Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Matilde Alvim

Abril, calor mil – como reagir?

Nas Gargantas Soltas de hoje, Matilde Alvim fala-nos sobre as mudanças climáticas.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Estamos em Abril. No entanto, no dia em que escrevo este artigo, o IPMA anuncia que podem ser quebrados recordes de temperaturas máximas com 78 anos no mês de Abril. Vamos continuar a fingir que está tudo bem em relação à crise climática, ou vamos tomar nas nossas mãos a responsabilidade de fazer ficar tudo bem? 

De acordo com o IPMA, só na quarta-feira dia 26 de Abril foram batidos seis recordes de temperatura. Além disso, o instituto destaca que o mês de Abril tem sido instável, e que desde o início do mês que têm sido ultrapassados novos marcos nas temperaturas máximas dos termómetros.  Em Espanha, a onda de calor está a ser tão severa que as autoridades tiveram de fechar e gerir os horários das escolas. Tudo isto poucas semanas depois de o último relatório desta década do IPCC avisar a Humanidade de que estamos na janela de oportunidade final para conseguir limitar o aquecimento global a 1.5ºC, o limite imposto pela ciência climática. Neste momento, os planos dos governos de todo o mundo levam-nos a um aquecimento de cerca de 3,2ºC. 

Face a este cenário extremo, o que estamos nós a fazer? Ora vejamos. Nos meios de comunicação social, o nível de alienação é tão bizarro que, numa pesquisa rápida das principais manchetes, a maior parte das fotografias escolhidas para ilustrar a notícia são de pessoas na praia a apanhar sol, areia e guarda-sóis. Na mesma pesquisa, não encontrei em nenhuma das notícias dos principais jornais as palavras “crise climática” ou até “alterações climáticas”. Entretanto, o governo continua a afogar-se em desculpas para não agir em conformidade com a ciência climática, agarrando-se ao seu “plano” de neutralidade carbónica até 2050 como se de uma bóia salva-vidas se tratasse. Na realidade, aquilo não é nada mais nada menos do que um guia de como afundar um navio. Avisados da urgência da ciência climática desde há décadas – e em particular nos últimos anos -, o governo prossegue tranquilamente com os seus planos de aumento do terminal de gás de Sines, construção de um novo gasoduto, centrais de eletricidade a gás fóssil, novo aeroporto; mais parece um leilão do nosso futuro. Por entre os cantos obscuros da decência, as empresas de combustíveis fósseis lucram recordes com o empobrecimento das pessoas e a degradação do clima. Não esqueçamos que os lucros da Galp de 2022 foram uns estrondosos 881 milhões de euros. 

Uma análise preliminar demonstra que, portanto, não está tudo bem. A verdade é que esta onda de calor em Abril não tem nada que ver com as imagens usadas na comunicação social, de pessoas felizes debaixo de guarda-sóis. Esta onda de calor em Abril é o preliminar assustador de um verão potencialmente mortífero, calor insuportável, secas gravíssimas em todo o território, barragens vazias, culturas agrícolas estragadas, incêndios devastadores, perigos para a saúde pública e desconforto para quem não tem o “luxo” do ar condicionado e de uma casa digna com bom isolamento térmico. E cada ano em que não agimos, vai ficar pior. E cada centésimo de grau a mais equivale a um nível de sofrimento humano – com guerras por recursos, migrantes e fome – que não é matematicamente traduzível. 

Nós temos, de facto, um planeta para ganhar. Não é irónico que, no dia em que o IPMA anuncia possíveis recordes de temperatura para Abril, os estudantes comecem a ocupar pela segunda vez as escolas e universidades de todo o país pelo fim ao fóssil? O reformismo, o bolor político e o negacionismo são rápidos a responder com os típicos argumentos do “vieram todos de transportes para o protesto?”, “miúdos mimados” e, o mais clássico de todos, “não têm argumentos”. Mais rápido ainda são os diretores de várias escolas secundárias, que numa excelente demonstração da democracia do espaço da escola não hesitaram em acabar com o protesto ao chamar imediatamente a polícia para remover os estudantes das tendas e apreender o seu material. 

Estamos a ocupar escolas e universidades pelo fim aos combustíveis fósseis até 2030, a única maneira de conseguirmos ficar abaixo dos 1.5ºc graus de aquecimento; e pela eletricidade 100% renovável e acessível até 2025, um passo concreto e eficaz na direção da transição justa. Vamos ocupar até que 1500 pessoas se comprometam a participar na ação de resistência civil de bloqueio do porto de gás em Sines, no dia 13 de Maio. 

Para travar esta crise e construir um futuro justo precisamos de toda a gente. Precisamos de ti.

-Sobre Matilde Alvim-

Ativista no movimento pela justiça climática desde 2019, quando surgiu o movimento internacional Fridays for Future. Estudante de Antropologia nos tempos livres.

Texto de Matilde Alvim
*As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.*

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Publicidade

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

8 Setembro 2026

Sempre houve luta, sempre houve jasmim

18 Agosto 2026

Porque desistimos de pensar no futuro?

4 Agosto 2026

A regularização extraordinária de imigrantes em Espanha

14 Julho 2026

A insustentável leveza de um violador

30 Junho 2026

Uma mesquita digna para o Porto

16 Junho 2026

5 mil euros por mês, a trabalhar 2 dias e meio por semana? É possível

2 Junho 2026

Do livro

19 Maio 2026

O teatro palestiniano: ser ou não ser?

12 Maio 2026

A real decadência europeia

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0