A maior parte dos profissionais que trabalham a saúde mental sabe que, logo à partida, têm uma batalha complicada para ultrapassar e que tem uma designação simplista: estigma. Independentemente da pessoa a tratar ou de quem a acompanha, o mundo “normal” vive com certezas e ideias preconcebidas em relação a tudo e a todos. E se isto se verifica numa simples tomada de posição política, cultural ou desportiva, tudo é amplificado quando se passa para a questão humana e os seus receios e vergonhas.
O estigma é um conjunto de ideias negativas sobre um grupo, comportamento, ideal ou escolha. Até mesmo com uma doença, um problema físico, algo que ninguém escolhe, mas que está sujeito aos factores menos positivos da vida.
Ainda nos dias de hoje, em sociedades que consideramos “normais”, há quem grite impropérios contra determinado visual, comportamento, atitude ou presença. Como sabemos bem, não são abonatórios.
Entretanto, a sociedade está a ficar mais agressiva, explosiva, imprudente e, por outro lado, objectiva, exigente, formativa e intransigente. Sim, andamos irritadiços, zangados, compulsivos. Se a culpa é das redes sociais ou da velocidade do tempo, cada um fará a sua análise.
Mas o estigma, por muito que se tente combater com as armas possíveis (e que são sempre mais frágeis e complexas), esconde outra maleita que está a crescer a olhos vistos nesta sociedade a que chamamos “actual”.
Paralelamente ao estigma que consideramos geral, existe o estigma pessoal, ou seja, o “self-stigma” ou, numa tradução livre, o estigma interiorizado que é um processo ainda mais conflituoso para a pessoa que não está bem. Ou seja, é um fenómeno que se traduz na autoconsciência da condição de vítima de estigma mas, em que a culpa é própria, ou seja, em que a pessoa aceita e aplica a si própria todos os estereótipos negativos relacionados com o seu transtorno particular.
Naturalmente, o estigma interiorizado provoca embaraço, vergonha ou trauma que leva à baixa de auto-estima, o que promove, entre outros, comportamentos anti-sociais, exclusão, solidão e tudo o que de pouco positivo daí advém.
Para simplificar, eis três exemplos que explicam como se passa do geral para o particular, começando pelas crenças generalizadas: 1) acreditar que pessoas com problemas de saúde mental são responsáveis pela sua doença; 2) acreditar que pessoas debilitadas por doenças de saúde mental podem ser agressivas; 3) acreditar que pessoas com adições (substâncias ou comportamentos) são irresponsáveis.
Se estas “verdades” são repetidas à exaustão e apontadas como certezas, quem as sofre vai acreditar nelas e, pior, que é responsável por elas, ou seja, a culpada. Isto resume muito simplificadamente o que é o estigma interiorizado.
Como acima avançado, esta conclusão leva à auto-exclusão e à alienação que podem ser percebidas através dos seguintes comportamentos: sentir que se é inferior devido à própria doença; sentir vergonha, desapontamento e embaraço devido à mesma causa; culpar-se por sofrer de uma doença; sentir que essa doença é a causa de ruína da sua vida; sentir que ninguém poderá entender pelo que se está a passar. Há muitos outros exemplos, mas estes surgem, por exemplo, nos estudos da jornalista Kelly Burch (Washington Post, Chicago Tribune) que tem escrito sobre o assunto e apresentado respostas para combater este problema que afasta da sociedade pessoas válidas que vão perdendo coragem, força e vontade de lhe pertencer.
O estigma interiorizado é silencioso. E pode matar. Afinal, não se procuram soluções onde não se vê a existência de um problema.
-Sobre Ana Pinto Coelho-
É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora. Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.