Vem para a minha beira ou… fica ao pé de mim?

Mudei-me do Porto para Lisboa há uns anos. Não, não fujas, não vou falar da minha vida, mas isto é importante para explicar o que vem a seguir. Ora, vivendo em Lisboa há algum tempo, por vezes, ainda me saem algumas expressões nortenhas – espero sempre mantê-las, bem como algum sotaquezinho. Ainda que conheça bastantes palavras e expressões regionais, confesso que eu não sabia que a expressão que inicia o título de hoje é proibida na capital! Sim, não estou a exagerar. Não falta por aí quem me corrija quando eu digo, por exemplo, «Aqui, à minha beira» ou «Anda aqui para a minha beira». O que acontece a seguir? Um gracejo, uma troça, um sorriso sarcástico, seguidos de: «Ana… para o pé de mim, sim?» Ambas estão corretas, uma é mais típica no Norte ou a outra mais a Sul. Mas, vá, elas convivem, há espaço para as duas.

E era aqui que eu queria chegar: não devemos menosprezar falares, linguajares…

Na hora do comer e do beber…

Alto! Na Invicta, nem vale a pena pedir um bitoque, porque a expressão pura e simplesmente não existe. Um bico de pato não é nenhum prato típico do Norte, mas antes o tradicional pão de leite. O bolinho de bacalhau tripeiro chega a Lisboa em pastel na hora do lanche ou da merenda.

Aqui já não peço cimbalinos, também confesso que só havia um sítio onde os pedia no Porto. Uma bica cai sempre melhor. Já o garoto e o pingo deixam-me sempre desnorteada. Deixei o tom fino e aprendi a pedir umas imperiais.

Por casa, é mais complicado

Já quis chamar o picheleiro, mas os colegas não entendiam. Ah, pois, é o canalizador.

Uma sertã é uma frigideira, um testo é a tampa da panela e um boeiro, uma sargeta. Para pendurar a roupa no armário usam-se cruzetas (cabides) e se quiser trancá-lo bem trancado, a solução mais eficaz é um aloquete (cadeado).

Numa loja de desporto, compre sapatilhas (ténis).

Já agora, no Porto, o WC é um quarto e não uma casa.

Na hora de dizer as horas

Não digas «falta um quarto para as duas», mas antes «duas menos um quarto».

Por essa calçada lisboeta

Quando regresso ao Porto, ainda há coisas que vão no Batalha, mas aqui, quanto mais não seja meto o Rossio na betesga!

À minha beira ou ao pé de mim, não te esqueças: toca a afiar a língua!

Texto de Ana Salgado
Ilustração de Carla Rosado

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