Cada vez que aparece uma nova forma de expressão artística logo o habitual coro de negacionistas avisa que não é nada, que se trata de moda passageira ou mero negócio, que em nada afeta o glorioso caminho da arte feita à mão ou aquela que, de tão absurda e incompreensível, alimenta Museus anacrónicos e coleções do vazio.
Sucede que a evolução é imparável. Acelerada pelo próprio desenvolvimento tecnológico, a realização da arte está a mudar radicalmente. Sobretudo, num sentido. O da passagem do artista humano para um plano diferente do habitual. Do centro, criativo e absoluto controlador da produção da obra, para o de estimulador da criatividade das máquinas e da sua particular habilidade e inteligência. Num quadro, em que quanto menos o humano controla, melhor.
Veja-se, o caso das imagens geradas por Inteligência Artificial (IA) através de simples texto. O utilizador escreve uma frase e o computador cria uma imagem de algum modo associada. Nas aplicações no design ou na ilustração procura-se que a IA seja o mais fiel possível ao enunciado, ou seja, “um cão a saltitar” deve ser isso mesmo com variações na raça do animal, colorido, pose, etc… Já, no que respeita à arte, a fidelidade importa menos do que a fantasia. Daí que as aplicações com mais sucesso sejam as que criam ambientes extravagantes ou que, se realizadas por um artista humano, dizemos que são imaginativos.
Dou um exemplo que criei na sequência da morte do cineasta Jean-Luc Godard. Escrevi “Godard morto na praia”. A IA devolveu a surpreendente imagem que se publica junto.

Estas aplicações de IA assentam numa combinação estocástica de imensos dados. Daí que o resultado seja não só imprevisível como, a todos os títulos, criativo. Chamar-lhe arte, prende-se mais com a evolução do conceito na nossa cultura, do que com o processo em si, em tudo similar ao que ocorre na arte humana.
A arte realizada por IA ainda está no início. São aplicações que criam imagens a partir de texto, mas depressa se desenvolverão outros processos que já existem, mas ainda não são muito explorados. Por exemplo, no campo da aproximação ao humano, a capacidade de criar imagens a partir de ambientes reais, com a máquina a usar sensores visuais, ou, pelo contrário, na linha da maior fantasia, a criação de imagens sem qualquer referência à realidade tal como a conhecemos. Por outro lado, neste momento, a IA aplicada à arte assenta em imensas bases de dados organizadas e fornecidas por humanos, mas no futuro as máquinas recolherão os seus próprios dados, um pouco como fazem os meus robots, mas bastante mais sofisticado porque praticamente sem limite. A IA pode, por exemplo, trabalhar com base em todas as imagens existentes na Internet.A arte gerada por IA não é mais um gadget para telemóveis, mas um novo passo na erradicação do obsoletismo do humano em matéria de criatividade. Ao passar para um novo patamar da criação, aquele que desencadeia processos e não o que faz, o artista humano terá de encontrar um novo papel na sua própria evolução e no da história da arte.
-Sobre Leonel Moura-
Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.