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Opinião de Miguel Honrado

30 anos depois

É opinião comum que em Portugal há um prazer especial na comemoração de efemérides. É,…

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É opinião comum que em Portugal há um prazer especial na comemoração de efemérides. É, facto, em contrapartida que, em muitos casos, as organizações culturais se deparam com dificuldades de agenda para tentar encaixar tais celebrações no seu projeto de programação.

A efeméride é, sem dúvida , um exercício de memória, de registo e de justiça, contudo parece-me que em Portugal, e mormente no que ao domínio cultural diz respeito, aquelas cuja celebração cabe ao estado promover, ou pelo menos ser um agente impulsionador, ainda se dividem entre o “momento oficial” formal, obrigatório, hierarquizado e o momento de celebração pela comunidade. Este posicionamento leva a uma polaridade que não fomenta o entrecruzamento entre a “evocação” e a “Festa” sublinhando ainda, e uma vez mais, uma certa imagem hierática do aparelho de estado, com as consequências que podem daí advir de clivagem entre esses dois universos.

Por outro lado, creio que sobre esta problemática impende ainda o facto de a sociedade portuguesa ter muitas vezes dificuldade em registar a sua memória histórica, isto é, a narrativa que dela resulta não é, muitas vezes, partilhada com a sociedade civil.

Por estas duas razões, os momentos de grande celebração coletiva, têm, por parte da sociedade, um acolhimento onde impera a banalização progressiva redundando na desvalorização de princípios e valores fundadores que congregam em seu torno uma importante e estruturante simbólica, sedimento da nossa identidade.

Diga-se, porém, com toda a verdade que têm existido, nos últimos anos, casos excecionais que, por isso mesmo, se projetam como exemplos a seguir. Refiro-me, por exemplo, às comemorações da Revolução do 25 de Abril nos jardins e na residência oficial do Primeiro Ministro, ou a abertura desse mesmo espaço para promover valores de sobeja importância no domínio das artes plásticas. Nestes casos, existe um novo entendimento do papel que a cultura deverá desempenhar como magma de um importante momento coletivo, no qual se derrubam, tanto quanto possível, barreiras sociais e simbólicas.

Ousaria dizer mesmo que estas experiências, uma vez lançadas em Lisboa, deveriam disseminar-se nos próximos anos em outras geografias - o que designamos, usualmente, como país real - contribuindo assim para a diluição do “atavismo centralista”.

As alterações estruturais produzidas pela recente crise, poderão, em meu entender, bem planificadas e estruturadas, constituir o eixo de intervenção para uma inovadora abordagem cultural de território.

Perguntam, neste momento, os leitores, que terá este arrazoado que ver com o título da presente crónica? Tudo!

Em 2021 passarão justamente 30 anos sobre a realização de um projeto cultural ímpar, que congregou recursos em prol da afirmação de uma muito jovem democracia portuguesa. O tratado de Lisboa tinha sido assinado em 1986. Para além da adesão a um mercado comum, a retórica fundadora perspetivava um país que, após 500 anos de demanda de outras paragens universais - processo esse marcado por convergências e divergências com a Europa -, regressava, em definitivo, ao velho continente.

O Festival Europália 1991 é consequência desta conjuntura histórica a todos os títulos excecional. Urgia colocar os nossos parceiros europeus perante uma outra realidade cultural que não a construída pelo anterior regime, contrariando uma imagem nacional redutora e repleta de lugares comuns.

Este foi um projeto cultural de estado que ultrapassou definitivamente a clivagem de que falávamos no início desta crónica, desencadeando uma mobilização da sociedade civil: profissionais, organizações, criadores, intérpretes.

A história deste esforço coletivo deve ser evocada perante as novas gerações, não com arroubos de saudosismo ou nacionalismo serôdio, mas com o orgulho e a convicção do que realizámos, priorizando o que nos unia em detrimento do que, naturalmente, nos pode e deve separar!

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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