Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Manuel Luar

Já não há estações do ano

Nas Gargantas Soltas de hoje, Manuel Luar comemora o Dia Mundial da Ciência pela Paz e o Desenvolvimento, falando-nos sobre as comidas de inverno.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

O Dia Mundial da Ciência pela Paz e o Desenvolvimento é celebrado anualmente a 10 de novembro.

Dizem as entidades responsáveis: “O propósito deste dia é destacar o papel da ciência no desenvolvimento e pacificação das sociedades, bem como promover a cooperação internacional neste domínio.

O tema deste ano é "Building Climate-Ready Communities". Com as alterações climáticas a tornarem-se uma séria ameaça à vida Humana e ao Planeta, as celebrações deste ano marcam a importância da construção de sociedades prontas para se adaptarem ao clima.”

Na prática aquilo que constatamos no nosso dia-a-dia é que a divisão clara e significativa das estações do ano deixou de ser um dado adquirido. 

Tal como os grandes nevões na Serra da Estrela (que eram acompanhados pela descida dos lobos aos povoados) ou pelos meses de agosto sem nunca vermos nuvens no horizonte, hoje estas divisões passam quase a ser mitológicas e convencionadas, artifícios de ordenação do calendário para utilização de quem não sabe viver sem agendas com as suas linhas e colunas, em formato digital ou não.

Quem se recorda de ir "brincar ao Santo António" à chuva? Ou de estar disponível para aviar uma sardinhada também à chuva?

Há comezainas que exigem tempo adequado, não tenham dúvidas. Desde o cozido à portuguesa de Inverno, ou a lebre e perdiz no Outono, até aos grelhados de Verão. 

Por isso, acontecia antigamente darmos descanso ao palato e ao estômago, preparando o corpo na estação estival para o "pesadelo" dos pratos invernais (e infernais).

Quando o mundo era um local mais simples, onde parte significativa da população ativa de Portugal ainda vivia das suas leiras  —  para vender nas feiras o produto da terra ou mais habitualmente para subsistência ou complemento dos fracos rendimentos mensais  —  estas coisas das Estações do Ano tinham preceito.

Havia o velho "Borda d'Água" que era o almanaque do campo e que ainda resiste. Havia o TV Rural do Engº Sousa Veloso - e combinava-se na rádio o "Piquenicão”, patrocinado pelos "Fosfatos Amónio" ou pela CUF (por causa dos adubos).

Vem isto a propósito de não ser hoje incomum existirem restaurantes que todo o ano apresentam cozido à portuguesa nas cartas. Ou cabrito. Ou até o galego lacão (pernil de porco fumado e cozido) com grelos...

O “cabrito” resolve-se todo o ano (e mal) com a conhecida importação do “cabricordeiro” dos antípodas e a utilização das arcas congeladoras 

Para já não falar da "perdiz " em julho (obviamente de aviário, tanto podiam marcar na carta perdiz como frango, era igual).

Manda o Cliente. Manda o Marketing.

Se ao Cliente lhe apetece o cozidinho, mesmo que feito com lombardo em vez das couves portuguesas, porque é que não se lhe dá? Embora a couve-lombarda seja mais dedicada a salsichas frescas guisadas...

Estimo que dentro em pouco e logo que a lei o permita vão-nos propor Lampreia em agosto e Sável em maio. Tudo graças à moderna tecnologia de aquicultura e refrigeração. 

Há anos era uma festa (ilegal, já se sabe, mas com o sabor picante de tudo o que era pecado...) quando algum amigo nosso - normalmente trabalhando em coutos - nos presenteava com duas perdizes fora de época, ou até com uma braçada de coelhos bravos. 

Hoje não há nada mais simples, é só dirigir-se ao supermercado especializado. Desde o faisão ao veado, têm lá uma verdadeira coutada, daquelas onde D. Carlos costumava caçar.

Onde fica a gastronomia com isto tudo?

Sem querer parecer "Velho do Restelo", sempre lhes digo que não só da técnica culinária e da arte do "queima-cebolas" à frente dos fornos vive a boa cozinha, mas também  —  e sobretudo  —  da qualidade da matéria-prima.

E quem se esquecer disso  —  sendo cozinheiro — que se dedique a fazer colheres de pau. 

As quais acho que já são proibidas? Todo o cuidado é pouco.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

8 Setembro 2026

Sempre houve luta, sempre houve jasmim

18 Agosto 2026

Porque desistimos de pensar no futuro?

4 Agosto 2026

A regularização extraordinária de imigrantes em Espanha

14 Julho 2026

A insustentável leveza de um violador

30 Junho 2026

Uma mesquita digna para o Porto

16 Junho 2026

5 mil euros por mês, a trabalhar 2 dias e meio por semana? É possível

2 Junho 2026

Do livro

19 Maio 2026

O teatro palestiniano: ser ou não ser?

12 Maio 2026

A real decadência europeia

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0