A Academia Gerador realizou, em 2021, um estudo em que questionou os portugueses sobre quais seriam as maiores dificuldades que os jovens enfrentam hoje em dia. Pedimos aos inquiridos que classificassem, numa escala de 1 a 10, em que 1 significa “nada difícil” e 10 significa “muito difícil”, as seguintes áreas: habitação; emprego; educação; família; tempo para vida social e para lazer; conexão social; saúde mental e bem-estar.

Ao observarmos os resultados, compreendemos que os portugueses consideram que, hoje em dia, as maiores dificuldades enfrentadas pelos jovens estão relacionadas com a habitação (comprar ou alugar casa), atribuindo-lhe, em média, 8,7 pontos. Em segundo lugar, surge o emprego (conseguir autonomia financeira, trabalho estável e/ou na área de formação). De seguida, avaliada com 7,4, surge a dificuldade de conseguir constituir família. Só depois, com classificações menores do que 7, surgem os outros aspetos: a saúde mental, a educação, o tempo para o lazer e para a vida social, e, por último, com uma classificação abaixo de 6, a conexão social.

Depois de analisarmos estes dados, o Gerador decidiu lançar uma nova rubrica investigativa, composta por 7 entrevistas, realizadas a 7 jovens diferentes. Todas as semanas iremos abordar, junto de um entrevistado, um dos temas trazidos à discussão por este questionário. Depois de termos conversado com Maria Francisca Macedo sobre educação, Mariama Injai, mais conhecida por Afromay, sobre conexão social, convidámos Sofia Rocha e Silva para pensar no emprego, em particular de jovens que trabalham em regime de freelance, ou queiram começar a fazê-lo.

Sofia tornou-se uma especialista na tarefa nem sempre fácil de gerir uma carreira de trabalhadora independente. Desde que se lembra que fica entusiasmada com a burocracia, a papelada, o ambiente de escritório, as tabelas de Excel, mesmo quando tudo isso não fazia necessariamente parte da sua vida. No momento em que passou a fazer, não se sentiu atrapalhada ou perdida num vocabulário que desconhecia. Era como um peixe na água, a nadar livremente. Talvez por isso o seu caminho enquanto freelancer tenha sido traçado quase porque tinha de ser. Mas porque é que tinha de ser?

Sofia Rocha e Silva nasceu em Vila Real. Cresceu entre as montanhas e o rio, a saber o nome de todos os seus vizinhos e, depois de estudar Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes do Porto (FBAUP), soube que queria voltar. Era na sua pequena cidade, pela qual nutre "uma relação de amor-ódio" que queria ser designer, ao contrário de grande parte dos seus colegas que queriam ir para um estúdio numa grande capital europeia. A partir da aldeia no distrito de Vila Real em que vive atualmente, trabalha por conta própria desde 2015. Apesar de não ser "a pessoa mais organizada de sempre" — é a própria que o diz — criou um método de organização que pode não servir para toda a gente, mas serve pelo menos de inspiração. É que não há nada na vida de Sofia, entre os seus projetos, que não envolva sempre outras pessoas, nem tão pouco que não contribua para a formação dessas mesmas pessoas.

Em Vila Real trabalha para uma série de clientes pelo país, mas também gosta de servir a comunidade. Foi professora de informática na Universidade Sénior, é secretária do Centro Cultural Regional de Vila Real, criou uma revista com um amigo (IP4mag), e co-fundou uma empresa de de apoio às artes do espetáculo. Depois de uma pandemia tirar o tapete à estrutura que levava na sua vida, decidiu começar a partilhar Dicas de Freelancer — já que a própria Sofia teria de dedicar-se mais ao trabalho de designer. Assim nasceu o podcast Fazer Preços e assim, e assim vão surgindo publicações regulares na sua conta do Instagram, nas quais desenha de forma simples os assuntos mais complexos do mundo de um trabalhador independente. Da faturação ao IRS, do direito a descansar à falta de concentração, da insegurança à confiança necessária para vender um trabalho pelo preço justo.

Seja através do Instagram ou do YouTube, Sofia traduz o que parece complicado para linguagem acessível. No seu site, vende livros e cursos que ajudem quem está no início de uma carreira a solo. Ou quem simplesmente nunca percebeu de burocracia. Ao Gerador, disse que não gosta de se posicionar como a pessoa que sabe e ensina; a verdade é que as suas dicas já facilitaram a vida a dezenas de jovens freelancers e foram o incentivo a outros que não sabiam como começar. Não consegue prever se haverá cada vez mais jovens a escolher seguir uma carreira que possam controlar, mas acredita que hoje os mais novos têm mais coragem de experimentar. O futuro de cada freelancer, cada percurso ditará. Sofia só consegue prever o seu e está certa de que passará por algo muito próximo ao que vive hoje. Afinal, é feliz a fazer aquilo que faz.


Gerador (G.) - Sofia, és uma pessoa que faz muitas coisas, mas que parece arranjar sempre tempo para mais alguma — sobretudo para coisas em prol de melhorar o caminho de outras pessoas. No verão de 2020, mais concretamente, decidiste começar a ajudar freelancers e pequenos empresários criativos a gerirem melhor o seu trabalho. Isto aconteceu por tu própria, noutros tempos, te teres sentido um bocadinho perdida?

Sofia Rocha e Silva (S.R.S.) - Eu não acho que tenha começado com um intuito tão claro de ajudar outras pessoas, para mim o facto de estar a pôr aquilo em publicações e a pensar em concreto também me ajudava muito a mim. É sempre nesse sentido, é muito no lugar de “eu também estou a aprender e estou a melhorar”, tenho sempre dificuldade em por-me no lugar de pessoa que já chegou lá e está a tentar ajudar outros. Eu sempre fiz muitas coisas e tive algumas dúvidas existenciais com isto. Nós pomos sempre um nome à nossa profissão e eu não conseguia dizer só uma coisa que fazia… claro que também não podemos esconder o facto de isto também ser uma necessidade minha porque ao viver em Vila Real não havia assim tantos clientes para design, então também era uma necessidade que eu fizesse várias coisas, mas era algo de que eu gostava. Às vezes as pessoas têm muito esse culto de “eu faço tudo”, mas esquecem-se desta variante: também é porque precisas de fazer várias coisas. 

Eu comecei no verão, em 2020, porque também tínhamos menos trabalho e criámos uma empresa relacionada com serviços de apoio às artes do espetáculo na pior altura possível, em fevereiro desse ano. Todos os trabalhamos que nós tinhamos previstos para o início da nossa empresa foram ao ar e foi uma altura um bocado complicada, eu tive de me focar muito mais no design e houve uma série de circunstâncias que fizeram com que eu fosse partilhando, de forma não muito planeada, coisas relacionadas com orçamentos, com contabilidade, porque é uma coisa que eu adoro tratar. Adoro papelada [risos]. 

G. - No fundo, gostas de fazer o trabalho que ninguém gosta de fazer.
S.R.S. - Gosto muito da parte da burocracia, sempre fui muito atraída por essa parte de escritório, mesmo já desde adolescente. Então, comecei a partilhar na altura porque me lembro que também tinha tido muitas dificuldades, sim, mas porque também queria tornar as minhas coisas mais sérias. A pandemia tirou-nos o tapete e por ter de apostar mais no design, pensei que se calhar tinha de me focar nisso a 100% e não podia depender tanto das outras coisas que ia fazendo. Tenho alguma experiência, muito variada, e juntei isso nas publicações que comecei a fazer.

G. - Ensinas a Fazer Preços e assim, não é?
S.R.S. - Exato, Fazer Preços e assim [risos]. Uma vez convidaram-me para dar um workshop e na altura eu estava um bocado insegura com estes assuntos, porque eu não tinha um estúdio de design, nem hoje tenho, e a rapariga que me convidou para o workshop que era aqui da UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro disse-me “faz qualquer coisa, fala sobre fazer preços e assim” e aquilo para mim foi tão sintomático de como nós vemos toda esta parte dos orçamentos, é uma coisa meio difusa, e então gostei mesmo muito dessa expressão. Eu já tinha tido a ideia para o podcast, mas nunca tinha tido o tempo que tive com a pandemia. 

G. - De facto, fazer preços é fundamental uma parte inicial quando nos queremos lançar num percurso profissional enquanto freelancers. Sentes que existe um desfasamento do valor do trabalho das pessoas e do preço que pedem por ele, num momento inicial? 
S.R.S. - Regra geral, sim. As mensagens mais ingratas que recebo no Instagram são aquelas em que me perguntam que preço se faz para um determinado trabalho, porque eu não sei responder a isso. Não há uma tabela. Eu posso dar uma ou duas dicas, mas não posso definir um preço que dê para tudo. Acho que tem muito mais que ver com a segurança do nosso trabalho do que propriamente com aprender a fazer um valor; tens de estar segura de ti e confiar que o teu preço é o teu preço, mesmo que alguém te possa dizer que é caro ou é barato. Estás confiante nele, e se o cliente aceitar aceita, se não aceitar não aceita. Sempre que nos é pedido um orçamento, mesmo que seja por um curto período de tempo, passamos por esse processo de pensar “será que este preço está bem?” Podemos sempre basear-nos no tempo, é sempre a maneira mais fácil no início, mas vamos ter sempre essas dúvidas. Por isso é mais um trabalho de confiança e de aprendermos a lidar com os nossos próprios erros, a quando damos um preço demasiado baixo não ficarmos demasiado frustradas. É um trabalho de confiança e ninguém pode fazer um preço por ti, a mal ou a bem és tu que sabes o valor do teu trabalho.

G. - Uma vez falaste de um assunto que achei muito pertinente, na tua conta do Instagram: será que o nosso trabalho vale menos porque saímos agora da faculdade? É muito comum em áreas criativas as pessoas que podem trabalharem de graça, e as que não podem terem um outro emprego para sustentar o trabalho que estão a fazer na área e que não é pago. 
S.R.S. - Eu sei que há pessoas que acham que trabalhar de graça nunca, em qualquer circunstância, mas eu não sou tão dogmática assim. Acho que quando estás no controlo da situação é diferente e que há muitas situações cinzentas. Mesmo quando estás a começar, há pessoas que fazem um trabalho e depois propõem outro à empresa, outras que estão a fazer trabalhos gratuitos para portfolio. O problema de quando saímos da faculdade é que estamos numa posição em que são os outros que controlam a nossa situação, ao dizer “não tenho dinheiro para ti mas vou-te dar exposição” ou “saíste agora do curso e isto vai ser bom para ti”. Quando são outras pessoas a impôr o valor pelo qual vamos trabalhar, e que nós sabemos que é baixo, é uma situação de nós não termos controlo e aceitarmos essas condições que nos são impostas. Não ser uma coisa em que estamos na posição de negociar, e podemos usar o facto de podermos baixar o nosso preço como ferramenta de negociação, mas isso é outra conversa. Eu durante o meu curso estive em contacto com pessoas tão talentosas e naquela bolha de que toda a gente é muito boa a fazer aquilo, toda a gente é capaz e toda a gente sabe, que tu própria te esqueces que fora da bolha as pessoas não sabem, as pessoas não são capazes, e tu tens muito mais conhecimento adquirido do que as pessoas para quem vais estar a trabalhar, só que estás a comparar-te com as pessoas que estão à tua volta e as coisas perdem o valor, como se toda a gente tivesse aquela capacidade e então está nivelado, e acho que quando saímos do curso temos isso muito entranhado em nós. Mais uma vez, acho que é mesmo uma questão de desconstruires o que sentes em relação ao teu trabalho e o valor que tem e de não deixares que as pessoas te imponham as condições. Tens de ser tu no controlo das condições e no limite não aceitas. Acho que só quando nos pomos numa situação em que estamos a aceitar condições que nos foram impostas com as quais não concordámos é que começa a gerar frustração, e infelizmente muitas vezes as pessoas estão entre a espada e a parede e é isso que as leva a aceitar condições piores. 

G. - Já disseste que embora muitos colegas teus quisessem ir para grandes capitais, tu sempre quiseste ser designer na tua aldeia, o que também é uma forma de impores o caminho que querias e talvez não fosse expectável. Sentias que existia espaço para o seres? 
S.R.S. - Eu tinha muitos conflitos com isso, na verdade. Na minha altura tu não quereres emigrar e não teres a ambição de ir para um grande estúdio lá fora era como se não estivesses a querer aquilo que podias querer, quando na verdade era só um caminho diferente. Isso influenciava bastante a minha confiança no meu trabalho porque não queria aquela carreira em particular. Foi por várias circunstâncias que voltei a Vila Real, e embora Vila Real seja uma cidade, eu vivo numa aldeia a 6km. É uma cidade pequenina e não tem empregos de design, e eu já sabia isso, portanto eu podia ir trabalhar para um jornal local, há assim um ou outro sítio que era possível mas as pessoas que lá estão já lá estão há muitos anos e vão continuar muitos anos, portanto não é um ecossistema criativo que tenha muito movimento. Eu sabia que vindo para cá tinha de arranjar uma alternativa, não sabia muito bem como, as coisas foram acontecendo muito em parte pelas pessoas que fui conhecendo aqui e que estavam na mesma situação do que eu, e unimos esforços nesse sentido, mas voltando para Vila Real sabia que não ia para um estúdio nem para uma gráfica (apesar de cá haver gráficas). Mas em retrospetiva, vejo que tinha mais ambição do que apenas voltar. Se fosse só voltar se calhar tinha vindo e tinha arranjado um emprego qualquer e aqui estaria no mesmo sítio mas a fazer outra coisa. 

G. - O que é que pesava mais nessa tua decisão de voltar? 
S.R.S. - Nós temos uma relação muito de amor-ódio com esta cidade [risos], sei que outras pessoas de Vila Real vão concordar comigo. No meu caso é a cidade onde eu nasci, ainda que não seja a cidade dos meus pais, e acontece que apesar de ser uma capital de distrito é uma cidade que tem muito pouca coisa comparada com outras capitais de distrito. Ou até comparado com cidades como Amarante, que são mais pequenas e têm mais coisas a acontecer. As pessoas andam na rua à noite, há cultura independente, há uma série de coisas. Mas quando eu voltei para cá estava bastante perdida, não sabia bem o que havia de fazer, mas as pessoas que fui conhecendo estavam a tentar trabalhar em coisas relacionadas com cultura, conheci o meu amigo Guilherme e criámos uma revista cá, então fomos fazendo coisas que eram muito estimulantes e sentíamos que fazíamos alguma diferença, havia um feedback muito automático. E depois também sentires a cidade a responder e sentires as pessoas que já cá estavam a responderem-te, acho que isso foi meio viciante. Nós víamos resultados e queríamos fazer mais. As coisas vão acontecendo; vais-te pondo naquele caminho e às tantas já não olhas mais para trás. Não foi muito planeado, as coisas foram acontecendo. Nós estamos a uma hora do Porto e a diferença de Vila Real, para mim, era exatamente essa, tu sentires que podias fazer mais aqui. Agora talvez já não sinta tanto isso, mas na altura sentia. Isso foi muito bom, na altura, ter esse espaço todo. Os dois fatores principais foram mesmo ter conhecido essas pessoas e as coisas terem começado a resultar não sem as suas dificuldades, mas quando pensamos em retrospetiva, não pensamos nisso. 

G. - O que é que achas que falta para mais pessoas jovens nas áreas criativas quererem ter a ambição de viver no interior de Portugal, por exemplo? Pode estar nelas também o gatilho para um certo avanço em zonas menos desenvolvidas? 
S.R.S. - É uma pergunta um bocado difícil… das duas uma, ou tens empresas que se fixam e que vão chamar pessoas criativas, que eu acho que é capaz de ser um caminho bastante longo e já se tentou de alguma forma com as incubadoras das empresas e tudo isso, mas também acredito na parte oposta que é teres pessoas como eu ou outros trabalhadores independentes que são muito mais portáteis, digamos assim, e que conseguem experimentar viver noutra cidade. Têm ligação à internet, estão na mesma numa cidade, têm correios e essas coisas todas que é preciso, e saem de uma grande cidade simplesmente porque querem experimentar e não estão propriamente dependentes de algo que não a internet. Acho que começa a acontecer mais, também porque as pessoas têm o sonho romântico de viver no campo, mas há sempre pessoas que nunca vão sair da cidade, que não passam sem Uber Eats e sem certos confortos da cidade. Numa aldeia não tens esses confortos, mas tens outras coisas. Tens rendas mais baixas, tens ar mais puro, natureza mais perto, tens relações diferentes com os vizinhos, e tens uma série de coisas que não tens na cidade. Portanto acredito que para uma fatia das pessoas que trabalham em criatividade começa a ser uma opção bastante viável mudarem-se para uma cidade mais pequena, se calhar não tão longe numa primeira instância, e começarem a habituar-se a essa ideia. Até porque depois há muitas pessoas que querem começar famílias e querem outra qualidade de vida, não querem estar sempre no trânsito. 

G. - Quando trabalhas a solo, seja numa grande cidade ou no interior, tens de dar a conhecer o teu trabalho. Na tua área, sobretudo, sentes uma certa pressão para dar a conhecer o teu trabalho com regularidade? Como se tivesses mesmo de o fazer para provar a tua relevância.
S.R.S. - Existe um bocado porque é o teu negócio e tens mais necessidade de o promover, no entanto não é como se fosse uma relação direta. Infelizmente não acontece tu promoveres e vir logo um cliente. Sentes alguma pressão de estar presente online para quando as oportunidades surgirem as pessoas se lembrarem de ti, acho que é mais isso. Acontece ainda muito pelo boca a boca, a maior parte das vezes. Claro que há um universo de freelancers que trabalham em plataformas de freelance, que não é o meu, e aí já é um trabalho de longo prazo de provares à plataforma e ao algoritmo que estás a trabalhar bem e ela vai-te beneficiando, mas no meu caso e no de outros freelancers acredito que o boca-a-boca funciona ainda muito, faz muito parte da maneira como te chega o trabalho, e as coisas estão muito encadeadas. Fazes um trabalho que leva a outro, que leva a outro, por isso o mais difícil no início é mesmo esse encadeamento acontecer. Quando comecei a fazer mais publicações no Instagram senti isso, e não é sobre o meu trabalho, mas já me apareceram mais trabalhos por causa disso. Porque eu estou lá e as pessoas lembram-se de mim quando é preciso pedir um orçamento, ou até mesmo quando querem pedir uma recomendação de alguém para fazer qualquer coisa. Acho que é mais isto. Não é tanto publicares portfolio, mas é tu estares presente. Tu estares na sala para as pessoas se lembrarem de ti quando precisarem de alguma coisa. E depois acontece uma coisa, de que o Fred e a Raquel do We Blog You falaram há uns tempos, que é tu promoveres não para o próximo cliente mas para daqui a algum tempo, e o que acontece é que estás a fazer bem isso, estás presente seja como for, mas a dado momento ficas com tanto trabalho que páras. E vais notar que aquele vazio da tua presença vai significar não teres clientes uns meses depois, e não vais perceber porquê. É uma coisa muito contínua e tens de estar sempre lá para as coisas serem mais certas. 

G. - Quando começas a trabalhar por ti existe essa pressão de teres de pagar as contas ao final do mês e teres de arranjar forma de ter esse dinheiro de que precisas, e por isso há outra questão que gostava de falar contigo: o que fazer se, numa situação de freelance, não surge trabalho? 
S.R.S. - É muito importante ter um fundo de emergência, uma poupança que deve cobrir no mínimo três meses da tua vida. Há quem lhe chame fundo de liberdade, porque é aquele dinheiro que te permite rejeitar um trabalho e teres uma garantia no final do mês. Até porque se há um atraso de pagamento, como é que pagas a renda? Não convém viver a contar com o próximo trabalho. Isto é muito importante, até para pessoas que queiram fazer a transição de trabalho por conta de outrem para trabalharem sozinhos, criarem o fundo de liberdade é muito importante. Quando nós estamos preocupados com dinheiro, isso é muito importante, e saberes que tens algum dinheiro de parte e que consegues viver alguns meses sem te preocupares já te liberta a cabeça para pensares em trabalho e pensares no que é que vais fazer a seguir. Quando não estás a encontrar trabalho durante muito tempo, e isso pode acontecer no início, pensar sempre em dinheiro vai ocupar-nos a cabeça inteira. O que eu fiz no início foi arranjar um part-time, qualquer coisa que me desse um mini nível de estabilidade. É claro que podes pôr todas as tuas fichas e fazer all-in naquele trabalho de freelancer e vais conseguir, mas há pessoas mais avessas ao risco, eu sou uma delas, e acredito mesmo que tu teres uma garantia mínima, nem tem de ser um trabalho de que tu gostes muito, é importante para não estares a zeros. Isso acontece com freelancers também, a dado momento têm de fazer um contrato com alguém porque as vidas mudam. 

G. - Ao mesmo tempo, é importante pensar que arranjar um outro emprego, mesmo que momentaneamente, não é desistir do percurso que desenhaste para ti? 
S.R.S. - Não significa que estás a desistir. A experiência que tenho diz-me que estar constantemente a pensar em dinheiro vai bloquear tudo. Para algumas pessoas talvez seja o motor para teres motivação, mas para outras pessoas pode ser paralisante, por isso teres uma garantia mínima, mesmo que seja um trabalho de que gostas menos, é bom para teres uma rede de segurança. Se já tiveres um fundo de segurança, já é outro nível. 

G. - Tens frisado que cada caso é um caso e que existem muitos caminhos. Mas quais dirias que são as ferramentas-chave para quem quer começar a trabalhar por conta própria? Acreditas que existe um perfil de pessoa freelancer
S.R.S. - As pessoas não são iguais para sempre, e se calhar com 18 anos podiam achar que não tinham perfil para nada disto, mas de repente aos 25 já tens. Mas há pessoas que não se dariam com trabalhar por conta própria e isso está tudo bem. Pessoas que precisem muito de trabalhar com outros, por exemplo, porque por muito que trabalhes num co-work e tenhas sempre a presença de outras pessoas as tuas decisões são tomadas sozinha, e pessoas indecisas ou com dificuldade em tomar muitas decisões, vai ser muito difícil. E depois vais viver isso com muita intensidade, porque tudo o que tu decides vai ter impacto em ti, é um caminho muito solitário. E depois pessoas que não sejam disciplinadas, que naturalmente se não tiverem um horário de entrada não se levantam da cama, vai ser um bocadinho difícil também porque se calhar vão deixar para a última e vão estar a stressar. Acho que o resto és sempre capaz de aprender, mas a parte das decisões é muito importante. Não há ninguém a quem nos encostarmos quando as coisas correm mal, e essa parte pode ser mesmo o que desmotiva algumas pessoas de continuarem a longo prazo. Há pessoas que não gostam de contactar com os clientes, estão mais longes, procurar clientes também pode ser uma parte um bocadinho mais relacional e que não agrade a algumas pessoas que preferem estar só a trabalhar no seu canto. 

G. - Ser freelancer é cada vez mais uma opção para os jovens? Se sim, achas que é porque sabem à partida que não querem trabalhar em estruturas abusivas com salários baixos e que existe cada vez mais uma procura por um caminho alternativo sobre o qual possam ter controlo?
S.R.S. - Acho que hoje estamos mais conscientes. Já não vamos assinar um contrato sem termo de 700€ porque estamos mais despertos para isso, e o valor do trabalho criativo quando estás numa máquina é muito mais pequeno. Se não estiveres numa posição de chefia, de tomada de decisões, se fores só mais uma engrenagem, o valor do teu trabalho não é tanto como podia ser potencialmente. Isso para pessoas que tenham profissões relacionadas com criatividade torna-se bastante óbvio a longo prazo. Também há muitas pessoas que fazem carreira trocando de sítio, indo de empresa para empresa. Mais do que as pessoas que estão hoje a começar escolherem ser freelancers, sinto que experimentam muito mais. Experimentam mais estar por conta própria e se não resulta mudam para outra coisa, se não resulta mudam para outra coisa, ou pelo menos eu quero acreditar que é mais assim, embora também ouça pessoas de 21 ou 22 anos a dizer “mas já é muito tarde para começar de novo” [risos]. Mas eu acho que hoje os percursos já não são tão lineares nem é normal que o sejam. É muito mais comum mudares de caminho a meio, tomares decisões diferentes, mudares de rumo, experimentares um emprego novo que se calhar nem tem nada a ver com o curso que tu tiraste. E é bastante bom que assim seja. Já não acontece muito tu tirares o curso de design e seres designer apenas e até ao fim da tua carreira. Não sei se vai haver freelancers, mas é possível porque há a possibilidade de ganhar mais dinheiro - embora maior parte dos freelancers ganhe menos dinheiro, mas o potencial é maior -, mas acho que vai haver mais pessoas a experimentar.  

G. - E no meio disto tudo, é importante estabelecermos tempo para nós e irmos de férias, por exemplo? Quando és freelancer (e não só) existe muito a sensação de que não te consegues desligar.
S.R.S. - Eu acho que sim, acho que quando começas é muito mais difícil porque tens muito menos percepção do que é urgente e do que não é. Quando estamos na faculdade temos trabalhos para entregar ao longo do ano e o prazo é aquele ou nunca mais, mas depois tu vais para a vida real e os prazos da vida real não funcionam da mesma forma, porque não interessa tu entregares o trabalho no prazo e ele não está a 100%, tem de estar a 100%. Se tiveres que entregar dois dias depois para estar, entregas dois dias depois - claro que cada caso é um caso. A noção de urgência que nos é imposta nos primeiros anos de trabalho custa um bocado contrariar, demoramos a dizer “isto vai ficar para amanhã”. Há coisas que não são assim tão importantes e os trabalhos vão ficar prontos na mesma. Demora até conseguirmos perceber o que é urgente e importante no trabalho. Hoje tenho muito mais facilidade em desligar, mas não vai ser naturalmente. Quando começares a desligar é porque te vais obrigar a fazer isso, vais delegar a alguém para tomar as tuas decisões caso isso seja preciso, vais pôr um e-mail automático a dizer que estás de férias e não queres ser contactada, vais ter que fazer tudo isso porque não vai acontecer naturalmente. Para as pessoas que sentem dificuldade em desligar: tu vais ter que marcar na tua agenda que vais ter tempo livre. Não vais ficar a pessoa mais relaxada do mundo de um momento para o outro. Eu sou uma pessoa muito tensa, naturalmente, e sei que preciso dessas estratégias. Preciso de me forçar a parar e contrariar as minhas tendências mais tóxicas. Eu nunca tive um burnout e não sei qual é a experiência de chegar mesmo ao limite, mas comecei a ter de deixar de levar o trabalho tão a sério. Se não porquê estares por conta própria se te estás a matar aos bocadinhos? A tendência para seres viciada no trabalho é imensa, porque vives o trabalho com muito mais intensidade, és tu que estás a tomar as decisões todas e custa muito mais, mas tem que ser. A longo prazo vais começar a sentir muito cansaço, se não o fizeres. Normalmente eu páro à quarta-feira, acho que não tens de ter essas regras que já existem para toda a gente de parares à sexta-feira e regressares à segunda. O importante é arranjares tempo de descanso, mesmo que o descanso seja muito parecido com trabalho, no caso de seres ilustradora e ires desenhar no tempo livre. Tudo bem, ninguém proibe, porque é isso que gostas de fazer. Mas ao menos que faças alguma coisa por ócio, porque se não vai ser difícil. 

G. - E a experiência de ser freelancer ganha-se sendo, nesse caminho de cada um, não é verdade?
S.R.S. - Pode parecer um bocadinho cliché, mas é mesmo isso. Tu vais aprendendo os teus limites, no fundo, e aquilo com que lidas melhor. Até vais aprendendo o que queres para a tua vida. Isto é mesmo conversa de quem fez 30 anos no ano passado e que atingiu um momento de introspecção [risos], mas é um bocado isso. Aos poucos vais percebendo o que te faz sentido, começas a definir objetivos mais concretos e começas a definir planos para lá chegar porque também te habituas a que as coisas estejam muito nas tuas mãos. Claro que não começamos todos no mesmo ponto de partida, há pessoas que já têm redes de contacto mais estabelecidas, há pessoas que têm a sorte de ir mais facilmente para uma universidade ou para outra, mas depois quando chegamos aqui temos de fazer o melhor com aquilo que temos.

Ficha Técnica
O universo do estudo é constituído por indivíduos com idade igual ou superior a 15 anos, residentes em Portugal continental e ilhas. A amostra, com 1200 entrevistas validadas, foi estratificada por região, sexo e escalão etário, em Portugal continental, e por ilhas, e distribuída em cada estrato de acordo com a repartição da população-alvo em cada estrato. As entrevistas foram realizadas de 22 de março a 27 de abril de 2021, através de um questionário feito online utilizando o método CAWI (Computer Assisted Web Interview). Os resultados são apresentados com um nível de confiança de 95 %. A margem de erro para a média na escala 1 a 10 é de 0,13 pontos e a margem de erro para a proporção é de 2,12 pontos percentuais.
Texto de Carolina Franco
Fotografia de capa de Lino Silva