A boa notícia alenta-me por telefone: a multinacional X está a criar um programa de formação de novas lideranças, que pretende atrair candidatos com diferentes pertenças étnico-raciais.
A iniciativa, explicam-me abreviadamente, surge no âmbito de uma nova estratégia, que visa promover uma maior diversidade nos cargos de topo.
Para concretizar a boa intenção, essa entidade contratou uma consultora, por estes dias investida em seleccionar, entre outros, currículos de pessoas negras com perfil para ocupar posições de chefia.
A missão revelou-se impossível, a avaliar pelo telefonema que recebi.
Incapaz de realizar o trabalho para o qual foi contratada, a consultora lembrou-se de pedir ajuda a quem diariamente lida com potenciais candidatos a esse programa de formação de novas lideranças com diferentes pertenças étnico-raciais.
Ou seja: sobretudo activistas e associações, num processo que na última semana chegou até mim, enquanto fundadora da plataforma digital Afrolink.
Fiel ao compromisso expresso online – de ajudar empresas interessadas em constituir equipas étnica e racialmente diversas a encontrar profissionais africanos e afrodescendentes para as integrar –, manifestei a minha disponibilidade e interesse para facilitar esse “match”.
Mas ao confrontar o incontornável – “esse trabalho vai ser remunerado?” –, respondem-me o inaceitável: “Não”. É então que devolvo com outra questão: “Você vai ser paga, certo?”.
Certíssimo, confirmo, enquanto explico que a consultoria é um dos serviços prestados pelo Afrolink.
Percebo o desconforto do outro lado da linha, peço uma formalização do pedido por e-mail, e no exacto momento em que desligo o telefone, lembro-me dos créditos. Afinal, qual seria a consultoria reconhecida pelo trabalho? A Afrolink, pró bono, ou a outra, paga?
Estamos a avançar em termos de representatividade?
A resposta apresentou-se noutro momento, numa reunião com uma entidade pública. Convidada a integrar um grupo de trabalho não remunerado sobre a prevenção e combate da discriminação nas escolas, deparei-me com a existência de outro grupo remunerado com os mesmos fins. No primeiro caso, não remunerado, apenas uma das pessoas integrantes não era racializada, enquanto no segundo todos os participantes eram brancos.
Mais uma vez: qual dos grupos seria reconhecido pelo trabalho?
De novo, a resposta impõe-se a partir da experiência, acumulada entre vínculos associativistas: em demasiadas ocasiões, o convite a pessoas negras para integrarem painéis de discussão chega sem proposta de pagamento, realidade que, entre conversas de bastidores, se revela não ser extensiva aos convidados brancos.
Uma vez mais, onde está o reconhecimento?
Navego pelos três exemplos acima descritos, enquanto busco respostas para uma pergunta que me foi lançada recentemente: “Vemos cada vez mais pessoas negras a ocuparem o espaço público. Significa que estamos a avançar em termos de representatividade?”.
Sei que estamos a avançar, quanto mais não seja por hoje vermos e ouvirmos pessoas negras quando antes permaneciam invisibilizadas e silenciadas. Mas desengane-se quem pensa que essa mudança é produto de uma transformação do sistema. Se agora temos pessoas negras a afirmar a sua voz e visibilizar as suas histórias, isso deve-se em grande parte aos movimentos da sociedade civil.
Se assim não fosse, teríamos não apenas o acolhimento do saber negro, mas também o seu reconhecimento. Sem as manobras de aproveitamento de cada dia.
-Sobre a Paula Cardoso-
Fundadora da comunidade digital “Afrolink”, que visibiliza profissionais africanos e afrodescendentes residentes em Portugal ou com ligações ao país, é também autora da série de livros infantis “Força Africana”, projetos desenvolvidos para promover uma maior representatividade negra na sociedade portuguesa. Com o mesmo propósito, faz parte da equipa do talk-show online “O Lado Negro da Força”, e apresenta a segunda temporada do “Black Excellence Talk Series”, formato transmitido na RTP África. Integra ainda o Fórum dos Cidadãos, que visa contribuir para revigorar a democracia portuguesa, bem como o programa de mentoria HeforShe Lisboa. É natural de Moçambique, licenciou-se em Relações Internacionais e trabalhou como jornalista durante 17 anos, percurso iniciado na revista Visão. Assina a crónica “Mutuacção” no Setenta e Quatro, projecto digital de jornalismo de investigação, e pertence à equipa de produção de conteúdos do programa de televisão Jantar Indiscreto.