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Opinião de Jorge Pinto

A Turquia depois de Erdoğan

Nas Gargantas Soltas de hoje, Jorge Pinto fala-nos sobre as eleições presidenciais na Turquia.

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A 14 de maio, os turcos irão duplamente às urnas: para escolher os 600 membros do parlamento e para escolher o novo presidente da República. A eleição presidencial – que, caso não tenha um vencedor por maioria na primeira volta, terá um segundo turno a 28 de maio – é aquela que prende todas as atenções, naquilo que tem sido referido como o maior teste à liderança de Recep Tayyip Erdoğan. À frente do país desde 2002, primeiro como primeiro-ministro, logo como presidente da República, a oposição turca sonha com um novo rumo para o país. Quando escrever a próxima crónica, o resultado das eleições na Turquia já será conhecido; menos previsível é o que acontecerá depois de anunciados esses resultados.

Se houve traço a marcar os mais de 20 anos de Erdoğan à frente da Turquia, para lá dos momentos tanto de forte crescimento económico como de enorme recessão e contração económica, foi a mão autoritária daquele a quem muitas vezes se chama de reis ou de neo-sultão. A nível interno, destaca-se a repressão a todos aqueles que foram considerados como envolvidos na tentativa de golpe de Estado de 2016, a repressão aos jornalistas, advogados e ativistas vistos como desalinhados e ainda a brutal repressão da comunidade curda, onde se destacam as destruições e os massacres cometidos em várias cidades do sudeste turco, ainda hoje vivendo numa espécie de estado-de-sítio. Fora de fronteiras, o presidente da Turquia é responsável por uma série de ataques e incursões em territórios estrangeiros, nomeadamente do Iraque e da Síria (onde ocupa de facto uma parte do país), bem como pela relação ambígua que mantém com grupos islâmicos radicais. 

Numa fuga para a frente e de modo a concentrar todos os poderes na sua figura, Erdoğan promoveu em 2017 um referendo que transformou o regime turco de parlamentarista em presidencialista. A reversão desta decisão é o elemento que parece unir a “Aliança Nacional”, uma heterogénea coligação de partidos e personalidade à volta do presidente do partido CHP, de centro-esquerda e secular, Kemal Kılıçdaroğlu, a partidos de centro e de direita, onde se incluem trânsfugas ex-apoiantes de Erdoğan e do seu partido AKP, com destaque para o antigo primeiro-ministro Ahmet Davutoğlu. Não surpreende, portanto, que o regresso ao regime parlamentarista tenha já sido anunciado por Kılıçdaroğlu como uma das primeiras decisões que tomará caso seja eleito presidente. 

Com pouco carisma quando comparado com outros potenciais candidatos, Kılıçdaroğlu tem conseguido afirmar-se numa campanha exigente e com uma grande parte da comunicação social a ser-lhe hostil. As sondagens, a ser lidas sempre com muita precaução, parecem deixar em aberto a possibilidade real de vitória, se não na primeira volta, na segunda. Para essa possibilidade é determinante o posicionamento do partido progressista e pró-curdo HDP que, ciente do carácter histórico desta eleição, abdicou de apresentar candidatura própria de modo a fortalecer a lista unitária da oposição. Remover Erdoğan do poder é a palavra de ordem e a missão comum.

A “questão curda”, como é quase sempre referida, será um dos principais desafios do próximo presidente turco. Após décadas e décadas de ataques e apagamento cultural, tanto às mãos de secularistas como de islamitas, a eleição de Kılıçdaroğlu poderá abrir a porta a um entendimento justo, estável e solidário. A isso não serão alheias as origens alevitas do candidato da “Aliança Nacional”, aliás já usadas em campanha contra si. No ano em que se celebra o centenário da República da Turquia, dar um passo na resolução da “questão curda”, dando sinais claros nesse sentido, seria a melhor prenda que os milhões de curdos e turcos poderiam receber. 

Resta saber como reagirá Erdoğan a uma eventual derrota, com o passado recente a deixar antever más notícias. Nas últimas eleições autárquicas, onde o candidato kemalista Ekrem İmamoğlu se tornou presidente da câmara de Istambul, houve necessidade de se repetir a eleição. Após uma primeira votação em que o candidato do CHP já era dado como vencedor, embora por uma pequena margem, os tribunais obrigaram a uma repetição do escrutínio, certamente com o intuito de evitar a perda por parte do AKP do bastião de Istambul. A resposta da sociedade, para frustração de Erdoğan, foi um drástico aumento da votação no CHP e a confirmação de İmamoğlu como vencedor. 

Com um poder judicial amarrado, não é de todo impossível que um cenário semelhante, onde não se reconheça o resultado da votação, se venha a repetir. O dia 28 de maio é, politicamente, de má memória para os portugueses; esperemos que não passe também a ser para os turcos.

-Sobre Jorge Pinto-

Jorge Pinto é formado em Engenharia do Ambiente (FEUP, 2010) e doutor em Filosofia Social e Política (Universidade do Minho, 2020). A nível académico, é o autor do livro A Liberdade dos Futuros - Ecorrepublicanismo para o século XXI (Tinta da China, 2021) e co-autor do livro Rendimento Básico Incondicional: Uma Defesa da Liberdade (Edições 70, 2019; vencedor do Prémio Ensaio de Filosofia 2019 da Sociedade Portuguesa de Filosofia). É co-autor das bandas desenhadas Amadeo (Saída de Emergência, 2018; Plano Nacional de Leitura), Liberdade Incondicional 2049 (Green European Journal, 2019) e Tempo (no prelo). Escreveu ainda o livro Tamem digo (Officina Noctua, 2022). Em 2014, foi um dos co-fundadores do partido LIVRE.

Texto de Jorge Pinto
Fotografia de Luís Catarino
*As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.*

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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