A Terra realiza movimentos de rotação e translação e, para além desses, outros menos evidentes, como é o caso do movimento de nutação. Este último, provocado pela força gravitacional que a Lua exerce sobre a Terra, implica uma variação no seu eixo de rotação a cada 18,6 anos. Não se conhecem as consequências dessa rotação, no entanto, sabemos que 18,6 anos depois da última variação, uma brisa agitou as flores de um ramo de cerejeira, fazendo com que centenas de pequenas flores brancas cobrissem uma mulher. 

Foi nesse preciso momento que algo invulgar aconteceu: o passado e o presente fundiram-se.

Como? Ninguém sabe explicar, mas aquilo que vos vou contar aconteceu no dia 22 de fevereiro de 2021, exatamente às 10h15 e 52 segundos, em Lisboa, num bairro em forma de coração.

A Teresa não acreditava em amor à primeira vista – era demasiado racional para achar que era possível sentir amor por alguém com quem não tinha tido, pelo menos, meia dúzia de conversas sobre política, cultura e feminismo. Não se lembra se foi sempre assim. Talvez a partir da idade adulta, fase em que lhe pareceu mais importante concentrar-se na vida académica e profissional, e deixar de lado os sonhos românticos da adolescência.

Tinha ficado a ruminar sobre aquele homem que encontrara no aeroporto, parecia-lhe muito familiar, mas não conseguia identificá-lo nem situá-lo no tempo ou no espaço: seria alguém com quem tinha trabalhado? Algum cliente? Algum professor? Algum colega que o tempo tinha transformado? Não sabia!

(Ver história "O bairro")

O que sabia é, que naquela manhã, em que o cheiro das cerejeiras era intenso e a brisa fazia cair sobre si flores brancas, aquele mesmo homem da gabardine amarela a observava. Corou! 

(Ver história "O homem da gabardine amarela")

O que estaria ele ali a fazer? Perseguia-a? Mas porquê? Reparou no ramo de rosas. Baixou o rosto, envergonhada. E de repente fez-se luz. Aqueles olhos! Lembrou-se! Seria possível?

Há muitos anos, talvez há cerca de 18 anos e meia dúzia de meses, ao passear o seu cão, como era habitual todas as manhãs, foi envolvida num terrível acontecimento. Ao atravessar a rua, na passadeira, não conseguiu escapar de um carro que vinha lançado e que atropelou o seu querido cão. Desesperada com a situação, gritou, gritou por ajuda. Um rapaz, que assistiu a tudo, veio ao seu encontro, pegou no animal ao colo e disse-lhe que conhecia um veterinário que o podia salvar. Correram ofegantes pela avenida e no quarteirão seguinte, o rapaz entrou numa clínica veterinária com o cão ensanguentado. Ela seguiu-o. Sobreviveu graças à rapidez das ações. Nunca lhe agradeceu, pois o rapaz saiu sem se despedir. Jamais se esqueceu da forma como a olhou e disse: vai ficar tudo bem. Ela acreditou. O Jack viveu por muitos anos até adormecer para sempre no seu colo.

À sua frente, estavam sem sombra de dúvida, aqueles mesmos olhos, com os quais tinha sonhado tantas vezes. Seria possível?

A dona da Angie, observava aquele quadro idílico à sua frente com emoção.

Ultimamente a memória traía-a! Tinha consultado vários neurologistas que a tinham tranquilizado. A síndrome de que padecia não apagava definitivamente a memória, só a desconectava temporariamente, e talvez também por isso tinha acumulado tanta coisa na sua casa.

(Ver história "A recolectora")

Da posição de observadora em que se encontrava, sentiu-se observada por aqueles olhos negros. E ao levantar-se para ir ao encontro daquele homem, soube que ia ficar tudo bem. 

Poucos meses depois, ouviram-se os sinos da igreja do bairro a tocar de felicidade.  

Conheciam uma vizinha que lhes tinha dito que antes de conhecer o marido, já o conhecia sem o conhecer, já o tinha visto sem saber quem era, e que anos depois quando se reencontraram e partilharam as suas histórias passadas, perceberam que tinham vivido sempre ao lado um do outro.

Curiosamente, Artur e Teresa viveram e trabalharam no mesmo local, fizeram voos nos mesmos aviões e tinham familiares que viviam no mesmo bairro, mas nunca se cruzaram.

O destino estava traçado.

Foram muito felizes e abençoados com filhos, e a vida foi muito generosa, até que ele partiu...

Naquele dia, às 10h15, a dona da Angie reviu a história da sua vida, no exato minuto em que o passado se fundiu com o presente - provavelmente provocado pela força gravitacional que a Lua exerceu sobre a Terra.

O rapaz do cão preto e a rapariga do cabelo vermelho observavam boquiabertos aquela cena e até os cães ficaram imóveis.

(Ver histórias "O rapaz do cão preto" e "A rapariga do cabelo vermelho")

Não compreendiam o que se estava a passar, mas ao repararem no rosto emocionado da Teresa - a dona da Angie - perceberam que algo de extraordinário se tinha passado.

Olharam de soslaio para o banco que se encontrava por debaixo da cerejeira e não viram vivalma: nem anjos, nem noivas... apenas um manto branco de pequenas flores brancas de cerejeira.

Teresa olhou para eles e com um sorriso enorme disse-lhes: vai ficar tudo bem.

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
Fotografia de Diana Mendes
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