Como se fossem feitos um para o outro, misturam-se os ventos do mar e da figueira, tornando-se num só. No caminho para as minhas narinas juntam-se também as fragrâncias dos cactos, romãzeiras e das flores das oliveiras do Algarve. Sem nenhuma dúvida, a sua união faz nascer um cheiro idêntico àquele que imagino que fosse o da minha vila palestiniana al-Muzayri’a, lugar de onde herdei uma memória de um perfume que nunca me foi permitido conhecer.
Ao contrário de muitas famílias que partiram pelo mar afora após a ocupação das suas vilas e cidades pelas forças sionistas em 1948, a minha exilou-se da sua terra na direção oposta, na expectativa de regressar às montanhas do mar assim que fosse possível. Tal nunca aconteceu. Antes desta data, o povo palestiniano, foi o único na zona que vivia rodeado de três mares: o Mar Vermelho, o Mar Morto e sobretudo o Mediterrâneo. A perda das terras costeiras depois da catástrofe palestiniana Nakba, substituiu o mar por um outro feito de saudades e desejos infinitos ancorado às ondas.
Muitas são as pessoas da minha idade – quase quarenta – que nunca na vida conseguiram visitar o mar, embora esteja a 20km de distância. Uma reportagem do Diário de Notícias há dois anos afirmava que só 9% das pessoas que vivem na Cisjordânia viram o mar palestiniano alguma vez na sua vida. Quem consegue chegar, precisa de uma autorização especial, quase impossível de obter, para poder passar o Muro de Apartheid, muitos checkpoints e humilhação antes de se mandar nos braços azuis.
Estou entre a afortunada e reduzida percentagem que conhece o nosso mar, algo que será impossível hoje, após a construção do muro e do apertar ainda mais das medidas da ocupação. Embora sem nunca obter autorização, consegui, em 1998, realizar o que é considerado pela ocupação israelita como uma visita “ilegal” até ao mar. Escrevi que foi precisamente naquele mar, que sempre me pertenceu, mas nunca me pertenceu, que me tornei: “Senti as ondas roubadas pela ocupação a apertar o meu corpo pela primeira e muito provavelmente pela última vez, e senti o sangue a escorregar por entre as minhas pernas. Não foi a primeira vez que vi sangue a sair de mim, já me tinham dito há alguns anos que me tinha tornado uma mulher, mas foi só naquele momento que senti o mar e o sangue, e percebi, senti e decidi: um corpo.”[i]
Uma submersão na água que me tornou numa imensidão azul, acordando este mar que há em mim, lembrando-me que fui concebida num país distante da Palestina, mas à beira do mesmo mar. Poucos dias antes do meu nascimento, a caneta palestiniana do meu pai empurrou-o para dentro da prisão e, logo, para fora de Beirute. Mesmo assim, consegui nascer à beira do mesmo mar noutra cidade distante, Alexandria, onde passava depois as noites de verão a ouvir o grito do mar misturado com as ondas do teatro vindos da janela da casa dos meus avós. Décadas mais tarde, reparo que qualquer barulho é capaz de me tirar o sono menos o mar e o eco vindo de um teatro perto dele.
Hoje, num mar que é quase a continuação do mesmo, recebo uma chamada que me lembra que as idas ao mar de qualquer pessoa palestiniana são um ato de resistência nem sempre possível: “Tenho um amigo palestiniano que não consegue um visto para vir a Portugal, ele quer vir ao mar.” Sinto algo entre impotência e culpa quando as ondas do frio de um mergulho matinal dedicado a um compatriota desconhecido se misturam-se com o quente do meu café, mistura esta parecida com o sentimento que me invade com cada passagem dos meus dedos ainda salgados no ecrã do meu telemóvel: ora são fotografias do mar de agosto, ora são das bombas que caem no momento sobre Gaza.
Entre o mar e Gaza não há contradição.
Gaza é o único lugar da Palestina onde ainda há mar. Embora haja cada vez menos mar e mais gente, num território de 365 km2 onde vivem cerca de 2.3 milhões de pessoas. O bloqueio sobre Gaza desde há uma década e meia inclui também limitações marítimas. Aos barcos, especialmente necessários para a pesca, só lhes é permitido afastar poucas milhas da costa (varia dependendo do lugar e das limitações israelitas do momento - embora o acordado sejam, 20 milhas, Israel impõe o limite entre 3 e 15 milhas. Durante anos, o mar em Gaza ficou altamente poluído, especialmente porque a única central elétrica local, a mesma que fornece energia à estação de tratamento de águas residuais, foi continuamente danificada por ataques israelitas, tornando o Mediterrâneo num esgoto, antes do início recente de um projeto internacional para o tratamento dessas águas.
Este verão foi possível voltar ao mar. Layan Abu-Shaaer, 11 anos, líder do seu grupo de dança, estava também no seu caminho para o mar com a mãe e a avó quando passou um F16 largando a morte na sua cabeça – num dos jornais portugueses mais lidos, apareceria: “operação militar contra a Jihad Islâmica”! O sorriso de Layan, ondem cabem as ondas do mundo vai faltar esta semana ao ensaio da dança e à ida para o mar.
[i] Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio, Almedina, Coimbra, 2017.
- Sobre Shahd Wadi -
Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010). Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua.