Está na hora de falar da questão do emprego generalizado do verbo “colocar”. E por que razão vos trago hoje este tema? Ora, porque este verbo tem substituído o verbo “pôr” em muitos casos, e nem sempre o seu uso é correto.

O verbo “pôr” apresenta um espectro semântico mais amplo fazendo parte de um grande número de expressões da língua. Repara na expressão: “pôr em xeque”. Na realidade, hoje quase ninguém “põe em xeque”. O mais provável é ouvir-se “colocar em xeque”.

Acontece que nem sempre o verbo “pôr” funciona como verbo pleno, ou seja, com seu significado específico de “colocar”. Em muitos casos, o verbo “pôr” funciona como verbo-suporte, constituindo com o seu complemento um conjunto semântico. É o que ocorre, por exemplo, em locuções como:

pôr em destaque = destacar

pôr em prática = executar

pôr em risco = arriscar

pôr termo = terminar

pôr em movimento = movimentar

pôr em ordem = ordenar

 pôr em xeque = duvidar; questionar

Voltemos a atentar nas expressões acima. Nestes exemplos, a carga semântica do verbo oscila, isto é, depende do significado global da expressão.

É por isso que nestes casos e noutros semelhantes, é absolutamente desaconselhável o emprego do verbo “colocar”, cujo significado é estrito, associado à ideia de local, posição. Usa sempre “pôr”.

Convém lembrar que o verbo “colocar” vem do latim (“cum” + “locare”), o que lhe dá o sentido original de “pôr alguma coisa em seu lugar”. Vejamos:

Eu coloquei os livros na prateleira.

Ela colocou as mãos na cabeça.

Já o verbo “pôr” funciona não apenas como verbo pleno, quando o seu sentido é idêntico ao de “colocar” (recordo: “pôr alguma coisa em seu lugar”), mas também como verbo-suporte, situação em que constitui com o nome que lhe segue um todo semântico.

Assim pomos os pontos nos ii e continuamos a afiar a língua!

Texto de Ana Salgado
Ilustração de Hugo Henriques

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