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Opinião de Jorge Barreto Xavier

Os homens bons

A bondade não se opõe a maldade. Não estão o tigre ou o leopardo. As…

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

A bondade não se opõe a maldade. Não estão o tigre ou o leopardo. As rãs e as águias pautam-se por regras certas sob códigos rigorosos. A ação das plantas carnívoras ou dos espinhos venenosos, o cantar do rouxinol e o esplendor da orquídea celebram a amoralidade natural dos seres vivos. Vivemos num planeta em que estamos sós, no poder do bem e do mal. Nenhum ser inumano é capaz de tanto e de tão pouco.

A solidão do bem e do mal correspondem a um desafio humano que, cada vez mais, parece ser ignorado. O desafio singular de podermos ser melhores.

Durante séculos, instituições poderosas determinaram o sentido da moral e curvaram por baixo do seu manto a ideia de humanidade.

Hoje, não nos bastasse a solidão do arbítrio entre as vastas criações da Natureza, temos de suportar o vazio da pluralidade multipolar. O que é o bem, o que é o mal, debate que se torna técnico ou mesmo secundário.

Há quem me tenha dito que a vida é curta de mais para se ter moral. Que o que interessa é a celebração do eu, dos interesses pessoais. Seremos todos predadores, e como em qualquer selva, prevalece o músculo. Todavia, as selvas são lugares organizados segundo hierarquias naturais que não correspondem ao exercício do humano. Reduzir a ideia do social a comparações simplistas leva-nos a um lugar onde repousam as demagogias ou os preconceitos.

A composição do humano corresponde mais a um edifício em construção, onde somos todos criadores, obreiros e habitantes. Torna-se difícil a aceitação deste papel múltiplo, individual e coletivo. E por isso as simplificações sociais tendem a colocar-nos, a cada um de nós, na prateleira mais adequada à exclusão – há os criadores, há os obreiros e há os habitantes. A separação de funções é também a definição de estatutos diferenciados e a determinação de limitações e prerrogativas. Neste bolo social, o mal e o bem depende de quem o faz. Há mesmo os que têm de fazer o mal para alcançar bens maiores, diz-se. Ou os que têm o direito a beneficiar mais que outros, pois fazem mais por muitos, diz-se. Ou quem nada mereça por nada fazer. Diz-se. As justiças pessoais e coletivas sobre o sentido do bem e do mal numa sociedade onde a sua sede já não é Deus e onde o juízo humano jaz em tribunais cuja autoridade é duvidosa, sobre leis ainda mais discutíveis, a inexistência de homens e mulheres modelares ou em que, coletivamente, nos possamos rever como modelos, constitui fator de disrupção do humano.

Onde se encontra o sentido do bem e do mal? Talvez para lá da ideia de consumo, de conforto, de bem-estar. Parecem ser estes os objetivos finais que agora nos orientam. Ter capacidade de consumo, conforto e bem estar para nós e para os que amamos ou simplesmente para exibição. Ou, no Estado Social, dar às instituições públicas o poder de promover o consumo, o conforto e o bem estar, numa ótica inclusiva. Não é coisa desprezível. É até coisa reconhecível e valerosa.

O mal menor e o bem maior são conceitos relativos, como todos os males e bens? O que hoje parece certo é que se não se assumir com coragem a necessidade de olhar para o bem e para o mal para lá das atuais ideias de consumo, conforto e bem estar, podemos ser as gerações vivas que aniquilaram o planeta, podemos ser parte da ação de genocídio sobre o futuro de tudo.

Enquanto, languidamente, repousamos no ramerrão, torna-se insustentável falta de consciência moral – sentido de responsabilidade própria e dos outros e capacidade de operar a partir do sentido. Será que poderemos dizer, como muitos alemães a propósito dos campos de concentração da II Grande Guerra, que não sabiam o que se passava? Ou que foram obrigados a cumprir ordens? Quantas guerras, nacionais, internacionais ou dentro de casa não repousam na ideia de ignorância benigna?

Claro que, face à eminência de desastres, podemos discutir a própria existência do perigo, ou os conceitos em que se baseiam as evidências da realidade.

O meu pai, ao olhar para alguém, acredita que é boa pessoa. Todas as pessoas são boas pessoas. Este crédito, apesar de ser discutível, tem uma vantagem – a maior parte das pessoas sentem em si a responsabilidade do crédito. Outras, claro, limitam-se a tirar vantagem do mesmo.

Acreditar é fundamental. Acreditar na possibilidade, na potência do bem é necessário. Um bem transformador, necessário para a sobrevivência e continuação do planeta Terra.

Perceber que temos de ter uma orientação para o bem pessoal e coletivo é hoje uma questão crítica.

E este crédito está para lá da existência puramente material, implica um radical interior, se quisermos, um sentido da existência de uma alma pessoal e coletiva. A sua ausência, pode corresponder à aniquilação de toda a materialidade.

O que tocamos é uma projeção do que não vemos. O que vemos é uma projeção do que não tocamos. E precisam de se encontrar no lugar onde se deixa espaço para todos os futuros.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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