Há dias em que acordo com dores nas costas. Outros com o joelho direito a tinir que mais parece um badalo de portão de quinta. Outros ainda em que é a articulação do tornozelo que se queixa. E, por fim, há ainda aqueles dias aziagos em que todos estes mecanismos protestam ao mesmo tempo.

Uma antiga namorada dizia-me que o problema era do colchão. Este teria que ser substituído de 6 em 6 anos, mais ou menos…

Nunca acreditei. A moça em causa tinha feito uns serviços em part-time numa loja de móveis e esta seria uma “estória” que o patrão lhe dizia para contar a toda a gente e assim aumentar a receita.

Mas hoje tenho dúvidas (devo acrescentar que apesar das  dúvidas continuo a achar que mudar de colchão de 6 em 6 anos cheira a vício de riquinho).

Voltando ao assunto, será o incómodo articular causado pelo colchão ou talvez consequência da idade que se propaga pelas ossadas, ou ainda por causa de algum mau jeito que dei na minha juventude assaz desregulada (para não usar nome mais contundente) por entre o judo, o futebol, o desbaste de cavalos e outros  devaneios ao ar livre  onde o cavalheirismo mandava que fosse eu a deitar-me no chão, com os costados em cima do que por lá houvesse, pedras, paus, caruma ou areia da praia..

“Se a cortesia tivesse pátria, seria Portugal” (Miguel de Cervantes)

Existe, contudo, a certeza científica de que estas maleitas afligem sobretudo a malta com peso a mais.  As articulações queixam-se do esforço a que são submetidas, mas enquanto que os cotovelos têm espaço para respirar descansando ao lado das costelas, os desgraçados dos joelhos, da coluna e dos tornozelos não se conseguem livrar da escravidão. Têm de suportar o peso da alimária todas as horas do santo dia.

Por isso vários médicos têm vindo paulatinamente a sugerir a minha perda de peso. O grau de amizade influencia a forma como a sugestão é feita.

Temos desde o delicado “Olhe que tem de perder peso Sr. Doutor”, observação amistosa feita pela médica dos serviços sociais (pessoa de enorme educação). Até à frase lapidar do meu médico habitual, um amigo com mais de vinte e cinco anos de convivência: ”Tou-te farto de dizer a mesma coisa! Pôrra! Ou perdes peso ou lixas-te!”. (Este praticante da arte de Esculápio parece ter sido educado na estrebaria).

Prometo e juro a mim próprio fazer a vontade aos médicos quase todos os dias, quando me levanto e começam as dorezitas.  A força desse propósito, infelizmente, vai variando ao longo do dia.

É muito forte às 6 da manhã, continua fortíssima às 7 da mesma manhã, perde força à medida que se aproxima o meio-dia e torna-se mínima (quase inexistente) meia horita depois… De seguida aumenta de novo o impulso para a dieta, crescendo a olhos vistos entre as três e as sete da tarde, altura em que fraqueja de novo…

Aqui o problema não tem a ver com a injunção bíblica da “carne ser fraca”.

Muito pelo contrário! Comigo o que se passa é exatamente o contrário: a carne é forte. É a força do “Cozido à Portuguesa”, do “Cabrito Assado no Forno”, da “Vitela de Lafões”, da “Mão de Vaca com Grão”, da “Dobrada com Feijão Branco”, etc…

E para ajudar à festa, quando finalmente me encho de coragem para arrenegar as carnes e alimentar-me de peixe, estamos na época da lampreia e do sável com açorda de ovos…

Lampreia não é peixe? Costeleta de porco também não me parece que seja. O resto serão pormenores técnicos que deixarei para os biólogos do mar.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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