*Esta é uma crónica da Marta Crawford, inicialmente publicada na Revista Gerador de setembro.

Na primeira parte deste texto, publicado na Revista Gerador n.º 34, fiz referência aos hijras, que constituem comunidades de homens emasculados na Índia. Noutras culturas, iremos encontrar alternativas sexuais que não incluem a extirpação dos genitais externos masculinos e que, conforme relembra Olivier (citado por Herver e Lagier, 1992), chegam mesmo a institucionalizar o chamado «terceiro género». Descrevo-vos hoje algumas dessas diferentes comunidades espalhadas pelo mundo: mahu, alyha e hwame, e xanith.

Mahu

Nas Ilhas Austrais do Taiti, na Oceânia, e em redor, a sociedade acolhe os mahu com serenidade. No século xviii, cada aldeia das ilhas tinha um mahu e apenas um. Esta figura caracteriza-se por ter órgãos genitais do tamanho de uma criança de cinco anos, retirar os pelos da barba e conservar uma voz efeminada.

Vestida de mulher, dança e canta com elas, é perita em artesanato e muito ativa no interior do lar, limpando a casa e tomando conta de bebés. Mas o mahu não pede para ser identificado com um género mais do que com o outro. E, na verdade, ninguém se preocupa com o seu cariótipo – ele nasce e cresce mahu, tal como se nasce homem ou mulher, ainda que selecionado em novo e tratado pelas mulheres da comunidade como «uma delas». Já o felacio faz dele um «substituto» da mulher, sem que por isso seja considerado homossexual. Com efeito, os homens com quem têm relações sexuais nunca são assim classificados e nenhuma vergonha estigmatiza os seus parceiros. Isto porque o mahu está absolutamente integrado na vida de Papete (cidade), ao contrário de outras figuras, como é o caso do travesti, considerado um produto de importação, e que é conservado à distância.

Hoje, poder-se-ia, eventualmente, discutir se o mahu se encaixa no quadro dos intersexo*. Interessante perceber que, ao contrário daquilo que aconteceu no Ocidente (em que não se respeitou a integridade das pessoas intersexo – ao fomentar cirurgias de reatribuição sexual, na infância, no sentido feminino), estes são completamente inseridos na comunidade.

Alyha e hwame

Em 1987, Devereux (citado por Herve, J. e Lagier, J.) descreveu os costumes e práticas dos mohaves, a comunidade de índios da América do Norte, dando a conhecer duas realidades: alyha – homens que representam o papel feminino – e hwame – mulheres que representam o masculino.

Nesta tribo, as mulheres grávidas sonham com o sexo das suas crianças. Se o sonho indicar que será alyha, esta figura irá demostrar-se efeminada até à puberdade: brincando com bonecas, participando nos trabalhos domésticos e pedindo para usar roupas de mulher.

Assim que é notada a ambivalência na conduta, os pais preparam em segredo uma cerimónia de travestismo – mãe e avó fazem-na entrar num círculo vestido de rapariga e, se prosseguir até ao final dos rituais, um canto alyha ressoará. Posteriormente, as mulheres levam-na, então, a banhar-se no Colorado e dão-lhe um vestido.

Esta nova alyha passa a chamar o seu pénis de «clítoris», os seus testículos de «grandes lábios» e o seu ânus de «vagina». Casa-se e imita as menstruações. Quando fica «grávida», vangloria-se publicamente da sua gravidez – engole uma bebida que torna as suas fezes duras e secas, provocando-lhe uma hemorragia. E, sem qualquer ajuda, apoia-se numa árvore, como uma parturiente, defecando nessa posição, e proclamando em frente a todos ter dado à luz um bebé morto que, em seguida, «enterra» com uma pequena pá.

Esta alyha, que não é cortejada como as mulheres vulgares, é uma dona de casa excecionalmente ativa e representa um bom partido.

Já os hwame, por vezes, conseguem desposar uma mulher grávida. Reivindicam a paternidade da criança da qual tomam conta com muito cuidado. Viver com um hwame, sempre energético, pode fazer inveja a uma mulher mohave, principalmente se teve, anteriormente, um marido gastador e preguiçoso.

Xanith

A sociedade de Oman, na Península Arábica, propõe uma alternativa ao género, os xanith: «Nem homens nem mulheres», «impotentes, efeminados e doces» (Herve, J. e Lagier, J., 1992). Esta figura tem os seus genitais intactos e guarda o seu nome masculino, frequenta a mesquita com os homens e assegura a sua própria subsistência. Mas a sua beleza é feminina: pele clara, cabelo negro brilhante, olhos grandes e maçãs do rosto cheias. Além disso, trata das lides da casa, da cozinha, canta, dança, coscuvilha e passeia-se como as outras mulheres. Já se os homens e mulheres de Oman se perfumam, eles abusam das essências.

A lei proíbe-lhes o uso de roupas femininas (entre as quais o véu e a máscara), mas não os impede de imitar a voz, o riso e o andar baloiçante. Assim, adota roupas mistas (túnica de homem cintada nas ancas), cabelos meio longos e, ao contrário de todos os outros, cabeça destapada. Estes «homossexuais institucionalizados» são considerados «não homens», uma vez que são sexualmente «passivos» – é preciso ver que nesta sociedade tradicional apenas a demonstração pública das capacidades sexuais do marido – verificação da consumação do casamento, através do lenço ensanguentado – prova que o «homem» é «homem».

Tal como as alyha e os hwame, os xanith assumem papéis de género distintos do seu sexo biológico, sem pretender mudá-lo, uma vez que a transformação cirúrgica não é necessária, nem equacionada. Parece existir uma aceitação do corpo e dos seus atributos sexuais, sem ser essencial tratamentos hormonais ou cirúrgicos.

Nestas culturas, em que não existe um sistema de classificação binário, parece existir respeito e uma feliz convivência entre os diferentes papéis de género existentes, sem traços de discriminação. A forma como se olha para estes elementos das comunidades, com demonstrações de respeito, admiração e associando-lhes, por vezes, poderes especiais no que diz respeito à saúde ou à boa fortuna torna-as extremamente peculiares e, sem dúvida, merecedoras de reflexão.

*Pessoas intersexo: crianças ou adultos que nasceram com características físicas, hormonais ou genéticas que não são totalmente femininas ou masculinas.

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
Fotografia de Diana Mendes
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.