Ao longo do tempo, a tradição natalícia foi-se adaptando à vida das pessoas e o dia que começou por ser de partilha com os mais pobres, tornou-se num dia de troca de presentes com o nosso círculo familiar e de amigos.
Os custos ambientais de toda a envolvência do Natal são crescentes e abrangentes, porque nesta altura do ano regista-se um enorme aumento do desperdício alimentar, dos resíduos de embrulhos e embalagens, do corte de árvores resinosas jovens, bem como de outras emissões de CO2 e metano associadas ao nosso consumismo de uma forma geral.
Obviamente que não é acabando com a tradição que se resolve o problema, mas sim criando novas tradições que constituam uma evolução com vantagens para todos os envolvidos.
A defesa de um mundo menos consumista e mais humanista é uma das grandes bandeiras da ZERO. Tentemos, por isso, partilhar convosco a nossa visão de futuro.
Como em tudo, basta seguir os Rs da reciclagem, ou seja, reduzir, repensar, reutilizar, recriar!
Decorações
As decorações são a expressão mais visível do espírito da época. O pinheiro e as luzes, as grinaldas e as fitas, as bolas e as estrelas, tudo isto está associado à magia do Natal.
Uma das possibilidades é construir as suas próprias decorações, a partir de materiais já existentes ou com baixo impacto, usando luzes LED, que só ficam acesas quando estivermos presentes. Se houver crianças pequenas, esta pode ser uma atividade muito didática. Por favor, recuse as purpurinas; não passam de microplásticos. Sabia que os microplásticos já são encontrados no sangue do cordão umbilical?
Se não é jeitoso para as manualidades, então opte por comprar materiais mais simples, mais naturais e por investir em decorações com alguma qualidade e versatilidade, para poder adaptar todos os anos o estilo sem ter de comprar nada novo.
Alimentação
Neste assunto, o planeamento é fundamental. Planeie as refeições para todos os dias de festividade, fazendo uma lista de todos os ingredientes necessários antes de ir às compras. Fale com os convidados para que não haja duplicações, mas complementaridade. Compre produtos a granel ou pouco embalados, de preferência em mercados locais, e produtos da época. Não se esqueça de levar os seus sacos.
Além de comprar produtos locais, opte sempre que puder por produtos da estação do ano e de agricultura biológica, substituindo ou complementando, sempre que possível, ingredientes de origem animal com alternativas vegetarianas e preferindo as carnes brancas.
Escolha peixe graúdo, com dimensão de adulto e obtido por artes de pesca sustentáveis. Se optar pelas carnes vermelhas, então escolha o cabrito em vez da vitela, porque está a estimular a limpeza das florestas por rebanhos de cabras.
Tenha atenção à certificação (sustentabilidade, comércio justo, agricultura biológica) e esqueça os plásticos de uso único. Não troque uma boa toalha de tecido por uma descartável de plástico.
Por muito planeamento que haja, ainda assim é difícil que não haja sobras, mas a cozinha mediterrânica é rica em pratos feitos com sobras, como a roupa velha feita com o que sobrou do bacalhau da consoada, ou o empadão feito com a carne que sobrou do almoço do dia de natal.
Presentes
Evite fazer compras irrefletidas ou por impulso. Se tem de comprar uma prenda e não sabe mesmo o que dar, pense em oferecer produtos comestíveis. Pode oferecer frutos secos comprados a granel ou bolachas, bolinhos e bombons feitos por si e colocados em frascos de vidro reutilizado – uma prática que remonta aos festejos do Solstício de Inverno dos povos celtas, que está na origem dos festejos do Natal, e que consistia em ofertas simples de produtos da terra como vinho, frutos secos e fruta.
Evite oferecer plástico, produtos com excesso de açúcar ou corantes e sobretudo artigos inúteis. Até pode fazer as suas próprias prendas como fotos memoráveis ou frases inspiradoras numa moldura feita reutilizando materiais que tenha em casa.
Comprar presentes em segunda mão é outra das possibilidades, porque grande parte deles está em estado quase novo e a um preço bem mais convidativo que o original/novo.
Pode oferecer o seu apoio a causas ou experiências, em vez de comprar coisas. Um livro é sempre uma prenda interessante e pode aproveitar para escolher títulos que possam ter alguma utilidade cívica ou educativa.
Já lhe ofereceram presentes que nunca chegou a usar, porque já tinha ou porque não usa? Se está novo e tem utilidade, porque não passar para alguém que sabe que vai usar?
Resíduos
Nos dias após as festividades, é notório o depósito de resíduos resultante da embalagem e embrulho que são consumidos durante as mesmas, nos ecopontos sobrecarregados. Mais que tudo, é absolutamente fundamental a redução do material de embalagem e de embrulho, mas se não o conseguir totalmente, pelo menos escolha materiais com uma pegada menor e depois faça a sua separação seletiva.
Não se esqueça que o espírito que deu origem às festividades que hoje chamamos Natal era um espírito de partilha entre as pessoas.
Não obstante o seu orçamento e a sua intenção nesta época, é sempre possível poupar na pegada ambiental.
Pelo menos não desperdice.
-Sobre Ana Serrão-
Ana Serrão é licenciada em Tradução pelo ISLA. Frequentou o curso de Engenharia Agronómica da Escola Agrária de Santarém. Como associada da "ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável”, tem trabalhado em iniciativas de ligação da associação à sociedade, com foco na mudança de mentalidades, hábitos de consumo e gestão do arvoredo urbano.