A língua é dinâmica e está em permanente evolução. Por estar em constante renovação, altera-se por si só, mas também se altera porque alguém a altera. Como iremos ver, a dicotomia “certo” ou “errado” acaba por ser algo controversa. Não há consenso entre os sujeitos falantes e até mesmo entre gramáticos e linguistas. De um lado, bradam os puristas e os conservadores da língua que não admitem qualquer mudança; do outro lado, há os que tudo admitem, com a crença de que o povo é quem manda na língua. Mas… há ainda um outro grupo, de olhar atento, que vai descrevendo o que observa na língua e vai anotando certos hábitos, modismos, e até atropelos que vão entrando no nosso discurso quotidiano, mais, passam a ser aceites pela própria gramática.

Ao fazer uma análise de desvios na língua, conclui-se que, muitos deles, outrora condenados pelos puristas inflexíveis e, por consequência, não considerados pela norma padrão, acabaram por ser aceites e legitimados. Uma elevada frequência de uso de uma determinada forma vocabular pode provocar alterações na própria gramática, ainda que essa forma não seja entendida como a mais correta do ponto de vista vernáculo. Muitas das mudanças da língua começam por ser consideradas erros e, à medida que se vão impondo, acabam por ser aceites e por entrar na norma. Desta forma, e apesar de a norma ter de ser necessariamente tida em conta, observa-se que o uso também faz lei e qualquer erro pode vir a tornar-se uma forma adotada. Segundo este ponto de vista, correto é aquilo que se tem dito, não necessariamente aquilo que se deve dizer.

Cometer erros em conversas informais é comum e de mais fácil perdão. Sendo o discurso oral mais espontâneo, torna-se mais sujeito a imperfeições, mas em discursos formais e na língua escrita, é conveniente respeitar as regras gramaticais. Ainda que esses erros se situem nos mais diversos planos da língua, é possível identificar alguns tipos que costumam ocorrer com mais frequência. Os tópicos em que se encontram mais desvios à norma padrão são: a pronúncia, a ortografia, a morfologia, a semântica, a regência, a concordância e a pontuação.

Estás preparado? Hoje e na próxima crónica, passaremos em revista alguns erros frequentes que resultam de determinadas tendências sentidas pelos falantes de português, e que embora não impeçam a compreensão da mensagem, poderão ser considerados desvios à gramática normativa. Hoje, como tópicos, temos: a ortografia e a pronúncia.

Muito tento quando falas! Uma questão de pronúncia.

Em certos casos, a pronúncia corrente de determinadas palavras não significa que essa seja a forma mais correta de as pronunciar. Saberás como se pronuncia a palavra alcoolemia? Acentuas a vogal e ou a vogal i? Dizes /alcoolémia/ ou /alcoolemía/? Pois bem, os puristas da língua defendem que a forma correta é alcoolemia, sem acento gráfico. Apesar de a pronúncia /émia/ ser bastante frequente, os puristas defendem a pronúncia /emía/ por se tratar de uma palavra com sufixo de origem grega terminado em -ia, acentuado no i, o qual pressupõe a formação de palavras graves (acentuadas na penúltima sílaba), tal como acontece, por exemplo, em anemia ou leucemia. Generalizou-se a pronúncia /émia/ e, por isso, alguns dicionários já aceitam a forma acentuada, embora (ainda) com remissão para a forma considerada mais correta do ponto de vista vernáculo.

Caso idêntico acontece quando se ouve a palavra /biópsia/ em vez de /biopsia/, talvez por analogia com a palavra autópsia. Neste caso, é muito provável que a forma e a pronúncia se alterem, dada a tendência dos falantes para a pronunciarem como sendo palavra esdrúxula (com acento na vogal o) e, por isso, esta forma já começa a surgir atestada em vários dicionários. Este não deixa de ser um caso curioso, pois a maior parte dos falantes pronuncia a palavra como esdrúxula aparente, mas continua a escrevê-la sem acento. De facto, uma coisa é a fala, outra a escrita.

Um outro caso: /logótipo/ ou /logotipo/? A forma mais correta do ponto de vista etimológico é logótipo, uma vez que estamos perante uma palavra esdrúxula (acentuada na antepenúltima sílaba). Esta palavra tem origem no grego, e o último elemento (typos, tipo) pressupõe a formação de palavras esdrúxulas e não graves, como, por exemplo, protótipo (também do grego protótypos). Sendo a variante logotipo tão corrente, esta forma também já vem registada em alguns dicionários de língua portuguesa. O mesmo acontece, por exemplo, com o vocábulo /termóstato/, que até os especialistas na sua maioria pronunciam /termostato/ (acentuando a vogal a). Imagina-te ainda, caro leitor, a comer dióspiros e a cheirar túlipas (acentua corretamente as palavras, no primeiro caso, a vogal o e, no segundo, a vogal u). Aposto que têm um sabor e um cheiro bem diferentes daqueles a que estás habituado!

Resumindo, podemos concluir que uma coisa é a pronúncia etimológica recomendada pelos puristas, outra é o hábito linguístico com que determinado vocábulo acaba por se fixar na língua.

Olho de lince! Atenta sempre ao que escreves.

Erros de escrita ocorrem nas mais variadas situações. Muitas pessoas confundem, por exemplo, os verbos coser e cozer na hora de escrever. Estes verbos são homófonos, isto é, têm a mesma pronúncia, mas apresentam grafia e significado diferentes. O verbo coser significa “costurar, remendar”, enquanto o verbo cozer tem como significado “cozinhar”. Escreva-se “cozido à portuguesa”, mas “cosi as calças”. Ora, aqui vos deixo uma dica: na cozinha, eu cozo. Se te lembrares de que cozinha se escreve com z, não te esquecerás de que, quando cozes algo, estás na cozinha.

Talvez já tenhas sido assombrado por esta dúvida: bem-vindo ou benvindo? A forma correta é bem-vindo. O adjetivo bem-vindo é formado pelos elementos bem e vindo, e a regra manda hifenizar. Benvindo existe na língua, mas é um nome próprio. Escreve sempre: “Bem-vindo!”

Outro vocábulo que é muito maltratado é Pirenéus (e não Pirinéus). Este topónimo vem do grego Pyrenaîa (cadeia de montanhas entre a Gália e a Hispânia), pelo latim Pyrenaeos (montes). Pronuncias /pirinéus/? Por razões etimológicas, e mesmo que pronuncies i, nas não te esqueças de escrever sempre com e: Pirenéus.

Ainda no plano da escrita, também são muito comuns os erros por falta de acentuação. Geralmente este tipo de erros ocorre por dois motivos: o falante desconhece as regras ortográficas e como consequência dá erros quando escreve, como acontece, por exemplo, no caso de vocábulos como bainha, em que o i é acentuado oralmente, mas na escrita não tem acento gráfico. Esta vogal i quando seguida de nh dispensa o acento, como acontece também em moinho ou rainha. Outro erro também muito comum é acentuar a palavra raiz, em que temos um i tónico antecedido de uma vogal com a qual forma hiato, seguido de um z que faz parte da mesma sílaba, e cumprindo a regra não há acento gráfico; o falante não sabe identificar a sílaba tónica, como no caso de rubrica, que deve ser pronunciada como palavra grave, com acento tónico na penúltima sílaba (-bri-) e, em geral, as palavras graves não levam acento. A pronúncia desta palavra como esdrúxula, apesar de muito usual, só poderia ser admitida se a sua grafia fosse rúbrica, a qual não se encontra dicionarizada.

A minha grande motivação ao escrever estes artigos é o contributo, por reduzido que seja, para a preservação de uma riqueza imensurável. Ao respeitar as palavras e a sua história, estamos a defender o magnífico património da língua que, no fundo, faz parte da nossa história, da tua, da minha. O acervo da língua pertence-nos, e cabe-nos, a todos nós, defendê-lo, não só aos estudiosos da língua ou aos professores. Pensa nisto! Errar é humano, mas vigia o teu discurso, fica mais atento à tua escrita. Vale apenas o que (te) soa bem ao ouvido? Não! E para combater dificuldades na escrita, lê mais. O livro é uma excelente companhia; viaja e sente o prazer da leitura. Falar e escrever bem são provas de amor pelo nosso idioma e gostaria que tu as partilhasses comigo.

Na próxima crónica do Afiar a Língua, daqui a 15 dias, iremos continuar a explorar estas questões, abordando outros tópicos: a morfologia, a semântica, a regência, a concordância e a pontuação. E assim continuaremos a afiar essa língua!

Texto de Ana Salgado
Ilustração de Carla Rosado

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