A partir da vila de Joane, no concelho de Vila Nova de Famalicão, Vera Fernandes criou a Buzina, uma marca de roupa que é reflexo do seu estilo pessoal e daquilo que gostaria de ter no guarda-roupa. Esta semana, leva-a novamente à ModaLisboa, na sua 56.ª edição, onde participará na plataforma LAB – iniciativa destinada a jovens designers e marcas de moda emergentes.

Vera Fernandes não é designer, mas o mundo da moda, dos tecidos e da confeção nunca foi uma novidade. Cresceu com a avó materna, que era uma “modelista de mão cheia”, em Joane, “um meio extremamente têxtil”. Por isso, “as agulhas e as linhas não eram, de todo, estranhas”.

Formou-se em psicologia, mas quando regressou à vila, onde casou e foi mãe, decidiu redefinir objetivos e montar o seu próprio negócio. Abriu uma loja de roupa de criança e foi aí que começou a vender, anonimamente, as primeiras peças criadas por si. “Desde que fui mãe, o meu corpo acabou por se alterar um bocadinho também. Tive necessidade de recorrer a uma modelista. Posteriormente, quando abri a loja de criança, percebi que as minhas clientes também se identificavam com a minha forma de vestir e de estar, e pensei — ‘por que não criar a minha própria marca?’”

Começou do zero, “com zero euros”, a bater às portas das fábricas. Não encontrou quem lhe fizesse meia dúzia de peças, nem vendesse a quantidade de metros de que precisava, por isso, começou a trabalhar com excedentes de stocks, e recorreu à sua modelista para confecionar as peças. E as clientes gostaram. Em 2016, deixou o anonimato e criou Buzina. “Inicialmente, o meu objetivo era ter a loja em Joane e, no fundo, as minhas clientes serem as que já vestiam lá as crianças e que passaram a ser minhas clientes de adultos. Não tinha muito mais ambição do que isso”, conta Vera. Mas não foi o que aconteceu. Quando o sucesso começou a ganhar escala, fechou a loja de roupa infantil e apostou tudo na Buzina, que cresceu a passos largos, através das redes sociais, principalmente do Instagram, onde conta hoje com mais de 31 mil seguidores.

A participar, pela terceira vez, na ModaLisboa, a criadora da Buzina pretende levar à passerelle roupa que as pessoas tenham vontade de vestir e que possam comprar. "Eu trabalho para vestir mulheres e quero muito que todas elas, um dia, tenham uma peça minha no closet.”

Gerador – Quem é a mulher que se veste Buzina?

Vera Fernandes – A mulher que veste Buzina tem de ser determinada. Não tenho pachorra para mulheres com muitas dúvidas. Costumo dizer que a Buzina é uma marca muito própria, porque, da maneira que eu uso uma peça, outras mulheres usaram, e ela parecerá outra peça completamente diferente, porque elas vão dar sempre a personalidade delas à peça. Acho que é muito importante. As pessoas têm de perceber que mais do que vestir uma peça, saber usá-la e saber dar um bocadinho da nossa identidade à peça é fundamental para que as coisas funcionem. E, por isso, é que digo que gosto de mulheres determinadas, mulheres que não têm medo de arriscar, que gostam da peça e, muitas das vezes, nem precisam que eu lhes explique como a usar, até porque já têm formatado na cabeça delas como a vão usar. Posso dizer que a maior parte delas inspira-me e muitas das combinações que elas fazem com essas peças são combinações completamente improváveis que nem eu própria tinha pensado e imaginado. E isso, para mim, é muito estimulante.

G. – É uma marca que promove o empoderamento da mulher?

V.F. – Sem dúvida nenhuma. Isso sim. Ao início é uma marca que se estranha. Não foi fácil. Fui intitulada de fazer sacos de batatas. Fazia tamanhos únicos, coisas muito largas. As pessoas não se identificavam ou tinham até algum receio de usar. Eu tenho um metro e cinquenta e seis e peso pouco mais de 45 quilos e sempre usei peças XL, e elas achavam alguma piada em mim, mas não sabiam até que ponto poderia ficar bem nelas. Posso dizer que, atualmente, o ADN da Buzina está bem marcado, e as mulheres que compram procuram precisamente por ser Buzina, por obedecer a determinadas características. Isso tudo foi um percurso muito natural, muito espontâneo e não foi forçado. E acho que esse é um bocadinho o segredo. É as coisas acontecerem naturalmente.

G. – Dizia, no ano passado, numa entrevista, que a participação na ModaLisboa era o selo de qualidade que lhe faltava para poder ir além-fronteiras. O que é que significa participar agora uma segunda vez?

V.F. – Quando uma marca surge no Instagram, da maneira que eu surgi, com capital zero, ou seja, não tinha dinheiro e as coisas vão evoluindo e crescendo, e a partir do momento em que começo a ter vendas para os Estados Unidos, para várias partes do mundo, comecei a perceber que efetivamente havia mais pessoas a identificarem-se com a Buzina. O que não fazia sentido para mim era estar a mandar as peças para essas pessoas, ter lojas lá fora que queriam vender Buzina, quando, no meu país, nas duas semanas de moda que existiam, que é o Portugal Fashion e a ModaLisboa, eu não estava inserida em nenhuma delas.

Quando passo a estar inserida na ModaLisboa – daí dizer que era o selo de qualidade que faltava –, então sinto que agora que, dentro de portas, e que em Portugal, tenho o meu reconhecimento, agora, sim, faz sentido pensar em internacionalizar a marca. Participar nesta segunda edição – que, na verdade, não é a segunda, porque, entretanto, participei em outubro também – é o manter, e é um dar e fazer cada vez melhor, para que o reconhecimento aumente, para as pessoas conhecerem e gostarem cada vez mais e, acima de tudo, também mostrar que é possível para marcas como eu, que estão no Instagram. E ainda bem que as pessoas que organizam as semanas de moda em Portugal estão disponíveis para isto, para abrir esse tipo de precedente. Isso é fantástico.

G. – O que é que preparou para esta edição?

V.F. – Esta edição foi muito complicada para mim, porque entrámos em quarentena e toda a gente sabe que o estímulo criativo é muito importante. Quando esse estímulo é castrado, sentimo-nos meio perdidos e, pela primeira vez, a Buzina tem vindo a cimentar uma série de coisas, nomeadamente o seu ADN e ter coleções cada vez mais coesas e cada vez mais marcantes. E este foi o meu principal desafio. Foi fazer bom, fazer bonito, fazer melhor de uma maneira pensada e estruturada – uma coisa que raramente fazia antes. Era mais intuitivo e, desta vez, senti necessidade de efetivamente preparar toda uma coleção baseada e pensada ao pormenor. E isto é como tudo: quando apostamos, nos dedicamos e canalizamos a nossa energia toda para uma coisa, pode correr muito bem, também pode correr muito mal. Acho que tem tudo para dar certo. Vamos ver como é que vocês reagem, como é que as pessoas vão ver este ModaLisboa. Agora, acho que está uma coleção sólida, acho que está madura, e procurei arriscar um bocadinho mais do que aquilo que fazia, porque entendo que a Buzina também merece esse espetáculo de passerelle, que até agora, para mim, não era uma preocupação.

G. – A sustentabilidade é um dos valores da marca. Foi uma preocupação que teve desde o início, ou foi algo inerente a todo o processo, dado o local onde estava inserida, em Joane?

V.F. – A única coisa que sabia quando criei a minha marca é que tinha o meu gosto pessoal, podia não agradar a toda a gente. Como disse, não tinha dinheiro, não tinha capital para investir, portanto, as coisas iam-se fazendo caminhando. Bater na porta da indústria, atualmente, e explicar que queremos fazer cinco peças, ou duas peças, o que seja, é completamente inapropriado e desadequado, porque ninguém nos abre a porta. Portanto, recorri à minha modelista pessoal para começar a fazê-lo. Estaria a mentir se dissesse que foi todo um estudo pormenorizado e toda uma estratégia por querer criar uma marca sustentável. Não. A Buzina é sustentável por consequência. Eu não tinha dinheiro para comprar os metros de tecido que me eram exigidos. Portanto, comecei a trabalhar com excedentes de stocks em fábricas, que me podiam facultar e que me vendiam os metros que quisesse.

A nível de sustentabilidade, comecei a trabalhar com uma modelista. O trabalho é feito em ateliê e, atualmente, são três modelistas, mas todas elas pegam numa peça do início e ao fim. Não mandei nada para a indústria. Se isto inicialmente era porque era completamente incomportável, atualmente, é uma opção, sim, mas nem sempre foi uma opção. Foi uma consequência, porque teve de ser da maneira que foi. O que faz todo sentido agora, a meu ver. Se tivesse uma marca, ia ter estas preocupações, mas não foi o que aconteceu quando criei a Buzina. O que aconteceu, quando a criei, foi que não tinha quem me fizesse a quantidade de peças que queria e também não tinha quem me vendesse a quantidade de metros de que precisava. E, portanto, tornou-se sustentável só aí. E não produzia tecidos, porque usava os que já havia.

G. – O mercado das marcas de autor tem-se dinamizado muito nos últimos anos em Portugal. Procura, de alguma maneira, mostrar também a outros autores, designers que é possível singrar?

V.F. – Sou muito prática, não gosto de por florido onde não tem. Tudo o que a Buzina conseguiu até agora foi um processo tão simples, como o que acabei de contar. Há duas coisas que sempre tive presentes. Eu sempre quis que as pessoas vestissem a minha roupa. Ao contrário de alguns colegas meus, se assim posso chamar de colegas, que fazem roupa e não percebo para quem é que eles estão a fazer aquilo. Mas são opções, são maneiras diferentes de estar e de ver a moda. Mas isso sempre tive presente. Seja em passerelle, seja onde for, queria que a mulher tivesse vontade de vestir o que está a ver. E depois, é saber que já tinha visto vários desfiles de moda e que, se calhar, a maior parte deles era muito espetáculo, mas eu não me identificava com aquilo que estava a ver. Portanto, acima de tudo, o meu fazer, agora, esta semana da moda é mostrar um equilíbrio, que podemos fazer uma coisa que seja espetacular, mas que seja comercializável, e que as pessoas tenham vontade de vestir, que dê para usar e que seja uma peça intemporal. Essencialmente, acho que esse marco é que é importante.

Acho que os colegas designers também estão a perceber isso, também percebem que uma peça não tem de ser brutalmente cara, nem brutalmente inflacionada, só porque parte de uma passerelle, porque as pessoas têm vontade de usar. E nós vivemos do que vendemos, não me adianta fazer peças bonitas, se não as vender.

Texto por Flávia Brito
Fotografia de Artemagna fotografia (stylist Diana Vinha)

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