Há um ano, quando as salas de teatro estavam todas fechadas, a Companhia de Teatro de Almada decidiu avançar. Algo dizia que seria possível fazerem o seu festival, que se tornou já numa referência a nível internacional, mesmo que apenas com produções nacionais. E assim aconteceu. Ao longo dos seus cinquenta anos de história, os alicerces do festival foram ficando cada vez mais fortes e, com Joaquim Benite ao leme, foi-se construindo um público de teatro que, hoje, Rodrigo Francisco nos garante que é inigualável.

Neste quinquagésimo aniversário, o festival celebra-se a si mesmo, à sua história. Celebrar-se a si mesmo implica olhar para trás, conversar com as pessoas que foram construindo essa história, mas também evidenciar as relações internacionais que se foram estabelecendo. Cada peça apresentada trará um campo aberto ao debate. “O teatro é o lugar do debate, por excelência”, diz-nos Rodrigo Francisco, diretor da companhia e do festival.

Nas relações que foram surgindo ao longo desta já longa vida do festival, Espanha é uma das mais antigas e duradouras. Primeiro, por uma questão geográfica, depois por uma compreensão de vontades e sensibilidades. “Reinar después de Morir”, uma coprodução entre a Companhia Nacional de Teatro Clássico espanhola e a Companhia de Teatro de Almada, é uma das materializações dessa vida em conjunto que não é de agora, mas que está cada vez mais vincada.

Num final de manhã soalheiro pela Margem Sul do Tejo, Rodrigo Francisco recebeu-nos para uma conversa virtual no inconfundível Teatro Joaquim Benite. Sobre a edição deste ano, pouco nos pôde falar, já que a programação foi divulgada hoje e, ao momento da nossa conversa, ainda não havia muito que pudesse divulgar. Sobre a(s) vida(s) do festival, a relação com Espanha, a importância do público e o que há, de essencial, no exercício do teatro, Rodrigo falou honesta e abertamente.

Gerador (G.) – Entrar no site do Festival de Almada permite-nos fazer uma viagem no tempo. Têm todos os cartazes digitalizados e, mesmo quem não está a par da história do festival, fica a saber desde logo que acontece desde 1984. Que vidas é que este festival já teve? Há linhas-guia ou valores que sejam transversais a todos estes anos de história?

Rodrigo Francisco (R. F.) – O festival começou em 84 e chamava-se Festa, na altura. Era um festival de teatro amador porque a companhia estava instalada em Almada desde 78, e o elenco, que na altura tinha mais de duas dezenas de atores, animava grupos de teatro amadores quer em escolas, quer em associações de moradores, quer em grupos desportivos de empresas. E o Joaquim Benite, que é o fundador da companhia e do festival, lembrou-se de, em julho de 84, fazer uma mostra no centro histórico da cidade, ao ar livre, destes espetáculos que eram feitos por amadores. De facto, nunca tinha havido uma coisa do género na cidade e houve um grande impacto e logo no ano seguinte voltou a realizar-se o festival – que se realiza ininterruptamente desde aí – e, no ano seguinte, já o teatro nacional vem participar com o espetáculo. Nos anos 80 e até ao final dos anos 90, o festival era sobretudo uma festa de teatro ao ar livre, na zona histórica da cidade, em becos onde se improvisava um palco, ou em pátios, depois na Casa da Cerca, até que, nos anos 90, é montado aqui pela primeira vez no palco grande e depois na Escola D. António da Costa ao lado do teatro municipal, e o festival começa também a acontecer em Lisboa, por via das parcerias que começaram a estabelecer-se com alguns teatros da capital, e, na primeira década dos anos 2000, praticamente todos os teatros de Lisboa acolheram ou apresentaram espetáculos incluídos no Festival de Almada. 

Eu acho que aquilo que mais distingue este festival é ser organizado por uma companhia de teatro. São artistas que recebem outros artistas e que estabelecem um diálogo com o público da nossa companhia. É já um lugar comum dizer-se que não há público de teatro como o público de Almada. O Luís Miguel Cintra falava num público generoso, que vai ver um espetáculo para gostar dele. E de facto é um público inquieto, que está habituado a conversar com os espetáculos a que assiste; é uma prática que estabelecemos desde sempre, organizar colóquios para haver diálogo entre os criadores e os espectadores, e esse ato de pôr o público no centro das nossas preocupações e do festival, talvez seja aquilo que mais nos distingue. De resto, temos um sistema de assinaturas para assistir a todos os espetáculos em que os espectadores podem adquirir um passe e ver os espetáculos de cada temporada por um preço completamente irrisório.

G. – Essa era uma das questões que gostava de levantar, precisamente: qual é a mais-valia de um festival que é organizado por uma Companhia de Teatro (de Almada) ? Há um olhar de dentro, da produção, que privilegia a programação?

R. F. – Por um lado, nós quando estamos a conversar com os criadores que cá vêm, estamos a conversar entre pares. Há uma série de problemas, até de produção, que nós conhecemos porque também fazemos teatro. Sabemos quais as dificuldades que se põem quando saímos de um palco para montar o espetáculo noutro palco. E depois tem a vantagem de nós não termos uma perspetiva mercantilista sobre a atividade cultural, ou seja, não é um festival que é organizado para gerar lucro. Não é um festival que procure ter visibilidade pela visibilidade. Queremos pôr os artistas em contacto com os espectadores e depois há algumas tradições que mantemos: todos os anos sai um pequeno jornalinho diário, que é uma folha informativa sobre o que aconteceu no dia anterior e sobre o que vai acontecer. E eu creio que é o único festival no mundo, com esta dimensão, que é organizado por uma companhia de teatro. Temos uma estrutura que é bastante flexível, não temos conselhos de administração, não temos cargos diretivos fixos e atividades muito específicas. Por exemplo, muitas vezes são os atores que organizam o restaurante do festival, ou trabalham na equipa de acolhimento que vai buscar os criadores ao aeroporto e que os traz para os teatros. Portanto, durante o festival, toda a nossa companhia tem uma série de tarefas que faz com gosto.

G. – Numa entrevista que deste à Agenda Cultural de Lisboa, no ano passado, disseste que “o público e o seu direito de ver teatro” foram a vossa “preocupação fundamental” para decidir fazer o festival. “Nós fazemos o Festival para estar com os espectadores, não para responder a brilharetes de programação ou para ter aqui este ou aquele nome mais sonante”, disseste também. Qual é o papel do público num festival de teatro, e neste em particular? E como se chega a novos públicos num festival que já tem toda esta história?

R. F. – Eu diria que o público é um festival. O único objetivo de existir um festival é o público; só se faz teatro porque há pessoas que assistem ao espetáculo que nós fazemos. Temos sempre isso muito claro, e isso sente-se muito pelo tipo de relação que temos com os nossos espectadores. Durante o festival há muita gente que vem de fora, mas tenho uma alegria imensa por a grande parte dos nossos espectadores ser espectadores que acompanham o nosso trabalho ao longo do ano e também nos ajudam a crescer como criadores, porque nós quando programamos no festival algumas das melhores companhias do mundo, estamos em grande medida a elevar o nosso patamar de exigência enquanto fazedores de teatro, mas também dos nossos espectadores. É claro que uma pessoa se sente esmagada quando, depois de uma grande companhia apresentar espetáculo, um espectador vem ter comigo e diz: “Então e quando é que fazes um espetáculo assim?” [risos]. A primeira reação que temos é dizer “mas estamos a falar de um nível galático”, mas isso também nos puxa para cima. Nunca nos deixa estar muito confortavelmente na nossa circunstância a fazer o nosso pequeno espetáculo para os nossos espectadores de Almada. Coloca-nos sempre no patamar acima. Quando o Joaquim Benite começa a trazer as grandes companhias internacionais, nos anos 90, não havia muitas coisas em Portugal. Havia os Encontros ACARTE, mas ele teve esse papel de elevar a exigência do público. Quando um espectador assiste a determinado espetáculo ao longo do ano, quando vem ver o nosso trabalho, já tem essa referência e já não é tão natural ter uma tendência descendente da exigência – pelo contrário. 

G. – Ao mesmo tempo, um festival é sempre um ponto de encontro para profissionais da área, para verem o que se faz nacional e internacionalmente? Lembro-me de, numa conversa com a Olga Roriz, ela me dizer que os encontros ACARTE foram fundamentais para a geração dela ter estas referências de fora. Como dizes, o público é o festival – ou o festival é o público – , mas é importante que dentro desse público existam pessoas da área?

R. F. – É verdade, não nos esqueçamos do atraso cultural do nosso país. Muitas vezes não perspetivamos devidamente isso, mas nós tivemos uma ditadura até 1974. Nos anos 80, estava-se a resolver problemas mais prementes do país; um país atrasado do ponto de vista económico e social. E, realmente, só nos anos 90 é que se começa a abrir a janela para o que acontece lá fora. Temos feito um caminho de ir à procura do tempo perdido. Portugal é um país periférico, geograficamente, mas era também um país periférico do ponto de vista político, porque não havia uma democracia. Os criadores não podiam fazer e ver espetáculos sem estar sujeitos à censura. Para as nossas gerações já é muito difícil imaginar como seria, mas nós trabalhamos ainda nesta companhia com pessoas que viveram os tempos da censura. E o festival teve esse papel fundamental de divulgar, também junto dos criadores, aquilo que se fazia, ao trazer cá o Peter Burke, já no final dos anos 90, do Peter Steine. Isso permite também, não só aos criadores mas também aos intérpretes, ter acesso a esses espetáculos, e não nos podemos esquecer de que estamos a falar de uma época em que não havia Internet. Hoje em dia podemos aceder ao site de uma companhia que disponibilize os seus vídeos (vimos que isso aconteceu muito no último ano), mas no início do ano 2000 isso não era uma prática comum. As coisas estão a mudar com uma grande velocidade, e nós não é que não resistamos à mudança, mas não queremos embarcar rápida e acriticamente na onda dos tempos. Ou seja, o festival tanto no ano passado como este ano teve 0 eventos online, porque não acreditamos que a atividade online possa substituir a atividade teatral, é outra linguagem. E, de certa forma, está nos antípodas do nosso trabalho. Como citaste, nós fazemos teatro para estar com os espectadores. E estar com o público é partilhar um espaço, e partilhar um ritual que é o ritual do teatro. É estar numa sala de teatro, com pessoas. Acho que esse ritual não é substituível por uma relação à distância. 

G. – Foi uma decisão que tomaram enquanto companhia?

R. F. – Foi pela prática. Quando os teatros fecharam, começámos a pôr os espetáculos que tínhamos em arquivo online e percebemos que havia duas ou três pessoas que os iam ver. Depois, no ano passado, durante os meses de abril e maio, não sabíamos se podia haver festival e continuámos a prepará-lo como se pudesse acontecer. As companhias internacionais iam cancelando a sua participação, porque não podiam viajar, e ainda antes de sabermos se nos deixavam ou não fazer espetáculos ao vivo, perguntámos aos nossos assinantes se houvesse festival, estariam dispostos a vir. Mais de metade das pessoas disse-nos que sim, que desejava que houvesse festival e que cá viriam se assim fosse. Isso deu-nos o impulso de avançar. 

G. – Há uma procura por trazer os assinantes para as tomadas de decisão? A relação com o público de que falavas também passa por aí?

R. F. – Não se trata de ter um trabalho coletivo absoluto em que é o público que decide como as coisas se fazem, nós depois temos de tomar as decisões. Mas há alguns sinais que fazem com que os espectadores se sintam parte integrante, por exemplo, nós temos também uma prática que acho que é única no mundo: no último dia do espetáculo, os espectadores votam num espetáculo de honra para ser repetido no ano seguinte. Isto retoma, no fundo, o que era a tradição dos festivais de teatro da tragédia grega em que os espectadores elegiam a melhor peça. E além da folha informativa que distribuímos no festival, distribuímos uma folha de sala para cada espectador com mais informações sobre o espetáculo que vão ver. A relação que se estabelece não se esgota no final do espetáculo. Nós desejamos que depois de assistir àquele espetáculo, possam refletir àquilo que assistiram, em que medida irá influenciar as suas vidas; o que é que lhes trouxe. O nosso objetivo é fomentar essa discussão.

G. – Nesse sentido, gostava de te perguntar se o teatro pode ser uma forma de conhecer “o outro”? De viajar num sentido menos literal.

R. F. – Sabes… as peças de que eu gosto são aquelas em que o debate surge. O teatro é o lugar do debate, por excelência. O que é que a tragédia nos diz? Há uma personagem que diz “isto é assim”, há outra que diz “não, isto é assim”, e a partir daí há conflito, há teatro. Quando vamos na rua e vemos duas pessoas a discutir, imediatamente ficamos a ver, porque aquilo é teatro. E o ser humano tem qualquer coisa inata que nos faz interessar por isso. O teatro surge desse conflito entre a vontade individual e a vontade coletiva. Eu gosto sobretudo dessas peças, e desconfio muito de um espetáculo que procure transmitir uma mensagem. Lembro-me sempre daquela frase do Woody Allen que diz “se eu quisesse passar uma mensagem, não escrevia uma peça, escrevia uma carta”. Gosto de um teatro que levante questões, que convoque à reflexão, mas que não seja normativo nem didático. Que cause inquietação. 

G. – Pensando em reflexões (conjuntas), o Ignacio Garcia falava, há uns dias, em entrevista ao Gerador, de “Reinar después de Morir”, uma coprodução vossa. Estas parcerias com Espanha são tão recorrentes quanto gostaria?

R. F. – Os primeiros grupos a participar no festival eram espanhóis, por razões óbvias de proximidade geográfica. Nos anos 80, as viagens eram caríssimas, portanto estes grupos vinham porque estavam aqui ao lado. O Joaquim Benite era um entusiasta espanhol, e passou-me esse amor pela cultura espanhola, quando me formei com ele. Espanha tem sido um parceiro privilegiado ao longo dos anos, dependendo dos decisores políticos, essa relação tem-se vindo a desenvolver ou a diminuir. Neste caso, tem-se vindo a desenvolver bastante. Esse espetáculo, “Reinar después de Morir” foi inserido na Mostra Espanha, e depois tratou-se de uma coprodução inédita entre a Companhia Nacional de Teatro Clássico, de Madrid, e uma companhia de teatro independente portuguesa. Teve uma versão portuguesa, teve uma versão espanhola com a mesma encenação e atores espanhóis, e nós apresentámos inclusive o espetáculo em português em Madrid. Em Portugal, a cenografia do José Manuel Castanheira ganhou o prémio de melhor cenografia da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e em Espanha a encenação do Ignacio Garcia ganhou o prémio de melhor encenação pela Sociedade de Encenadores de Espanha. 

G. – Trouxe uma citação do Ignacio nessa entrevista, que achei muito curiosa: “eu tive a sorte de ter encenado a mesma peça com atores dos dois países e reparo que a sensibilidade é muito diferente. Acho que a literatura portuguesa tem sempre uma melancolia, uma delicadeza que os castelhanos não têm, são mais fortes e brutos. Não é melhor, nem pior, apenas é mais delicado em português, mais bruto em castelhano”. Dirias que há uma identidade do teatro português – ou em português? Concordas com essa ideia de delicadeza e melancolia?

R. F. – É sempre muito perigoso generalizar, mas eu acho que podemos dizer que nós, portugueses, somos um bichinho muito esquisito. Estamos aqui na ponta da Europa, só temos fronteira terrestre com um país, e de alguma forma isso terá tido alguma influência na nossa maneira de ser e até, por vezes, no surgimento de alguma rivalidade com Espanha. Como se diz em Portugal, “em Espanha nem bons ventos nem bons casamentos”. Foi uma história de guerras e de domínio. Mas eu acho que basta haver línguas diferentes para haver uma sensibilidade diferente em cena. Também concordo com o Ignacio, os atores portugueses têm uma formação diferente porque o público espanhol também tem uma sensibilidade diferente. E compreendo que ele fale dessa melancolia portuguesa. Se repararmos, o espanhol é uma língua muito mais aberta, em teatro. Um ator espanhol não tem dificuldade em fazer-se ouvir porque não tem dificuldade em dizer palavras como “para”. Como é que num palco para 500 espectadores, um ator que tem de dizer a palavra “para” faz com que esta palavra soe até à última fila? Quando um espanhol diz “pára” já se ouviu em todo o lado. Só esta questão linguística já tem um peso muito grande. Nós dizemos popularmente que os espanhóis falam muito alto e temos esta sensação porque eles, tal como os italianos, são uma língua com as vogais todas abertas. Nós não. 

G. – Há pouco falavas do Joaquim Benite e desta valorização que ele dava a Espanha. Que rasto do legado do Joaquim existe, ainda hoje? Mais que não seja, o vosso teatro convoca essa presença contínua do “mestre”. 

R. F. – Grande parte das pessoas que trabalham nesta companhia, ou pelo menos que têm tarefas de direção, trabalharam com o Joaquim Benite ou foram formados por ele. Portanto, há valores que passaram por nós. A exigência intelectual, o amor pelo público, o gosto de estar com os artistas, questionar e problematizar as coisas, não procurar problematizar as coisas mas torná-las mais complexas para descobrir novos significados. Tudo o que fazemos acaba por ter, de alguma forma, a sua marca. Não porque nós procuremos mimetizar aquilo que era a sua forma de ser e de fazer coisas, porque ele próprio também ia alterando ao longo dos anos a sua maneira de estar e organizar este festival. 

G. – A programação desta edição, que acontece entre 2 e 25 de julho, só vai ser divulgada a 18 de junho. O que é que podes destacar nesta edição, seja de conteúdo ou de forma?

R. F. – Em 2021, a nossa companhia comemora 50 anos de existência e temos preparadas atividades em torno deste cinquentenário, algumas estreias, alguns encontros da Cerca em que convidamos teatrólogos, pensadores, jornalistas a virem conversar connosco sobre este percurso da companhia. Vai haver também uma exposição organizada pela José Manuel Castanheira para celebrar este cinquentenário. Vai ser um festival bastante em torno do cinquentenário da companhia.

Esta entrevista surgiu no âmbito do programa EP COLAB 2021, promovido pela AECID – Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, Embaixada de Espanha em Portugal e o Gerador. Trata-se de um programa de atividades digitais que pretende pôr em contacto artistas e entidades culturais espanholas e portuguesas. Descobre mais, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Rui Carlos Mateus

O Gerador é parceiro da AECID