Não me lembro de estar grávida da minha mãe.
Não a pari, nem a ela nem a ninguém, apesar de a ter a habitar o meu útero.
Tivesse esse momento presente na minha memória, talvez percebesse melhor se foi ou não desejada essa gestação. Permanece, então, um mistério a existência ou não de um momento em que reclamo o meu direito de para sempre ser apenas filha, tomando uma decisão consciente sobre a interrupção ou não dessa gravidez.
O que sei é que agora, no nosso dia a dia, assim que a minha mãe acaba de me amamentar e de bater nas costas para eu arrotar para fora as palavras não digeridas, saio logo do seu colo, e num movimento acrobático circular, sem sequer me levantar, trocamos de lugares e de peitos. Fica ela exatamente onde eu estava, agarrada à minha mama, pesada e doce no meu colo. E enquanto permanecemos infinitamente nesse jogo de inversão, reciprocamente disparam dos nossos seios teias de divergências e afetos:
Quando chegares à porta de casa, ou à dos teus sonhos, envia mensagem. E faz uma sobremesa, a vida está bastante amarga hoje. Não demasiadamente doce, que este amor está a ficar enjoativo. E se estiveres cansada de andar nos labirintos das nossas rugas, não carregues coisas pesadas. E não te esqueças de trazer um casaco para aquecer a frieza da ausência. Tu consegues. Contigo eu consigo. Deixaste-me à porta. Não me deste um beijo! Anda cá, sai, fica no meu eterno colo, e pára e não pares de chupar o meu coração.
Quando a língua-mãe, minha e dela, se exilou para aqui, tornou-se incapaz ou simplesmente inútil. E assim, nesse pedaço de terra, tornei-me eu própria a sua língua, pouco materna. Por este meu corpo-ponte passam as palavras, as queixas, as piadas, as risadas e o choro. Uma tradução que Joanne Morra, investigadora de Arte e Cultura, descreve como um ato de íntima distância. Uma necessidade de tradução como forma de, momentaneamente, realizar tanto o encontro como o distanciamento entre filha e mãe. A tradução ultrapassa, assim, os limites do lugar da “filha” e da “mãe”.
E assim apagámos ambas da memória a voz da minha mãe que outrora se lançava em frente da televisão lendo as legendas que os meus pequenos olhos ainda não acompanhavam. Agora sou eu que leio. Leio as legendas, da angústia e do alívio do hospital. Leio as legendas doces e salgadas do supermercado. Leio aquelas dos serviços públicos mesmo que eu própria não perceba. Leio as legendas na amargura de um café que pedimos ao sol, sem esquecer de traduzir o brilho do último. Quanto ao mar que sai da boca do Tejo, as legendas nem sempre o salvam. A sua água fria e ondas altas, permanecerão sempre incompreensíveis perante o mar materno.
E numa onda desse mesmo mar vem também uma recordação de uma caminhada à sua beira com o meu pai, pouco antes dele pausar o seu cansaço no meu colo para sempre. Como se fossem os primeiros, tentava arduamente ensinar-lhe a dar os seus últimos passos, quando ele de repente me deixou engasgada com o silêncio perante uma questão tão complexamente simples: lembras-te quando andavas às minhas cavalitas?
Não era uma pergunta. Era uma inquietação. Um espanto sobre seu novo lugar, agora às minhas cavalitas. Uma interrogação por ninguém compreendida, sobre os papéis que trocámos com uma breve passagem por um entretanto, que na minha cabeça se resume a umas horas. Uma noite demasiado longa de viagem em conversas que não se assemelham a nenhumas tidas antes. Noite que se prolongou até um adormecer nosso nas bancadas de um hospital. Eu no seu tronco e ele no meu ombro, como se estivéssemos no mesmo patamar da espiral de um caracol. Numa paternidade mútua, muito nossa, por apenas um nascer de sol.
Mesmo quando me invade o desespero perante o relâmpago de tempo em que passei nesse lugar mútuo com o meu pai, fico carinhosamente irritadiça ao receber as ordens que estou a dar à minha mãe. Irritação essa que esconde o desejo de ser eterna, a nossa maternidade mútua, sem nunca esquecer de encontrar um espaço para aquele momento em que desobedecemos mutuamente à nossa mutualidade. Abandonamos por completo ser filha e ser mãe uma da outra: que tal um whisky? Grande ideia!
- Sobre Shahd Wadi -
Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010). Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua.