O Dia Mundial da Ciência pela Paz e o Desenvolvimento é celebrado anualmente a 10 de novembro.
Dizem as entidades responsáveis: “O propósito deste dia é destacar o papel da ciência no desenvolvimento e pacificação das sociedades, bem como promover a cooperação internacional neste domínio.
O tema deste ano é "Building Climate-Ready Communities". Com as alterações climáticas a tornarem-se uma séria ameaça à vida Humana e ao Planeta, as celebrações deste ano marcam a importância da construção de sociedades prontas para se adaptarem ao clima.”
Na prática aquilo que constatamos no nosso dia-a-dia é que a divisão clara e significativa das estações do ano deixou de ser um dado adquirido.
Tal como os grandes nevões na Serra da Estrela (que eram acompanhados pela descida dos lobos aos povoados) ou pelos meses de agosto sem nunca vermos nuvens no horizonte, hoje estas divisões passam quase a ser mitológicas e convencionadas, artifícios de ordenação do calendário para utilização de quem não sabe viver sem agendas com as suas linhas e colunas, em formato digital ou não.
Quem se recorda de ir "brincar ao Santo António" à chuva? Ou de estar disponível para aviar uma sardinhada também à chuva?
Há comezainas que exigem tempo adequado, não tenham dúvidas. Desde o cozido à portuguesa de Inverno, ou a lebre e perdiz no Outono, até aos grelhados de Verão.
Por isso, acontecia antigamente darmos descanso ao palato e ao estômago, preparando o corpo na estação estival para o "pesadelo" dos pratos invernais (e infernais).
Quando o mundo era um local mais simples, onde parte significativa da população ativa de Portugal ainda vivia das suas leiras — para vender nas feiras o produto da terra ou mais habitualmente para subsistência ou complemento dos fracos rendimentos mensais — estas coisas das Estações do Ano tinham preceito.
Havia o velho "Borda d'Água" que era o almanaque do campo e que ainda resiste. Havia o TV Rural do Engº Sousa Veloso - e combinava-se na rádio o "Piquenicão”, patrocinado pelos "Fosfatos Amónio" ou pela CUF (por causa dos adubos).
Vem isto a propósito de não ser hoje incomum existirem restaurantes que todo o ano apresentam cozido à portuguesa nas cartas. Ou cabrito. Ou até o galego lacão (pernil de porco fumado e cozido) com grelos...
O “cabrito” resolve-se todo o ano (e mal) com a conhecida importação do “cabricordeiro” dos antípodas e a utilização das arcas congeladoras
Para já não falar da "perdiz " em julho (obviamente de aviário, tanto podiam marcar na carta perdiz como frango, era igual).
Manda o Cliente. Manda o Marketing.
Se ao Cliente lhe apetece o cozidinho, mesmo que feito com lombardo em vez das couves portuguesas, porque é que não se lhe dá? Embora a couve-lombarda seja mais dedicada a salsichas frescas guisadas...
Estimo que dentro em pouco e logo que a lei o permita vão-nos propor Lampreia em agosto e Sável em maio. Tudo graças à moderna tecnologia de aquicultura e refrigeração.
Há anos era uma festa (ilegal, já se sabe, mas com o sabor picante de tudo o que era pecado...) quando algum amigo nosso - normalmente trabalhando em coutos - nos presenteava com duas perdizes fora de época, ou até com uma braçada de coelhos bravos.
Hoje não há nada mais simples, é só dirigir-se ao supermercado especializado. Desde o faisão ao veado, têm lá uma verdadeira coutada, daquelas onde D. Carlos costumava caçar.
Onde fica a gastronomia com isto tudo?
Sem querer parecer "Velho do Restelo", sempre lhes digo que não só da técnica culinária e da arte do "queima-cebolas" à frente dos fornos vive a boa cozinha, mas também — e sobretudo — da qualidade da matéria-prima.
E quem se esquecer disso — sendo cozinheiro — que se dedique a fazer colheres de pau.
As quais acho que já são proibidas? Todo o cuidado é pouco.
-Sobre Manuel Luar-
Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.