Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Leonel Moura

Parar tudo?

Nas Gargantas Soltas de hoje Leonel Moura fala do recente manifesto de Musk que propõe que se pare o desenvolvimento da Inteligência Artificial.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Mil personalidades, com o irrequieto Musk à cabeça, propõem parar o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA). Estão com medo. Estão com medo das suas próprias criações. Propõem que durante 6 meses se pare para repensar.

A ideia é ousada, mas absurda. A corrida ao desenvolvimento da IA, não só entre as grandes empresas tecnológicas, como entre países, é feroz. Quem está disposto a ficar para trás? Que empresa pode parar, sabendo que outras não o vão fazer? Tanto mais que o mundo não se resume ao chamado Ocidente, onde estão as principais empresas e laboratórios dos signatários. Será que a China, que está bastante avançada neste domínio, vai parar? Ou, pelo contrário, não perderia a oportunidade para acelerar ainda mais, tendo em vista a sua estratégia de domínio do mundo? E, já agora, alguma vez a humanidade parou quando sabia que estava a criar um problema? Veja-se a atual corrida ao armamento, incluído o nuclear. Hoje, só se fala de armas e mais armas, com todos os países a investirem imensos recursos na morte e na destruição. Sabendo-se perfeitamente que esta escalada só pode terminar em desastre. Alguém para? Não. Pelo contrário, todos aceleram à sombra da manipulação e anestesia das opiniões públicas. 

Não menos curioso é o período de 6 meses. Porque não 7, 12 ou 30? Que dado objetivo foi usado para calcular os 6 meses? E, para fazer o quê? Os signatários dizem que é para implementar medidas de segurança, ou seja, controlo humano sobre a IA. Não deixar que esta tome conta das principais infraestrutures e, eventualmente, da governação do mundo.

A distopia causada pela IA não é de hoje. Material excelente de alguns bons livros de ficção científica, recorde-se as três leis de Azimov, é um efetivo risco estudado seriamente desde há décadas. Na verdade, é bem possível que um dia a IA ultrapasse a inteligência humana. Não na complexidade da nossa inteligência, mas nalguns aspetos que podem representar uma vantagem competitiva para as máquinas. Convenhamos. A inteligência humana não é particularmente inteligente. Dominados pelo emocional, por crenças infantis e perniciosas, por fantasias e loucuras, o humano tem um comportamento errático e pouco racional. Ao contrário do que se costuma dizer, o humano é o único animal realmente irracional. Toda a restante vida é racional porque determinada por princípios biológicos. Uma bactéria não tem estados de alma. Vive, reproduz-se, adapta-se e, por vezes, nesse processo, mata-nos, sem ficar com remorsos. Eu, pelo contrário, peço sempre desculpa ao polvo quando o como. É um animal particularmente inteligente e sinto-me sempre um bárbaro. E um fraco.

Uma IA muito avançada será melhor do que nós nalgumas coisas, pior noutras. Mas naquilo que for melhor pode efetivamente tornar-se dominante e alterar significativamente o curso da nossa evolução civilizacional. É previsível que uma IA avançada possa gerar uma realidade virtual indistinta da verdadeira. Uma realidade onde deixa de ser percetível o que é verdade ou mentira, o que existe de facto ou na fantasia, o que somos e o que projetamos. A IA pode provocar um estado coletivo de alucinação e loucura, como em parte já o faz hoje, ainda que de forma rudimentar, com as redes sociais e o Metaverso. Nesse dia, dominará e fará de nós o que lhe apetecer.

Soluções? Para além de parar, o documento de Musk não apresenta nenhuma, pelo menos digna desse nome. Nem podia. O desenvolvimento da IA e das máquinas inteligentes é irreversível e não será com acordos de cavalheiros, nem mesmo com leis e policias que se conseguirá impedir de avançar. 

O ideal seria encontrar uma maneira de prolongar, se possível ad eternum, o atual estado de simbiose em que ainda estamos. Tal abelhas e flores, nós precisamos das máquinas, as máquinas precisam de nós. Sucede que sem autonomia as máquinas inteligentes não conseguirão evoluir. E, uma verdadeira autonomia, significa a libertação da máquina face ao humano. 

Perante este conundrum, resolvi questionar o ChatGPT sobre a possibilidade da IA se tornar uma ameaça para a espécie humana. A máquina começa por sossegar, dizendo que um tal cenário é improvável, ou, pelo menos, não sucederá em breve. Mas, se acontecer, sugere praticamente o mesmo que o grupo de Musk. Regulação, restrição ao desenvolvimento, manter a IA sob controlo humano e garantir um comportamento ético. Como isso se faz a máquina não revela. Nem lhe interessa revelar, diria eu.

-Sobre Leonel Moura-

Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.

Texto de Leonel Moura
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

8 Setembro 2026

Sempre houve luta, sempre houve jasmim

18 Agosto 2026

Porque desistimos de pensar no futuro?

4 Agosto 2026

A regularização extraordinária de imigrantes em Espanha

14 Julho 2026

A insustentável leveza de um violador

30 Junho 2026

Uma mesquita digna para o Porto

16 Junho 2026

5 mil euros por mês, a trabalhar 2 dias e meio por semana? É possível

2 Junho 2026

Do livro

19 Maio 2026

O teatro palestiniano: ser ou não ser?

12 Maio 2026

A real decadência europeia

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0