Perdi a conta de quantas mensagens me chegaram sobre o uso da vírgula. São muitos os amigos e conhecidos que me pedem um esclarecimento, uma referência sobre o assunto, um livro sobre pontuação, dicas, apontamentos.

A vírgula é o sinal de pontuação que mais dificuldades suscita na hora de escrever. São poucos aqueles que a sabem empregar corretamente; e, na verdade, mesmo quem domina a língua portuguesa hesita ou tem dúvidas na hora de a usar. Considero-a, por isso, o calcanhar-de-aquiles da pontuação.

A vírgula assinala uma pausa breve. Certo! No entanto, é imprescindível acabar com o mito de que o uso da vírgula está relacionado com a respiração. Esquece isso! Pausas na oralidade podem não corresponder a pausas no registo escrito. O emprego da vírgula depende, antes de mais, da estrutura sintática da oração. Há as obrigatórias, as proibidas e as opcionais. Por isso, o seu uso pode variar de pessoa para pessoa. Há quem use e abuse das vírgulas, outros evitam-nas ou usam-nas com muita moderação. Se há virgulação que obedece às exigências auditivas, desrespeitando várias vezes a sintaxe, outra há que ocorre pela lógica gramatical, sendo, por isso, mais rigorosa.

O problema mais grave, digamos assim, é quando a vírgula, ou a sua ausência, altera o significado da frase. Analisa comigo os seguintes exemplos:

  • Não, gosto de ti!
  • Não gosto de ti!

A vírgula põe o sujeito a gostar (1), numa espécie de reforço, ou a não gostar (2) de ti. Portanto, muito cuidado!

O uso incorreto da vírgula, como o de separar o sujeito do predicado, geralmente por associação à já referida respiração, é bem mais grave do que não pontuar propriamente. Ora vê:

  • Eu, tenho cinco irmãos.
  • Eu tenho cinco irmãos.

A vírgula na frase 1), a seguir a Eu (sujeito), é inadmissível, ainda que na oralidade possa existir uma certa inflexão da entoação – algo parecido a Eu… tenho cinco irmãos. –, ou seja, a pausa não impõe a vírgula.

Se tens dúvidas e não consegues ficar devidamente esclarecido, é recomendável não usar a vírgula, porque – e repito-me – o seu emprego é mais grave do que a sua ausência.

Compararemos, agora, estas frases:

  • Os enfermeiros que não estavam de acordo votaram contra.
  • Os enfermeiros, que não estavam de acordo, votaram contra.

Na frase 1), sem vírgula, há uma restrição, ou seja, apenas os enfermeiros que não estavam de acordo votaram contra, isto é, pode haver outros enfermeiros que estão de acordo e que, possivelmente, possam ter votado contra. Os outros terão votado a favor. Já na frase 2), com vírgula, há uma explicação, ou seja, explica-se que os enfermeiros não estão de acordo e, por isso, vão votar contra. Em termos técnicos, valor restritivo na frase 1) e explicativo na 2).

Sendo possível sistematizar um conjunto de regras sobre os processos de virgulação, regras essas que são minimamente estáveis, passaremos a apresentar alguns dos mais frequentes casos em que a vírgula não deve ser usada e outros em que a mesma tem mesmo de ser usada. Fica, desde já, prometida a publicação de mais crónicas sobre este assunto. Sim, porque um tópico sobre a vírgula dá pano para mangas! Cada uma das situações será ilustrada de exemplos reais do uso da vírgula, tentando sempre recorrer a clássicos portugueses, uma vez que a leitura de bons escritores melhora sempre a nossa escrita. Lê, lê muito, e logo verás como a tua escrita melhora.

Não uses vírgula!

  1. Entre o sujeito e o predicado:

Eu amo a charneca. (Almeida Garrett, As Viagens na Minha Terra)

  1. Entre o verbo e os seus complementos:

O meu Príncipe era então uma alma que se simplificava — e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele entrasse paz ou doçura. (Eça de Queirós, A Cidade e As Serras)

  1. Com gerúndio dependente:

[…] o doente parecia estar melhorando […] (Machado de Assis, Quincas Borba)

  1. Antes de que quando introduz uma oração restritiva:

Há infortúnios e misérias que causam o tormento dos grandes e poderosos e que os pobres e humildes nem experimentam, nem imaginam sequer. (Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor)

  1. Antes das conjunções e, nem, ou quando não aparecem repetidas:

São os nossos amigos e parentes que vêm esperar-nos. (Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição)

Não há limões nem açúcar. (Almeida Garrett, As Viagens na Minha Terra)

Servo ou homem livre, liberto ou patrono, para ele todos eram filhos. (Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero)

  1. B.: A vírgula pode ser usada, caso se pretenda dar ênfase a uma frase:

Vacilou um segundo, e caiu desamparado aos pés de Teresa. (Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição)

  1. Em frases iniciadas por mas:

Não o supunha assim madrugador. Mas onde estava tão escondido? (Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais)

Sim, usa vírgula!

  1. Para assinalar o vocativo (termo com que chama o interlocutor e que marca a função apelativa da linguagem).

– E diga-me, Carlinhos, já vai adiantado nos seus estudos? (Eça de Queirós, Os Maias)

  1. B.: Sempre que estamos diante de um vocativo, há vírgula, mesmo que não esteja no início da frase:

– Falhámos a vida, menino! (Eça de Queirós, Os Maias)

  1. Para assinalar o aposto ou modificador do nome apositivo (termo da oração que serve para explicar um termo anterior, esclarecendo ou qualificando):

Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra […] (Machado de Assis, O Alienista)

  1. Para separar o gerúndio e o particípio passado independentes, isto é, quando equivalem a orações:

Clara, sentindo-se pouco à vontade para responder ao galanteio […] (Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor)

Dada a hora, achou-se reunida uma sociedade seleta […] (Machado de Assis, Brás Cubas)

Ludovina recuou três passos, tolhida de medo (Camilo Castelo Branco, O Que Fazem as Mulheres)

  1. Para separar elementos de natureza semelhante ou que desempenham a mesma função, quando não estão ligados por conjunções (e, nem, ou):

A beleza, o espírito, a graça, os dotes de alma e do corpo geram a admiração. (Almeida Garrett, As Viagens na Minha Terra)

  1. Antes de que quando introduz uma oração explicativa:

Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscrito […] (Eça de Queirós, Os Maias)

A sociedade é materialista; e a literatura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! (Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra)

  1. Com a partícula quem, acompanhada de preposição:

[…] o grande João da Ega, a quem Afonso da Maia se afeiçoara muito […] (Eça de Queirós, Os Maias)

  1. B.: O mesmo acontece, em circunstâncias idênticas, no caso de que: a/em que.

E o que houve foi um silêncio lento, em que os olhos de ambos se encontraram. (Eça de Queirós, Os Maias)

Essa minha irmã, a que foi levada em pequena, não morreu?… (Eça de Queirós, Os Maias)

  1. Entre orações com sujeitos diferentes, mesmo quando ligadas por e:

Era-lhe familiar o canto matinal do galo, e o amanhecer encontrava-o sempre de pé, e em pé o deixava ao esconder-se. (Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor)

DICAS:

Por exemplo qualquer que seja a ordem da frase apresentada, a expressão «por exemplo» aparece sempre entre vírgulas.

Por favor qualquer que seja a ordem da frase apresentada, a expressão «por favor» aparece sempre entre vírgulas.

Sem que sempre precedida de vírgula, porque geralmente inicia uma oração nova.

Todas as vezes em que sempre precedida de vírgula, porque geralmente inicia uma oração nova.

Uma vez que sempre precedida de vírgula, porque geralmente inicia uma oração nova.

Visto que sempre precedida de vírgula, porque geralmente inicia uma oração nova.

Texto de Ana Salgado
Ilustração de Carla Rosado