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Preliminares: Amor Veneris – Viagem ao prazer sexual feminino

Na Revista Gerador 39, na crónica Preliminares, que agora partilhamos contigo, Marta Crawford conta-nos a origem da exposição "Amor Veneris - Viagem ao prazer sexual feminino".

©Diana Mendes

*Esta é uma crónica da Marta Crawford, inicialmente publicada na Revista Gerador 39.

Em 2010, quando aceitei o desafio do Manuel Forjaz para falar sobre felicidade sexual, no TEDxPorto, não imaginava o impacto que essa decisão teria na minha vida. Era expectável que viesse inspirada de um encontro de ideias inspiradoras, mas não esperava que, no dia seguinte, tivesse uma epifania que me guiaria até hoje. Passaram 12 anos entre o momento em que sonhei criar um museu pedagógico do sexo – o Musex – e a exposição Amor Veneris – Viagem ao Prazer Sexual Feminino, que idealizei e está em exibição no Palácio Anjos, em Algés. 

Quando tive esta ideia, comecei por desenhá-la em folhas A3, que fui colando umas às outras à medida que o pensamento fluía. Desde miúda, que penso melhor quando desenho ou esquematizo as minhas ideias. Guardo religiosamente essas folhas, para nunca me esquecer dos primeiros pensamentos sobre este projeto. Quando a ideia começou a ganhar forma, partilhei os meus avanços, que geraram muitos entusiasmos partilhados, mas também quem achasse uma ideia demasiado megalómana. Quando sonhamos, não há limites e podemos dar asas à nossa imaginação livremente sem amarras de qualquer espécie, porque o limite só surge geralmente do medo, da insegurança e da falta de criatividade. Com toda a liberdade que construí e pela qual lutei ao longo da minha vida, pensar num modelo museológico que fosse o reflexo das minhas experiências, convicções e ideais, permitiu-me total liberdade de criação.

Foi um caminho difícil que foi pondo à prova a minha convicção, mas não desisti. Pesquisei, estudei e aprendi com quem me podia ensinar. A ideia de criar um museu pedagógico do sexo pode não parecer uma novidade, mas, na verdade, é um modelo inovador: estamos a falar de um espaço que proporciona conhecimento sobre as temáticas da sexualidade, numa perspetiva pedagógica, através de expressões artísticas e conteúdos científicos, num espaço que recebe, em simultâneo, crianças, jovens e adultos, algo que não acontece em nenhum museu com esta temática.

Há cerca de quatro anos, apresentei o projeto ao município de Oeiras e o presidente Isaltino Morais propôs-me começar com uma primeira exposição. Apresentei-lhe a ideia, que foi aceite por unanimidade, e formei a equipa que trabalhou comigo e à qual estou muito grata.

O prazer sexual feminino é um tema importantíssimo para mim. Há ainda demasiadas mulheres que continuam a não ter prazer ou que não conhecem o seu corpo. Desenhei uma narrativa, tendo em conta princípios que desejava que norteassem a exposição, nomeadamente a abordagem à questão do consentimento, presente num espaço museológico que metaforicamente representaria um corpo feminino, mas não só, e é por isso, que esta exposição começa pela cabeça (Pérola de Vénus d’os Espacialistas).

Assim, quem opta por entrar na exposição pela via «sem consentimento» acede ao núcleo dedicado à reflexão sobre a violência sexual contra mulheres, onde reunimos obras de artistas como Alice Geirinhas, Paula Rego, Sara Maia, Ana Rocha de Sousa, entre outras. Ali confrontamo-nos com várias formas de violência sexual. Uma experiência poderosa, um murro no estômago. 

Quem escolhe o caminho «com consentimento» inicia uma viagem ao prazer sexual feminino, num percurso dividido em três áreas: o cérebro, a pele e o clitóris. A viagem começa pelo cérebro, o nosso principal órgão sexual, o motor dos pensamentos, memórias, sentidos e desejos. É um núcleo com obras de arte e instalações interativas que permite que o público toque, cheire, observe ou escreva, ativando, assim, a reflexão e os seus próprios sentidos. 

Segue-se o núcleo mais extenso, dedicado ao nosso maior órgão sexual – a pele. O corpo feminino tem um tempo de percurso que reflete a resposta sexual da mulher e os tempos da excitação, tão importantes na satisfação sexual. Ali acolhemos obras de grandes artistas que rompem com representações canónicas do corpo feminino e apontam para a diversidade.

A última parte da exposição leva-nos ao site-specific da Ana Pérez Quiroga que nos convida à reflexão num espaço que representa a excitação sexual e a comunicação íntima. Depois desta paragem, eis o ex-líbris da exposição: um clitóris insuflável da artista Julia Petri, para que todos conheçam a sua real anatomia (a sua dimensão interna é dez vezes maior do que se pensava) e a importância que tem no prazer, através das suas oito mil terminações nervosas.

Neste espaço, coabitam as 100 leis naturais da cliteracia, de Sophia Wallace. Podem ser lidas antes de se ultrapassar a porta clitoriana que nos conduz a uma experiência orgástica, robotizada pelos Error 43.

Seja qual for a opção inicial, o público pode visitar toda a exposição e ler os manifestos disponibilizados no final dos caminhos que incluem conceitos fundamentais e desenhos de Isabel Baraona.

Esta exposição está em exibição até ao dia 30 de dezembro e temos uma vasta programação, como debates, oficinas, eventos especiais, ações para a família, visitas pop-up de artistas e o serviço educativo com visitas orientadas para o público geral e públicos escolares. Temos também uma iniciativa ímpar: consultas de sexologia e de aconselhamento conjugal, em parceria com a Associação para o Planeamento da Família. 

Venham, cá vos esperamos!

(www.musex.pt)

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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