O Ventania – Festival de Artes Performativas do Barlavento traz à região uma reflexão sobre sustentabilidade. Lagos e Lagos receberam-no em junho, e, a 11 de setembro, é a vez de Portimão falar de temas urgentes do mar e da terra algarvia. “Temos de ser todos mais ecossustentáveis, não só por uma questão logística, de regras, ou de equilíbrio financeiro, mas sobretudo por uma questão de consciência.”

O tema sustentabilidade está cada vez mais presente nos festivais. O festival Ventania plantou o tema no Barlavento algarvio e desafiou a comunidade e artistas a pensar sobre ele. A inauguração da 3.ª edição foi no dia 2 de junho, no concelho de Lagos, onde foram apresentadas soluções para superar alguns dos grandes desafios que enfrentamos a nível global, mas também na região algarvia em particular. Lagos recebeu a instalação artística Windy, que juntou o trabalho do ceramista Ricardo Lopes a um ambiente sonoro criado pelo artista Carlos Norton e contou com a colaboração de uma turma de 3.º ano da Escola EB1 e JI de Santa Maria de Lagos. O município recebeu ainda o projeto de teatro e circo contemporâneo UNS AMB ALTRES, com a direção artística do catalão Pau Portabella, protagonizado pelo recém-formado Coletivo Ventania – um grupo de artistas residentes no Algarve, versados em múltiplas artes performativas, que se uniram com o propósito de formar um projeto âncora de criação coletiva na região. O festival trouxe ainda a estreia europeia do espetáculo ECOSOFÍA, com direção artística da chilena Camila Rojas Cannobbio. No dia 10 de junho, o festival Ventania uniu a comunidade aos artistas com o ANDROIDINÓPOLIS, a capital da Nova Ordem (Oratória Apocalíptica para Coro de Crianças e Ensemble), uma criação artística do maestro e compositor Jorge Salgueiro com a colaboração do Algarve Grupo de Percussão e a residência artística do grupo Ventania Ensemble.

A última residência da 3ª edição do festival será em Portimão, no dia 11 de setembro, onde, para além da programação habitual de dança contemporânea, vai contar com uma novidade para toda a família: o teatro de marionetas.

Em entrevista ao Gerador, Nelda Magalhães, uma das diretoras artísticas do Festival e mediadora da conversa-debate sobre “Arte, Ativismo e Sustentabilidade”, em conjunto com Daniela Tomaz ( também diretora artística), reforçou o papel do festival nas comunidades e na região e a importância do desenvolvimento e promoção do ativismo artístico.

Gerador (G.) – Estamos a meio da 3.ª edição do Ventania e todas as edições têm sido assentes no desenvolvimento e promoção do ativismo nas artes, nomeadamente a sustentabilidade, no mundo, e mais especificamente no Algarve. Como tem sido trazer um tema tão importante para um festival, e como avalia estas três edições?

Nelda Magalhães (N. M.) – Para nós tem sido um grande desafio, pois só tivemos uma edição que correu num tempo dito “normal”. Depois apanhámos a pandemia que, no fundo, veio ser mais um elemento de reflexão para o próprio festival (a forma como nos reorganizámos a as temáticas que trouxemos). Este ano, já houve artistas que nos propuseram temáticas ligadas ao que estamos a viver agora e como esta pandemia nos influencia diretamente, e ao nosso futuro. Temos feito uma boa avaliação do que tem sido o festival, sentimos que nesta edição (ainda mais do que nos outros anos), estamos a deixar uma pegada para várias gerações e de várias maneiras. O público já se identifica com as premissas, já sabe o que vai ver, o que esperar, já está preparado para que existam linguagens completamente diferentes umas das outras, porque o festival é muito eclético a nível de linguagens artísticas e de propostas e abordagens temáticas. Falando na minha perspetiva, e da Daniela Tomaz (diretora artística), o que tem sido um motor para nós, é que o festival tem, cada vez mais, criações raiz, projetos artísticos que estão a crescer dentro do Ventania e artistas que já propõem certos temas. O que tem sido um grande desafio, são os trabalhos com a comunidade, pois na segunda edição, ficaram todos muito comprometidos. Em 2020, fizemos o festival em outubro e novembro, e foi um período muito difícil para o Algarve, os casos subiram e as restrições também, por isso, não podíamos trabalhar com grupos e escolas, e acabámos por perder um pouco essa relação com a comunidade que tínhamos construído. Por exemplo, tínhamos um projeto com um lar da 3ª idade, com senhores com quase 100 anos, em Sagres, e não conseguimos continuar a trabalhar com eles. Foi uma pena porque os senhores ficaram desolados, era uma das últimas experiências do fim de vida, e acabou por ser uma despedida triste. São experiências muito fortes e a nós, interessa-nos trabalhar com várias gerações e aprender com elas. Estamos num território em que todas as gerações têm uma influência muito direta e forma de estar específica, e interessa-nos esta pesquisa constante de compreendermos como cada um está no território, que necessidades tem e de que respostas precisa. Aí, transporta-nos para o global, para quem vem de fora, para quem está connosco, para a situação mundial e como refletimos nela, mas sempre com uma perspetiva muito territorial. O que sentimos também, sobretudo nestas últimas edições é que, é muito importante que os festivais e os eventos culturais continuem a acontecer mesmo que numa escala menor, independentemente das restrições, pelos profissionais que dependem da área.

G. – Que problemas são esses que identificam no Barlavento algarvio?

N. M. – Temos várias questões que nos têm preocupado e que abordamos no festival. A nossa principal preocupação, e foi o que nos motivou para este festival, é a nossa relação forte e direta com a água. Na zona do Barlavento, falamos de algo muito grave como as secas constantes, o galopante desaparecimento da mata, baixas de água a nível de abastecimento local, a pouca chuva e as barragens secas. O próprio ambiente circundante não nos ajuda a criar respostas para as necessidades do território. Depois temos a relação muito forte com o mar. O grosso da população depende do mar, como negócio direto ou indireto, e esta relação com o mar, a sua qualidade, preservação e o equilíbrio do ecossistema marinho, influencia muito fortemente o território. Neste momento vemos espécies marinhas doentes, a preservação do mar não está simpática, inclusive tivemos (não há muito tempo), uma grande luta contra uma ideia de uma perfuração petrolífera na costa vicentina – tudo isto são alertas. No fundo, o mar ainda é a grande salvação deste território, pelo seu equilíbrio natural, pois temos uma série de espécies endémicas que depende desta proximidade e o mar ficar doente, essas espécies começam a afastar-se deste habitat ou a desaparecer. Já sentimos o ecossistema tão frágil que, se continuamos a galopar nesse sentido, então iremos ficar com um barlavento completamente descaracterizado e partimos mais depressa para uma desertificação. Sabemos que, num futuro longínquo, o Algarve pode começar a desertificar, mas podemos tentar entender a situação e criar novas estratégias, que partem de coisas muito pequenas, pois, por vezes, pensamos que não conseguimos sozinhos, mas sozinhos também fazemos a diferença. Estamos a encontrar soluções e reflexões para dar a volta aos problemas e conseguirmos encontrar outra forma de lidar com eles. Outra coisa que para nós é terrível, são os fogos de verão, como em Monchique, e não sabemos o que resta do território. São os nossos pulmões e sem eles a qualidade do ar começa a rarear e a ficar muito deficiente. Tentamos trazer essas reflexões. O festival não pretende ter um ativismo político ou uma posição muito extremista em relação a estes assuntos, procuramos sim uma forma mais “poética” de refletir sobre os assuntos, e a função das artes é muito isto: trazer-nos uma reflexão e que cada um tire as suas conclusões sobre os assuntos. Esse tem sido o objetivo do Ventania, e o próprio nome vem daí. Ventania faz parte do nosso território a nível natural, e traz-nos esta ventania de ideias, linhas artísticas, pensadores a nível do mundo artístico que sem preocupam com estes assuntos e querem levar o publico a refletir em conjunto.

G. – O festival apresenta artistas nacionais, mas também internacionais…

N. M. – Este ano trouxemos o Pau Portabella, um criador catalão da área do circo contemporânea e teatro físico que teve a trabalhar mais os temas sociais que é algo que nos preocupa também. Este período de isolamento tem limitado muito as nossas relações sociais, perdemos o nosso sentido de individualidade, e quando nos começamos a modelar muito a um todo, acabamos por perder um pouco dessa estrutura pensante, e a massa criativa depende muito dessa individualidade, sendo essa a temática trabalhada pelo artista. Vamos trazer, em setembro, a companhia Poème en Volume, que está a trabalhar com a Kale Companhia de Dança, num trabalho sobre os oceanos, sobre os trabalhadores dos oceanos, a pesca. Estão a desenvolver um trabalho forte sobre o papel dos homens da pesca, que passam grandes temporadas no mar. A relação deles consigo próprios, com os parceiros de trabalho e com o próprio ecossistema. Um trabalho muito interessante que parte de um trabalho documental que foi feito anteriormente. Temos uma grande camada da população que vive da pesca, já tivemos muitos pescadores que faziam essas temporadas no mar mais a norte, agora trabalham mais próximo da costa, mas têm existido muitos problemas, como arrastos, a nível do território, os desvios de cardumes, e a vida de quem vive do plano marinho não é fácil. Preocupamo-nos com estas questões porque, no fundo, o equilíbrio do território passa pelo equilíbrio humano e aquilo que conseguimos dar aos outros.

G. – É importante que os festivais comecem a olhar mais para o plano sustentável, saindo apenas do lado logístico, e começar a trazê-lo para as programações?

N. M. – Por acaso, há uns tempos, colocaram-nos a questão sobre o porquê de fazer um festival temático, e a Daniela Tomaz respondeu, “porque não, porque é que os festivais têm de ser arte per si?”. O que queremos, a nível do Ventania, é não funcionar como um festival de encomendas. Procuramos artistas que já trabalham estas temáticas e tenham uma linha de pensamento perto da nossa. Claro que não digo que todos os festivais têm de ter uma linha ecológica, mas, enquanto consumidora de festivais, tento ir àqueles que têm uma linha de pensamento e um perfil neste sentido, mas é uma opção pessoal. Nem acho fundamental que todos os festivais vão ao encontro destas temáticas. Obviamente que, se pensarmos no meio em que estamos, que estamos em 2021 e estamos a viver momentos delicados, há uma série de questões que devemos repensar quando pensamos fazer um festival. Isso tem mais a ver com uma estrutura base de um festival, e aí, claramente, temos de ser todos mais eco sustentáveis, não só por uma questão logística, de regras, ou de equilíbrio financeiro, mas sobretudo por uma questão de consciência. Há uns anos, os festivais tinham mares de plástico por todo o lado, hoje em dia, já existem muitas soluções que contornam isso, não temos de mudar a forma como estamos num festival, mas sim o impacto que, eu ter estado no festival, vai deixar num meio ambiente. É importante refletirmos sobre tudo, ter um pensamento crítico e fazer uma pesquisa artística sobre todas as temáticas. No Ventania, vamos sempre procurar artistas que pesquisem e se preocupem com as temáticas que vão de encontro ao que procuramos.

G. – O que é que o Ventania significa para as cidades que acolhem o festival, e também para o Algarve?

N. M. – Em cada município, o impacto é um pouco diferente. Nesta edição, o projeto que teve realmente grande impacto em Lagos, e porque envolveu um grande número de pessoas da comunidade escolar, e não só, foi o projeto criado com o ceramista Ricardo Lopes, “ A Água na Terra”, um projeto que é uma solução, e é isso que procurávamos para esta edição: a solução. O Ricardo propôs-nos trabalhar com uma turma da primária, tiveram uma introdução à cerâmica e construíram potes de barro que servem para regar as hortas de forma sustentável. Os potes são colocados dentro da terra, com a boca para fora, e, em vez de agastarmos rios de água a regar, temos os potes na horta e as próprias raízes das plantas vão buscar a água ao pote, porque a porosidade da cerâmica permite que a água passe. Quando pensamos que temos problemas de seca, esta solução é perfeita e tem quase 4 mil anos. Em Portugal, o Ricardo tem sido o estudioso desta técnica para perceber qual a melhor forma e eficácia possível. Fizemos a oficina e depois uma exposição com algumas turmas a visitá-la e foi muito interessante porque deixámos esta partilha com a comunidade, que a pode levar para casa e replicar. De repente, estamos a fazer duas coisas importantes nos dias de hoje. Por um lado, ter uma solução ecossustentável, por outro lado, para quem não tem furo, é uma solução para que consiga poupar água e não ter uma despesa muito grande. Em Lagoa, foi o projeto ANDROIDINÓPOLIS, a capital da Nova Ordem, uma composição do maestro e compositor Jorge Salgueiro. Esta ideia partiu do próprio maestro, uma pessoa que toma uma posição especial em relação à situação pandémica que estamos a viver e o impacto que pode ter no nosso futuro. A obra passa-se em 2063, e dá-nos um panorama do que poderá ser o nosso futuro se perpetuarmos esta situação: um extremo isolamento, uma extrema ausência de relações sociais, de amor e interação humana, um potencial da sensação de medo e insegurança.

G. – O que podemos esperar para a última fase do festival, em setembro?

N. M. – Vamos ter só um dia de festival e vamos ter dois eventos. Um que pontua a nossa relação com o mar e o outro com a terra. No dia 11 de setembro será no Teatro Tempo, em Portimão, e é a primeira vez que estamos a trazer para o festival a reflexão sobre as profissões do mar. Temos trazido várias questões sobre a nossa relação com o mar no que toca a preservação, mas sobre a relação humana é a primeira vez. É um espetáculo de dança contemporânea que nos traz esta reflexão forte sobre como estamos a viver em relação direta com o ecossistema, e como estas profissões são extremas, psicologicamente exigentes e que ainda são muito anónimas, por ocorrerem no mar alto, quase não existem e não temos relação com elas. A temática terra, traz-nos o teatro de marionetas da Mandrágora, o “Aurora”, sobre factos. Continuamos com um grave problema em compreender com ose limpa uma mata, depois de tudo o que tem acontecido em Portugal. Há uma profissão, e espero no futuro conseguirmos trazer esta temática, que desapareceu – o guarda floresta –, que era essencial para que estas situações fossem identificadas com a devida antecedência para que também o próprio território, mata ou floresta, estivesse melhor identificado Numa situação de fogo o guarda florestal sabe onde estão as espécies mais raras, por exemplo. O espetáculo foi criado e inspirado na Serra do Gerês, já foi feito há alguns anos, mas, curiosamente, continua muito atual e pertinente. Quisemos trazer um espetáculo para famílias que trouxesse uma reflexão mais forte sobre a problemática dos fogos.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia da cortesia do Ventania – Festival de Artes Performativas do Barlavento

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