As contas são do Global Justice Project, encontram-se no seu mais recente relatório, e, muito mais do que previsões, dão-nos provisões não apenas para travar, mas para inverter o colapso da nossa humanidade.
Com um horizonte de análise que se projecta até 2100, o documento explica como o mundo pode convergir para um rendimento de 5.000 euros mensais por pessoa, ao mesmo tempo que encurta a jornada laboral para duas horas e meias semanais. Os cálculos reduzem a actividade industrial em cerca de 87%, e a de construção em 70%, ao passo que os sectoresda Educação e da Saúde saem reforçados, com um aumento do número de horas de trabalhocalculado nos 43%.
O cenário, acompanhado da mudança de hábitos alimentares e padrões de consumo, foi apresentado no início do mês em Paris, na World Inequality Conference, e concretiza-se, entre outras medidas, através da criação do chamado Fundo de Justiça Global, financiado com impostos sobre as grandes fortunas.
Nos termos da proposta, em 2100, metade das pessoas mais pobres do planeta vai deter 30% da riqueza mundial, valor que hoje se fixa nos 2%; enquanto os bilionários vêem o seu quinhão passar de 6% de tudo o que se produz, para 0,05%.
As transformações, com impacto animador na redução do aquecimento global, incluem também a substituição do Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Central das Nações Unidas, a quem caberia, por exemplo, a emissão de uma nova moeda: a Moeda das Nações Unidas.
Democracia em vez de plutocracia.
Os detalhes da proposta, integrada nas actividades do World Inequality Lab, merecem ampla disseminação, reflexão e debate, mas, em vez disso, continuam apagados da cobertura mediática e das agendas políticas.
Aliás, por mais promissoras que sejam as conclusões do Global Justice Report, e por mais que estejamos perante um trabalho cientificamente robusto, os planos de construção de um mundo justo parecem incapazes de despertar interesse e entusiasmo, como se a destruição do planeta e da humanidade fosse uma fatalidade.
Não tem de ser, sublinha o economista francês Thomas Piketty, um dos coordenadores do relatório, que junta o contributo de 45 investigadores.
"As pessoas percebem que isto simplesmente não está a funcionar", aponta Piketty em declarações ao The Guardian, sem poupar críticas aos mais ricos. "Se os bilionários e os multimilionários do mundo estivessem a dirigir a nossa economia, investindo o dinheiro de forma a conduzir-nos a um futuro fantástico com habitabilidade planetária, salários crescentes e melhores condições de habitação e de saúde para todos, todos ficariam felizes em entregar-lhes as chaves. Mas não é isso que vemos".
Para o autor do bestseller "O Capital no século XXI", "o novo sonho deles [bilionários e multimilionários] é cobrir todo o planeta com centros de dados".
O Global Justice Report propõe outro caminho, ambiental, económica e humanamente sustentável, desafiando o que designa de plutocracia global. Como alternativa a este princípio, que se observa, por exemplo, no FMI e no Banco Mundial – em que os habitantes da Europa e da América do Norte/Oceania têm mais de quatro vezes mais votos do que a sua participação populacional, proporção que se inverte em relação aos cidadãos da África Subsaariana e do Sul e Sudeste Asiático –, o documento propõe que o Fundo de Justiça Global seja governado conforme princípios da democracia global.
Ou seja, as decisões orçamentárias regulares devem ser tomadas segundo uma regra de duplamaioria: 55% dos países representando 60% da população.
"É preferível criar o Fundo com uma coligação incompleta de países, mas seguindo normasdemocráticas, do que abranger todos os países e ter de obedecer a regras plutocráticaspersistentes", defende Piketty, rompendo as fronteiras do presente plutocrata para construir um futuro de justiça global.