*Esta é uma crónica da Marta Crawford, inicialmente publicada na Revista Gerador de maio de 2021.

Esta semana, ao arrumar dossiês e livros, encontrei uma caixa de fotografias de família dos meus avós. No meio delas, surgiu uma fotografia que me intrigou. Um retrato de um hijra desbotado pelo tempo.

Esta descoberta remeteu-me para outras memórias do início dos anos 90, altura em que escrevi a minha tese de licenciatura sobre transexualidade.

Numa época em que não existia internet, Facebook ou Instagram, estudar estas questões era tanto revolucionário quanto desnecessário para a maior parte das mentes conservadoras. Tive de superar muitos obstáculos e muitos preconceitos para poder fazer o meu Contributo para a Compreensão do Transexualismo – Estudo Exploratório.

Embora o termo transexualidade apenas tenha ganhado autonomia nosológica nos tempos modernos, a situação que a definia era descrita em numerosos textos antigos. Desde a Antiguidade que existem múltiplos relatos de situações que se poderiam enquadrar na moldura transgender, como é o caso dos acault, mohaves, xanith, mahu ou hijra que vos vou descrever.

Os hijras formam, desde há muito tempo, uma comunidade religiosa na Índia. Quase todos são emasculados* segundo um rito. Esta particularidade chamou à atenção de alguns investigadores (Herve e Lagier, Les Transexuell(le)s, 1992). Estes homens hijras vestem-se e vivem como mulheres, e encontram-se espalhados de norte a sul do país – mas é a oeste que se encontram os seus maiores templos. Pobres e analfabetos, viviam à volta de uma «mãe» que não é mais, na realidade, do que um hijra mais velho. Estes indivíduos, que não se dizem ser «nem homens nem mulheres», viram a sua genitália (pénis e testículos) ser retirada para melhor se identificarem com a deusa-mãe Bahuchara Mata.

O jornalista Dominique la Pierre (citado por Herve e Lagier, 1992, tradução livre de Marta Crawford) descreveu com pormenor uma «noite negra» de uma castração:

"Depois de ter bebido um analgésico dissolvido em vinho de palma, o hijra perdeu a consciência. Acendeu-se um grande fogo e recitaram-se mantras. As chamas que subiam ao alto provavam o acordo das divindades hijra Nandni-na e Beehra-n. O oficiante ata a verga e os testículos com um fio e aperta-o progressivamente a fim de provocar a insensibilização dos órgãos, com um golpe de lâmina de barbear corta-o. A dor é atroz, o Hijra acorda. Nessa altura a assistência canta: Novo Hijra nasceu / um sari sem mulher / um carro sem rodas / uma noz sem fruto / um homem sem pénis / uma mulher sem vagina."

Nos anos 80, tal emasculação custava à volta de 1000 rupias, mas, por vezes, era bastante mais cara: o hijra teria de pagar 27 saris, 20 saias, 27 camisas e dois vestidos de dança, uma caixa de estanho, nove anéis de nariz, todas as joias das orelhas, do pescoço, das mãos e ainda 200 rupias.

Estas figuras conservavam os seus cabelos longos, como os das mulheres, vestiam-se de saris, jóias, anéis de nariz e de pés. Não tendo direito a barbear-se, depilavam-se para uma pele mais doce. E, como não faziam nenhum tratamento médico ou hormonal, conservavam a voz grave e a barba. Alguns chegavam mesmo a ficar calvos.

Mas, tal como as mulheres, transportavam os recipientes nas ancas e solicitavam os acentos destinados ao género feminino nos locais públicos.

Estes seres de sexo ambíguo representavam uma alternativa aos dois géneros, masculino e feminino, e ocupavam um papel institucionalizado, juridicamente definido, como terceiro género (a partir de 2014).

Assim, participavam nas atividades do templo, casamentos e nascimentos. Mimavam os sofrimentos do parto com almofadas por baixo do sari e com tamboretes, cantando e dançando para embalar o bebé. «Um recém-nascido apareceu na terra. Nós viemos benzê-lo.» Eram encarados como portadores de boa sorte. Ao mesmo tempo, e ainda hoje, são considerados como fisicamente impotentes e incapazes de assegurar o «papel sexual masculino». Em alguns testemunhos, chega mesmo a ser afirmado o seguinte: «nasci homem, mas não um homem perfeito [tornei-me hijra] porque o meu órgão não funcionava.»Em relação à sua orientação sexual, referem [ser] «todos homens, mas não [ter] desejo nenhum de mulheres [e que] sempre que [veem] homens [se sentem] excitados».

O seu «esposo» é para eles o mais importante parceiro da sua vida e a fonte do respeito por si. Já a principal característica é a ausência de menstruações e de órgãos reprodutivos femininos, o que os impede de serem considerados como «verdadeiras» mulheres.

Certos hijras guardam, no entanto, atividades tendencialmente desempenhadas pelo género masculino (no contexto indiano): eletricista, operário de construção, leiteiro… outros mendigam. Frequentemente, dançam, cantam, prostituem-se e habitam os quarteirões das lanternas vermelhas, ganhando três vezes mais do que uma prostituta normal. Por vezes, deixam o cliente acreditar que está a ter uma relação sexual, simulando o orifício de penetração através de uma mão ou coxas fortemente apertadas.

Dados recentes sugerem que a comunidade acolhe crianças vítimas de abuso sexual, entregues pelas próprias famílias, bem como jovens viciados em ópio, castrados segundo os seus rituais. Apesar dos líderes da comunidade hijra afirmarem que a castração parte da escolha de cada indivíduo, a ONG Sahara Group considera que estes atos são cometidos por uma organização criminosa que atua na exploração sexual de crianças e jovens no submundo da sociedade indiana.

A par de considerações de foro ético, que levantam inúmeros problemas de direitos humanos, não posso deixar de achar notável a forma como estas sociedades foram capazes de integrar nos seus costumes papéis menos normativos – como é o caso do emasculado. Precisamos, de refletir sobre os nossos próprios códigos sexuais pois a diversidade faz, efetivamente, parte de todas as sociedades.

É urgente procurar novas respostas às naturais variações de sexo ou género.

[Continua na próxima edição…]

* Emasculação é o ato de extirpação dos genitais externos masculinos: pénis e testículos.

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
Fotografia de Diana Mendes
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