*Esta é uma crónica da Marta Crawford, inicialmente publicada na Revista Gerador de fevereiro de 2021.

A festa de Babette é um filme passado em 1871 numa aldeia dinamarquesa muito puritana. Fugida de França, durante a repressão à Comuna de Paris, Babette é acolhida por duas irmãs e filhas do pastor da comunidade, já falecido. Ao fim de 14 anos, a única ligação que Babette tem a França é um bilhete de lotaria que é renovado todos os anos e, é precisamente a sorte, que a faz ganhar a lotaria que lhe permitiria viver uma nova vida. Mas a gratidão que sente pelas irmãs faz com que decida investir o seu prémio, num jantar memorável, em honra do pastor.

Este filme estreou em 1987 e apaixonei-me irremediavelmente por ele. Uma preciosidade do cinema culinário e um verdadeiro afago para os meus sentidos. Este filme dinamarquês é baseado num conto de Karen Blixen e não era esperado que fizesse palpitar a “paixão” duma adolescente. Lembro-me de ter ficado fascinada com a refeição de Babette e de sonhar com as suas “codornizes em sarcófagos”. Durante anos, a memória daquele prato acompanhou-me, e foi só há pouco tempo que descobri a deliciosa receita. A primeira vez que a fiz, levei horas de gozo infinito a prepará-la, algo muito parecido com os melhores preliminares que já tive. Comecei por desossar as pequenas codornizes, retirar-lhes meticulosamente a coluna, para depois as encher com o recheio de cogumelos (na versão original com foie gras e trufas). O resultado final foi extraordinário, mas, acima de tudo, o maior gozo foi a viagem culinária e todas as descobertas que faziam crescer dentro de mim um sentimento de êxtase. A última vez que as fiz foi na noite de passagem de ano, e foram cozinhadas com todo o amor que este prato gera. Diria que, preparar este prato e comê-lo, se aproxima bastante de uma experiência íntima inesquecível. E como diria Lorens Lowenhielm, personagem do filme: Babette era capaz de transformar um jantar numa espécie de caso amoroso, numa relação de paixão, em que era impossível diferenciar o apetite físico, do espiritual. E assim aconteceu.

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
Fotografia de Diana Mendes
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