Julian Peschel não é jornalista, mas grande parte do seu trabalho consiste em fornecer aos jornalistas ferramentas que enriquecem o seu trabalho. Com formação em design de comunicação e informação, dedica-se atualmente à análise geoespacial para monitorizar e visualizar mudanças. Nesta entrevista, explica como o seu trabalho na unidade de jornalismo de dados da Deutsche Welle se articula com o restante órgão de comunicação social e de que forma o coletivo Froh! permite que as pessoas contem as suas próprias histórias.
Estás atualmente a trabalhar na Deutsche Welle e, antes disso, trabalhaste com órgãos de comunicação social como engenheiro de visualização de dados, certo?
Exatamente. Trabalhei na Planet Labs, uma empresa de imagens de satélite. Fazia parte de uma equipa que se situava na intersecção entre a comunicação e as ferramentas.
Que tipo de trabalho fazias com os jornalistas?
Basicamente, os jornalistas perguntavam-nos se tínhamos imagens disponíveis, porque existia um acordo entre os meios de comunicação e a Planet Labs. Foi o caso do New York Times e do Washington Post, por exemplo. Entravam em contacto connosco porque tinham ouvido falar de determinado acontecimento. Por vezes era algo muito específico, mas nem sempre. Nesses casos, tínhamos de fazer alguma pesquisa.
Lembro-me, por exemplo, do terramoto na Turquia e na Síria. Havia muito caos e ninguém tinha uma ideia clara do que estava a acontecer. Como parte do fluxo de trabalho, passei algum tempo a analisar as redes sociais, em particular o Twitter, para geolocalizar vídeos e verificar se tínhamos dados disponíveis sobre essas áreas. Quando existiam, informávamos os jornalistas e preparávamos os dados, o que implicava visualizá-los. Depois, eram enviados diretamente aos jornalistas ou colocados num repositório ao qual outros meios de comunicação podiam aceder.
Um dos trabalhos mais recentes que publicaste na Deutsche Welle foi um mapa da destruição em Gaza desde 7 de outubro. Como construíste um mapa de uma área à qual não é possível aceder de outras formas?
Nesse caso foi relativamente simples, por assim dizer, porque utilizei um conjunto de dados já existente. Tratava-se de uma base de dados publicada pelo Centro de Satélites das Nações Unidas (UNOSAT), que agregou a informação e a disponibilizou publicamente. O nosso trabalho consistiu essencialmente em representá-la num mapa e desenvolver tudo o que a rodeava. Creio que a análise em si é bastante complexa e teria levado muito tempo se tivéssemos de a fazer de raiz. É possível, sem dúvida, mas exige um elevado nível de especialização.
Na Deutsche Welle integras uma unidade de jornalismo de dados. Como funciona essa unidade, sobretudo na relação com o resto da redação?
Diria que funcionamos como um recurso transversal para muitos outros departamentos da Deutsche Welle. Publicamos e iniciamos algumas histórias próprias, mas, na maioria das vezes, são os outros departamentos que nos procuram. Pode tratar-se de um departamento linguístico — a Deutsche Welle publica em quase 20 línguas — ou de uma área temática específica, como ambiente ou economia.
Essas equipas apresentam-nos as suas ideias. Como esta é uma função relativamente recente, perguntam-nos frequentemente se podemos ajudá-las a encontrar dados de satélite. Este fluxo de trabalho ainda está a ser definido, porque se trata de uma área nova e nem todos têm consciência das suas possibilidades. Temos de lhes mostrar que conseguimos desenvolver este tipo de trabalho e, ao mesmo tempo, gerir expectativas. Espero que, com o tempo, as pessoas passem a perceber melhor o que é possível fazer e o que exige mais tempo.
Também fazes parte do coletivo Froh!, que procura capacitar os jovens para contarem as suas próprias histórias. Como funciona esse processo de capacitação?
É um coletivo, uma ONG, constituída sobretudo por designers. Foi criado em 2014 e, inicialmente, estava muito centrado na cidade de Colónia, porque era aí que as pessoas se encontravam. Com o passar dos anos, tornou-se completamente descentralizado, à medida que os membros se espalharam por diferentes locais. Temos uma pessoa a trabalhar a partir de Viena, outras em Berlim e noutras zonas da Alemanha. Entrei para o coletivo por volta de 2019.
O que inicialmente me atraiu foi a ideia de aplicar metodologias jornalísticas, até porque alguns dos fundadores eram jornalistas. Penso que esta componente de capacitação acontece sobretudo através do ato de publicar. Havia um conceito para oficinas que realizávamos no passado e que estamos a tentar recuperar, precisamente para ajudar as pessoas a publicar os seus próprios trabalhos. Fornecemos-lhes ferramentas, um enquadramento e uma compreensão do que significa publicar.
Este trabalho foi desenvolvido durante muito tempo também fora da Alemanha, noutros países europeus, nomeadamente na Geórgia. Colaborávamos com pessoas que viviam nesses locais. Elas tinham as histórias; nós levávamos a experiência e algumas metodologias. Depois, num período relativamente curto, procurávamos produzir uma publicação como resultado final.
Em qualquer redação, exista ou não uma unidade de jornalismo de dados, que nível de literacia de dados consideras desejável que os jornalistas tenham?
É uma boa pergunta, sobretudo porque, em teoria, eu próprio não me considero jornalista. Venho da área do design, essa é a minha formação, e fui explorando diferentes áreas ao longo dos últimos anos. Em certa medida, muito do que sei foi aprendido de forma autodidata. A literacia é, naturalmente, importante. Trabalhar agora na Deutsche Welle também me fez perceber que me falta alguma da formação que normalmente se adquire seguindo um percurso mais tradicional em jornalismo e jornalismo de dados.
Talvez possa responder desta forma: sinto que a minha formação em design me permite trazer perspetivas diferentes para a mesa, sobretudo quando se trata de dados geoespaciais. É sobre isso que posso falar. Um aspeto muito importante de trabalhar com dados de satélite é compreender que se trata, de facto, de dados, e não de imagens. Esta é uma ideia errada muito comum. Penso que resulta, em parte, da imagem criada por Hollywood e pela cultura popular sobre aquilo de que os satélites são capazes, e acho que essas capacidades são frequentemente exageradas. Ao mesmo tempo, trata-se de uma tecnologia extremamente abstrata, porque não a vemos diretamente, por isso também não culpo as pessoas por terem essa perceção inicial. Mas considero essencial discutir esta questão da literacia. E não apenas da literacia científica, mas também da literacia mediática. É importante compreender a teoria dos media, até a filosofia dos media, e refletir sobre o significado desta perspetiva "vista de cima" e sobre a tecnologia que a torna possível. Essa reflexão ajudou-me a compreender melhor tanto esta tecnologia como os dados que produz.
Na tua opinião, o que acrescentam as ferramentas geoespaciais à prática jornalística?
Tenho a sensação de que, nos últimos anos, o geojornalismo se tornou bastante mais popular, sobretudo no que diz respeito aos dados de satélite. Hoje temos acesso a informação que simplesmente não existia há dez anos, e as ferramentas desempenham um papel fundamental nesse processo. Ainda não chegámos ao ponto em que essas ferramentas são verdadeiramente fáceis de utilizar, mas penso que estamos a caminhar nessa direção. Pela minha experiência, quando comecei a trabalhar com dados de satélite, por volta de 2015, precisava de recorrer a sites claramente destinados a cientistas e não a utilizadores comuns. Tive muitas dificuldades. Além disso, se olharmos para uma ferramenta como o QGIS, percebemos que a sua interface não é tão intuitiva nem tão bem concebida como a de outras aplicações a que estamos habituados.
Acho interessante pensar até que ponto precisamos realmente de compreender uma ferramenta e a origem dos dados que utilizamos. Claro que é importante saber com o que estamos a trabalhar, mas muitas vezes encaramos as ferramentas de forma pragmática: se nos permitem chegar ao resultado pretendido, então esse nível de conhecimento pode ser suficiente. Não precisamos de ter receio. Utilizo o Photoshop e o Illustrator há quase 15 anos e não conheço todos os comandos do Photoshop — isso seria impossível. Creio que acontece exatamente o mesmo neste contexto. Gosto de utilizar as ferramentas e, até certo ponto, até de não as usar de forma mais correta, se isso fizer sentido.