Sempre que acordamos com um tempo de crise no nosso colo, como aquele que atravessamos, temos a tendência de valorizar a utilidade e diminuir o apego ao espaço criativo.
É, talvez, um processo de defesa, de tentarmos ser sérios perante os desafios que enfrentamos. Preferimos a racionalidade, agimos com foco em objetivos que se desejam frios e pouco emocionais. Por consequência, a criatividade fica desidratada.
Só que a crise não é de agora, destes últimos anos. Se pensarmos bem, o século XXI tem sido um período de evolução económica e social pouco significativo, quando comparado com os últimos 25 anos do século XX. A esse paradigma de estagnação juntou-se, ainda, um conjunto de momentos graves de desaceleração, o 11 de setembro, a recessão de 2008, a pandemia, entre muitos outros, maiores ou mais pequenos.
Para não haver dúvidas, convém ser claro no que significa a criatividade que menciono. Não é só a dimensão artística, é a nossa capacidade enquanto sociedade de procurar novos caminhos, abertos, inexplorados. É a vontade de encontrar novas ideias para o progresso.
Durante todo este tempo, temos recorrido à criatividade para o empratamento final e deixámos de ser audazes nas receitas. E isso nota-se em muitas expressões da nossa vida, no comportamento das empresas, na actividade pública e até no sector cultural.
Dou um pequeno exemplo, mas sintomático: a publicidade. A publicidade é sempre uma boa bitola, porque absorve as tendências criativas da sociedade em anúncios televisivos de 30 segundos. Se, há uns anos, esta área era constantemente celebrada pelas suas ideias de vanguarda, pela capacidade de contar histórias que nos entretinham e nos vinculavam emocionalmente, nos tempos recentes existem, apenas, filmes que gritam as supostas vantagens racionais de cada produto. É difícil diferenciar um anúncio de automóveis ou não encontrar a palavra preço num slogan de marcas de distribuição.
A criatividade, que deveria ter a palavra disrupção como apelido, é, agora, um instrumento que concretiza estratégias muito detalhadamente organizadas em salas de reuniões.
Como chegámos aqui? Como fomos ficando confortáveis com uma criatividade conveniente? Essencialmente porque tendemos a esmagar os agentes de mudança, as pessoas e as entidades que são capazes de arriscar. Essas pessoas e entidades têm uma coisa em comum: estão fora da orla do poder, dos circuitos financeiros, das academias, do espaço mediático. No fundo, não fazem parte de quem influencia a sociedade.
É complexo para alguém que vem de um contexto menos favorável, mesmo que seja um excelente aluno no ensino superior, ter acesso a um trabalho onde pode criar livremente e ter tempo para errar. Essa é uma virtude apenas de quem nasce protegido. Quem tem esse privilégio não tem de pensar se amanhã há dinheiro para pagar a renda da casa. Por isso, obrigamos quem poderia trazer ideias frescas a ter um emprego, necessariamente precário, onde não há espaço para a criatividade.
O mesmo se passa com organizações. Nestas alturas turbulentas, em que os orçamentos escasseiam, é muito mais simples, quando se pretende adquirir um serviço, confiar em quem faz parte do circuito, do que abrir os braços a novos protagonistas, que podem trazer ousadia, mas também desconforto.
Todos perdemos com isto. Mesmo aqueles que fazem parte do jogo hoje. Se não temos a habilidade de envolver quem reinventa, mais dia, menos dia, ficamos presos em ciclos perpétuos e imutáveis, quais ratos de laboratório.
*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico
-Sobre Tiago Sigorelho-
Formado em comunicação empresarial, esteve ligado durante 15 anos ao setor das telecomunicações, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca do Grupo PT, com responsabilidades das marcas nacionais e internacionais e da investigação e estudos de mercado. Em 2014 criou o Gerador e tem sido o presidente da direção desde a sua fundação. Tem continuamente criado novas iniciativas relevantes para aproximar as pessoas à cultura, arte, jornalismo e educação, como a Revista Gerador, o Trampolim Gerador, o Barómetro da Cultura, o Festival Descobre o Teu Interior, a Ignição Gerador ou o Festival Cidades Resilientes. Nos últimos 10 anos tem sido convidado regularmente para ensinar num conjunto de escolas e universidades do país e já publicou mais de 50 textos na sua coluna quinzenal no site Gerador, abordando os principais temas relacionados com o progresso da sociedade.