alunos são maioritariamente reformados, e vivem, muitos deles, nos barcos que aparcaram no rio Guadiana, ou do outro lado da fronteira, em Sanlúcar do Guadiana, ao contrário dos jovens alunos que conta receber todas as semanas em Martim Longo. Tanto em Alcoutim como em Martim Longo, o professor valoriza a relação de amizade que criou com os alunos. E destaca que existe um grupo de WhatsApp através do qual estão sempre em contacto e onde podem partilhar dúvidas. Para Rúben, o trabalho não é fácil, mas é «gratificante». Cada falta por assiduidade ou atraso é um degrau para trás no objetivo, que é a obtenção do certificado que servirá de prova de que «merecem ter o título de residência», assim como as notas que alcançam nos testes. No final da aula, todos concordam que a língua portuguesa não é fácil, mas que já a vão entendo. Aliás, é fundamental que a aprendam.

Uma das aulas de Língua Portuguesa para Estrangeiros | ©Patrícia Nogueira

Incentivos para uma segunda geração

As razões que levam alguém a emigrar são muitas. Condições políticas e económicas desfavoráveis, religião, guerra, procura por uma vida melhor, novas experiências. Os motivos variam. Mas resumem-se a tentar encontrar melhores condições, tenha ela os seus altos e os seus baixos, como é o caso do testemunho de Himani Patel e Priyank Chauhan. 

Himani, 29 anos, farmacêutica e filha de farmacêuticos, saiu da Índia em 2017 para «explorar o mundo». Conta que tinha uma «vida fácil», com uma «rotina típica familiar, com empregados». No entanto, tinha o sonho de conhecer a Europa e aventurar-se com o seu marido. «Sabes, toda a gente quer explorar a Europa. Quando emigrei, estive primeiro na Austrália, e, depois, fui para os Estados Unidos trabalhar como rececionista no hotel de um familiar e, em todo o lado, encontrava pessoas que queriam vir para a Europa. Diziam-me que [eu] tinha de vir primeiro para o Algarve. E consegui.»

Viveu durante menos de um mês em Lisboa, mas foi em Martim Longo, há cerca de um ano, que diz ter encontrado a paz que procurava. Quando chegou, tentou trabalhar na sua área, numa farmácia da aldeia, mas os certificados e incompatibilidade de estudos levaram-na a trabalhar na fábrica de pão com o seu marido. Garante que sempre se sentiu bem-vinda, e fica feliz com a hospitalidade dos vizinhos e com o empregador que encontrou. Também avalia que já sentiu as dificuldades de estabelecer-se num novo país, mas prefere achar que não foi pela sua cultura e cor de pele. «Há pessoas com quem tenho boas e más experiências. Eu prefiro agarrar-me às boas memórias que estou a criar. É isso que quero levar daqui um dia.» 

Desde que chegou, engravidou duas vezes. A primeira não correu bem. Himani relata que, no dia em que percebeu que estava a perder o bebé, dirigiu-se ao centro de saúde da aldeia. No local, foi informada que precisaria do número de utente definitivo para ser atendida. Além disso, dada a gravidade do seu caso, a unidade não possuía os meios necessários e ela teria necessariamente de se deslocar ao Hospital de Faro.  O Gerador procurou a Administração Regional de Saúde do Algarve que informou que “o SNS /ARS Algarve não discrimina cidadãos com problemas de saúde (urgentes ou não), com base no critério de nacionalidade. Existem normativos e legislação sobre o atendimento de utentes nos Cuidados de Saúde Primários, assim como nos Cuidados Hospitalares, para cidadãos inscritos e para não inscritos no SNS, independentemente da nacionalidade”*

Atualmente, grávida pela segunda vez, tem uma gestação de risco. Está a ser seguida pelo Sistema Nacional de Saúde, mas não deixa de pôr a par os familiares ligados à área da saúde na Índia, principalmente com questões que geram mais dúvidas. Sente-se mais segura com este suporte. 

Já Priyank Chauhan, de 33 anos, explica que o seu filho de dois anos, Slock – cujo nome significa «coisas boas estão por vir» –, é acompanhado no hospital privado de Faro. O valor que paga «não é problema, o seu filho é tudo», e, por isso, diz que é um esforço que faz por ele. Em 2019, chegaram a Tavira e, quando estavam prestes a ser pais, decidiram mudar para Martim Longo para fugir ao trabalho agrícola que tinham na cidade. «Eu ganhava bem, tinha amigos portugueses, mas era muito duro. Então, um amigo disse-me que havia trabalho aqui, e eu vim ver como era. Mas é muito diferente comparado com Tavira. Aqui é só trabalho-casa, não é algo que ambicione por muito mais tempo.»

Durante a entrevista, foi-lhes apresentado o Programa de Incentivo à Natalidade e Apoio à Família do concelho de Alcoutim, um apoio criado em 2014, com o objetivo combater a baixa natalidade, promover a fixação dos jovens, melhorar as condições de vida dos estratos sociais mais desfavorecidos e impulsionar a economia local. O valor de cinco mil euros, atribuídos ao longo dos três primeiros anos de vida da criança, é destinado aos agregados familiares que são residentes no concelho ou sejam recenseados no mesmo. 

Himani Patel não tinha conhecimento deste apoio – o difícil acesso às informações é um dos pontos que gostava de ver melhorados para futuros imigrantes. No entanto, revelou querer saber mais. Nos próximos três anos, informa que não quer mudar de cidade, o que poderá ocorrer quando o seu bebé for maior. «Não é por ser Martim Longo em si, mas, ao mesmo tempo, é. Agora, tento viver um dia de cada vez. Acho que, quando o meu bebé crescer, vou querer um sítio melhor, porque a nossa geração quer explorar, e aqui acho que o bebé não vai ter os estímulos que procuro», revela.

Priyank Chauhan já tinha conhecimento deste apoio, e tentou pedi-lo, mas ainda só tem o visto de residência temporária e, por isso, não pôde recebê-lo. No próximo ano, «se tudo correr bem», já terá o seu título de residência, mas não irá pedir o apoio. Quer voltar para Tavira, para junto dos amigos que fez e para onde, segundo ele, «a vida está toda a acontecer».

No que diz respeito ao apoio à natalidade, no concelho de Alcoutim, toda a educação é gratuita, e isso engloba refeições – independentemente do escalão em que a família se insere –, livros e transporte. 

Uma pescadinha de rabo na boca

A primeira vez que o concelho de Alcoutim recebeu imigrantes vindos do sul da Ásia foi quando começaram a instalação dos primeiros painéis solares. Osvaldo Gonçalves, atual presidente da Câmara Municipal de Alcoutim, lembra que foi «uma situação atribulada», uma vez que chegaram a ser cerca de seiscentos trabalhadores. Segundo ele, depressa se percebeu que o concelho não estava preparado para receber tantas pessoas. Algumas vinham de Vila Real de Santo António e até mesmo de Espanha. Quem conseguiu, arrendou as poucas casas que existiam no concelho, outros acabaram por ficar a morar em condições consideradas desumanas, identificadas mais tarde pelo município. 

Osvaldo, que já era presidente nesse período, acredita que se tivesse existido um aviso prévio, «algo mais estruturado», podiam ter sido criadas condições adequadas. «Ninguém quer ficar nas condições em que muitos estavam. É certo que muitos poderiam apenas querer ganhar algum e voltar para o seu país, mas acredito que, os imigrantes que cá chegam tiverem condições de trabalho dignas, apoio e educação, isso pode criar condições para quererem ficar. E isso é uma preocupação nossa.»

No início de 2023, o concelho de Alcoutim voltou a receber imigrantes, 76, desta vez de Timor-Leste. Osvaldo ressalta que esta foi uma das maiores provas de como o concelho está disposto a criar condições e que a «hospitalidade dos munícipes não tem fim». Os timorenses ficaram, na sua maioria, hospedados na Pousada da Juventude e outras onze pessoas ficaram na Associação de Bombeiros. O presidente da câmara nota a sua rápida integração e acredita que destes onze, alguns poderão mesmo ficar e constituir família. «Se agora o objetivo é ter emprego, talvez daqui a uns anos seja comprar casa, e por aí. Não gostaria que estivéssemos só dependentes destas pessoas para que a população cresça, mas estou aberto a que isso aconteça.»

Quando assumiu a presidência da câmara, a questão da desertificação, seja ambiental, seja populacional, já era falada, mas garante que começou a ser combatida de forma mais acentuada. Desde 2013, as políticas adotadas estão assentes em dois pilares: por um lado, apoiar os jovens, e, por outro, não deixar de apoiar a maioria que são os idosos. Um equilíbrio que, segundo ele, «não é fácil». 

«Se olharmos para a população jovem e todos os incentivos que damos, como a oferta nas escolas, oferta desportiva, cultural, de associações, e mesmo o novo regulamento para a atribuição de lotes com um desconto de 80 % no valor do lote, vemos que estamos a criar condições para que os jovens fiquem, mas não podemos inventar trabalho. Podemos apenas dar as ferramentas para que as pessoas criem o seu próprio trabalho», explica o presidente da câmara, que, acrescenta, quer tentar atrair empresas para o concelho. 

Confrontado com a lista de entraves que fazem com que estes jovens imigrantes de Martim Longo não queiram ficar por muito mais tempo – maioritariamente a falta de acessos, pouca diversidade na oferta de emprego e poucas atividades culturais e de lazer –, Osvaldo salienta medidas que foram e continuam a ser implementadas, como a instalação de Internet 5G em cerca de 11 montes da freguesia de Vaqueiros, a criação do Espaço Gerações, as aulas de língua portuguesa para estrangeiros, os incentivos às empresas, e o futuro espaço coworking, em Alcoutim, com oito salas previstas. No que diz respeito aos transportes, Osvaldo admite ser o maior problema: existem cinco itinerários no concelho, e, muitas vezes, os autocarros vão vazios, fazendo percursos de 60 quilómetros sem ninguém. 

Em Alcoutim, está instalado o Centro de Competências na Luta Contra a Desertificação, o qual estuda este fenómeno. O concelho reúne frequentemente com várias entidades a nível nacional, participa em fóruns, no entanto, Osvaldo lamenta, repetem-se as mesmas «patologias de metade do país» – as pessoas continuam a preferir o litoral, «onde tudo acontece». 

O presidente acredita que a resposta está principalmente na formação e criação de emprego, não só ligada a um regresso à agricultura, mas a uma formação de mecânicos, canalizadores, eletricistas, ferreiros e com a população idosa, existindo assim um equilíbrio. É importante também perceber que «estamos muito limitados, dependemos de apoios estatais que estão relacionados com a população residente e o território em si, nós conhecemos todos os caminhos, mas não temos estrutura e competência para os aplicar. É uma verdadeira pescadinha de rabo na boca».

No contacto com a Câmara Municipal de Alcoutim, outras entidades e alguns habitantes, foi ainda possível ouvir frases que podem mostrar dificuldades no acolhimento destas comunidades, como o seguinte testemunho, que se mantém anónimo: «As próprias comunidades, depois de estarem integradas, às vezes têm as suas próprias crenças e culturas, sejam dominantes no meio de uma outra, e com isso vem o risco de perdermos a nossa autenticidade e cultura. Somos um povo acolhedor, muitos de nós somos filhos de emigrantes e temos obrigação de ser bons acolhedores. As coisas têm de ser feitas com equilíbrio.» 

Todos os imigrantes entrevistados afirmam que têm Martim Longo como um lugar de passagem. De momento, não existe um gabinete de apoio para a comunidade estrangeira que se queira fixar no concelho. A reportagem fez contacto com a ODIANA – Associação para o Desenvolvimento do Baixo Guadiana, que tem como principal objetivo contribuir para o desenvolvimento económico, social e cultural da região. A informação recebida é de que não existem iniciativas para a integração destes jovens imigrantes, mas que o querem realizar num futuro próximo. Também o Alto Comissariado para as Migrações (ACM),  foi questionado sobre a existência de uma estratégia ou incentivos para que estas pessoas se estabeleçam no interior do país, ou ainda se existirá, num futuro próximo, um gabinete de apoio às comunidades, demandas apontadas nos testemunhos aqui apresentados.  Segundo o ACM, “desde 2007, a gestão dos fluxos migratórios é objeto de estratégias nacionais (...) paralelamente, desde 2014 que as políticas públicas na área das migrações, preveem a elaboração de Planos Municipais para a Integração de Migrantes, em articulação com o Alto Comissariado para as Migrações (ACM)”, reforçando os serviços prestados pela Rede Nacional de Apoio à Integração de Migrantes (RNAIM) dinamizada pela mesma e composta por 4 Centros Nacionais de Apoio à Integração de Migrantes (CNAIM), a Linha de Apoio a Migrantes, o Serviço de Tradução Telefónica e a Rede de 155 Centros Locais de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM), esta última em parceria com municípios e entidades da sociedade civil. Segundo a identidade, “este trabalho conjunto visa acompanhar de forma proativa os processos de acolhimento e integração de migrantes (imigrantes e refugiados) a nível nacional, respeitando as suas especificidades e procurando prevenir/responder a vulnerabilidades, apoiando na concretização de soluções conjuntas e coordenadas para enfrentar os desafios locais, ao nível da regularização, aprendizagem da língua portuguesa, habitação, emprego, saúde, educação, formação, acesso à nacionalidade portuguesa, reunificação familiar, entre outras dimensões do processo de integração, em articulação com outros serviços da administração pública central, regional e local.”  Segundo informação prestada pela mesma, o Município de Alcoutim não consta entre os municípios com CLAIM, no entanto “o CNAIM Algarve tem mantido apoio de proximidade com o Município (assim como com os demais da região) e as várias estruturas do concelho, responsáveis pelas respostas sociais aí existentes, de forma coordenada com o Instituto da Segurança Social (ISS) e o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP)”. *

Antes de a reportagem ser concluída, Neel Patel informou que está agora a viver no concelho de Sintra. Segundo ele, a empresa de painéis solares onde trabalhava, e que prefere não divulgar o nome, não pagou seu salário durante alguns meses. Por isso, foi obrigado a procurar emprego noutra cidade. O Gerador procurou saber se este era um caso isolado, no entanto, vários trabalhadores da mesma empresa também estavam sem receber o salário nos últimos três meses. O jovem conta que ficou triste por ter de sair do concelho dada a situação e por falta de outras ofertas de emprego, tendo obrigatoriamente de procurar uma oportunidade de trabalho longe da família e vida que criara ao longo de quase cinco anos.

*Texto atualizado da versão impressa com informações posteriormente prestadas pela Administração Regional de Saúde do Algarve (ARS Algarve), com esclarecimentos adicionais da utente citada na reportagem e com a resposta do Alto Comissariado para as Migrações.

Texto e Fotografia de Patrícia Nogueira

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