Há dias, a Joana Marques dedicou um episódio do “Extremamente Desagradável” ao comentador Manuel Moreira. Diz ela que “quando não domina o assunto, Manuel prefere não comentar do que roubar tempo de antena às colegas”. Quando ouvi isto tive vontade de felicitar o Manuel Moreira pela honestidade intelectual e pelo respeito por quem o ouve. É que não faltam pessoas dispostas a opinar sobre assuntos que não dominam, mas é raro encontrar alguém com coragem de dizer “não sei”.
Nos anos 80/90 era aceitável alguém responder “não tenho opinião formada sobre esse assunto”, mas a internet modificou a forma como nos damos a conhecer e deu acesso a uma grande quantidade de informação e a uma ilusão de conhecimento.
Na internet, não nos revelamos por ações, mas por opiniões. As que temos, as que partilhamos ou subscrevemos. Podemos dá-las através de “gostos”, de tweets, comentários ou partilhas, mas fazêmo-lo porque, na internet, quem não tem uma opinião, não existe. Há uma indústria da opinião a crescer para responder à necessidade de consumo. Opiniões não podem faltar, quem não tiver a sua, pode sempre subscrever a de um opinion maker.
O jornalismo de opinião cumpre um papel fundamental: ajuda-nos a interpretar as notícias e o mundo em que vivemos e a compreender os diversos lados de qualquer questão. O problema é que as opiniões se estão a tornar mais apelativas que os factos. É raro que uma notícia fale de nós, mas uma opinião sobre essa mesma notícia posiciona-nos logo num quadrante social e político. A opinião tem o dom de fazer com que tudo se torne sobre nós.
Este apelo é tão forte que há quem não consiga ler uma notícia (ou apenas o título) sem vomitar de imediato na caixa de comentários do jornal ou no facebook.
Até certo ponto, consigo perceber o raciocínio da Joana Marques: da mesma forma que quem recebe dinheiro para fazer pão, tem obrigação de o fazer; quem recebe dinheiro para dar opinião, tem obrigação de a dar. Quem é profissional deve parecer que tem uma boa preparação, mesmo que não a tenha.
Mas citando Saramago, “o drama não é que as pessoas tenham opiniões. Isso é ótimo. O drama é que as pessoas tenham opiniões sem saber do que falam”.
Quem opina profissionalmente, está sempre sob pressão. É chamado a comentar notícias que acabaram de surgir e sobre as quais não há muitos dados e a opinar sobre assuntos que não estudou, áreas em que nunca trabalhou, meios que desconhece e preconceitos que nunca sofreu.
Segundo um estudo de Petrocelli (2018), quando o ser humano é pressionado a ter uma opinião sobre um assunto do qual pouco sabe, tende a inventar uma à pressa, improvisando sem considerar os fatos ou a lógica. Isto acontece porque temos dificuldade em admitir a nossa ignorância.
Ou seja, o que é raro é admitir que não se tem opinião formada, ou que determinado assunto é mais complexo do que pode parecer ou do que conseguimos abarcar. Por divertido que possa parecer o episódio sobre o Manuel Moreira, não é de pessoas como ele que devemos desconfiar, mas de quem se acha capaz de falar sobre qualquer tema com segurança.
Como consumidoras e consumidores, devemos ter consciência de que conseguir vender opiniões num jornal, na net, na tv ou noutro canal, não significa que esse conteúdo tenha qualidade. É essencial desenvolver pensamento crítico, uma competência que nos permite, por exemplo, distinguir uma opinião informada de uma desinformada. Enquanto consumirmos ingenuamente, não faltará quem tente explorar essa ingenuidade.
A pressão para a opinião favorece o nascimento de visões simplistas e polarizadas da realidade. E essas são as que se vendem melhor: não exigem raciocínio complexo e prometem contornos claros para uma realidade volátil, incerta, complexa e ambígua.
Mais que nunca, é preciso respeitar quem se questiona, quem tem dúvidas, quem tem coragem de dizer “não sei”, “ainda não sei”, “preciso de ponderar”. Precisamos do exemplo dessas pessoas.
Ninguém tem obrigação de ter opinião sobre todos os temas que surgem em conversa. Em algumas situações, admitir não saber é o mais sábio, sensato e honesto e faz-nos confiar que quando aquela pessoa expressa uma opinião, o faz com propriedade.
-Sobre a André Tecedeiro-
André Tecedeiro é um escritor português nascido em 1979. Tem licenciatura e mestrado tanto em arte como em psicologia. Publicou sete livros de poesia, sendo o mais conhecido “A Axila de Egon Schiele” (Porto Editora, 2020).