Sabias que a mulher do embaixador é designada como embaixatriz, enquanto a embaixadora designa o membro do corpo diplomático?

 

Sim, é bem verdade! Convido-te a percorrer algumas páginas de obras lexicográficas portuguesas e analisarmos conjuntamente esta questão.

 

Os vocabulários com a chancela da Academia das Ciências, desde sempre, registam o vocábulo embaixador e indicam o feminino embaixatriz (1940, 1947, 1970). Francisco Rebelo Gonçalves no seu magistral Vocabulário da Língua Portuguesa (1966) mantém a mesma posição.

 

A forma embaixatriz é, assim, a forma clássica feminina do nome embaixador e, de facto, tanto poderia servir para designar a mulher do embaixador como a mulher que está à frente de uma embaixada (confronte-se, por exemplo, o caso de imperador e imperatriz). Poder, podia, mas…

 

Houve um tempo, felizmente já ultrapassado, em que as mulheres não desempenhavam este tipo de cargos. Estes eram apenas e exclusivamente reservados a homens! E como certamente sabem, por imposição da função exercida, estes diplomatas deslocam-se frequentemente e fazem-se, muitas vezes, acompanhar da família, sobretudo das suas respetivas esposas. Ora, a mulher do embaixador herda, assim, o título do marido e é apresentada como embaixatriz, isto é, a mulher do embaixador. Mas as coisas mudam um pouco (e ainda bem!), pois estes cargos passaram a ser ocupados também por mulheres, sentindo-se a necessidade de distinguir a ‘esposa’ da ‘senhora que realmente está à frente de uma embaixada’. Assim se convencionou que a palavra embaixatriz designaria a mulher do embaixador e a palavra embaixadora a mulher que desempenha a função de embaixador.

 

No Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido Figueiredo (1949, 10.ª edição), e muito embora se afirme no frontispício “[…] em perfeita harmonia com o Vocabulário Resumido de 1947 […]”, faz-se a seguinte distinção:

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Cândido Figueiredo, p. 947

Mais curioso é abrir o Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas da Língua Portuguesa (1956), de autoria de Vasco Botelho de Amaral. Vejam bem!

Vasco Botelho de Amaral, p.1271

Botelho de Amaral remete-nos para o sentido original do vocábulo (cf. Moraes, 1789), ao mencionar o sentido de “medianeira, mensageira”. O vocábulo embaixador, do francês ambassadeur, empréstimo do italiano ambasciatore, originalmente significa ‘enviado em missão junto a um governo estrangeiro’, ‘portador de mensagem’. Ainda hoje a ideia se mantém no sentido de “pessoa encarregada de uma missão; emissário enviado medianeiro representante”.

Dicionário Antonio de Moraes Silva, p. 657

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Nos dicionários portugueses mais atuais há unanimidade na forma de tratamento: a distinção é estabelecida. Bom, em quase todos…

E assim é! Vale ainda a pena recordar que a primeira mulher portuguesa que exerceu este cargo (UNESCO, 1975-1979) foi Maria de Lourdes Pintassilgo, oficialmente designada como embaixadora.

 

Eu em nada mando, a canção é da Mariza, com letra de Fernando Tordo, “Se eu mandasse nas palavras”…

 

Como se eu mandasse nas palavras

Quiseram que emendasse o que está escrito

Para quê? Se eu mandasse nas palavras

Daria agora o dito por não dito.

 

Bem sei que muitos torcerão o nariz a propósito de embaixatriz e embaixadora. Mas assim é. Subtilezas da língua, é verdade.

 

embaixatriz s. f. Do fr. ambassatrice, emprest. do it. ambasciatrice. Esposa do embaixador.
embaixador, a s. Do fr. ambassadeur, do it. ambasciatore1 Membro do corpo diplomático que representa ao mais alto nível um Estado junto de outro. Nomear um embaixador. Acreditar uma embaixadora2 Pessoa encarregada de uma missão; emissário; enviado; medianeiro; representante. 3 Pessoa que representa um dado domínio das artes ou da cultura.

 

Aceitas o convite de me acompanhar daqui a 15 dias num próximo Afiar a Língua?

Texto de Ana Salgado
Ilustração de João R. Saúde

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