Termino a série das “Alarvices” com uma desbunda vínica. E relativamente moderna, como verão.

Este episódio foi passado estando eu já numa idade madura e em que era mister existir experiência de vida que pudesse ter evitado o triste resultado.

Vivia-se em Portugal um tempo de “fartura” após a adesão à EU.  Ainda antes dos sobressaltos do resgate financeiro e da perda de rendimentos muito considerável que lhe esteve associada.

Tinha começado a aventura (há quem lhe chamasse a “mania”) das garrafeiras e clubes de vinhos organizarem jantares temáticos onde grandes vinhos – normalmente de um único produtor – eram provados em conjunto e ali comentados por quem sabia da “poda”. Nestas alturas era estabelecido um preço por cabeça com tudo incluído, definiam-se três ou quatro vinhos a apreciar, e o produtor acabava o jantar a responder às perguntas e a dar uma ideia da história dos vinhos. Tudo normalmente muito civilizado.

Mas nalguns casos esses jantares vínicos podiam ser organizados de forma mais particular, normalmente envolvendo os proprietários das garrafeiras e alguns (poucos) clientes mais gastadores ou mais “amigos” das casas em questão.

Nessas ocasiões o perfil era distinto. Dividia-se o custo dos pratos que acompanhavam o jantar por todos, mas o vinho era oferecido por cada um dos convivas, normalmente duas garrafas para um grupo restrito de, no máximo, seis convidados.

Duas garrafas porque – naquele círculo um pouco snob - havia sempre receio que uma delas poderia ter defeito, motivo pelo qual deviam vir sempre duas de cada rótulo.

A prática ensinava que uma garrafa dava para seis copos, daí estas contas um pouco “à merceeiro” que teoricamente funcionariam bem, mas na prática seriam exageradas, para não dizer outra coisa.

Doze garrafas eram (são) setenta e dois copitos.  E cabia a cada um dos seis convivas enfiarem na goela 12 desses copos, dois por cada espécie de vinho.

Não que fossem obrigados a beber tudo, mas entendem o que quero dizer.

Haverá quem ache que 12 copos de vinho a uma refeição (o líquido de duas garrafas…) é demasiado para cada “hospedeiro”. Nesse grupo me incluo.

Agora, quando para além das considerações de “quantidade” aparecem as outras da “qualidade”, ainda mais grave se torna a questão. Como passo a explicar.

A divisão de tarefas tinha sido difícil de concretizar quando foi feito o planeamento desse jantar único. Havia que associar um vinho a cada um dos parceiros, e era importante saber o que cada um tinha em casa que fosse diferente dos outros, embora de gabarito “intelectual” semelhante.

Escolheram-se então seis vinhos do primeiro ano do século XXI que, sendo caros e de grande qualidade, não tinham ainda a cotação tradicional do senhor Barca Velha: o Pintas 2001 (a exceção por ter sido esta a 1ª colheita); O Quinta do Mouro rótulo dourado 2000; o Niepoort Batuta 2000; o Duas Quintas Reserva 2000; o Luis Pato Vinha Pan 2000;  e finalmente o Quinta da Pellada Reserva 2000.

Um do Dão, um da Bairrada, um do Alentejo, três do Douro. Todos obviamente muito bons.

A primeira contrariedade começou com a definição da ordem de ataque.

Todos - “et pour cause” - queriam que se começasse a tarefa pelo vinho que tinham trazido. Ninguém queria ficar para o fim. Houve até um “maduro” (palavra muito apropriada) que fui eu, que achava que deveria ser tudo aberto ao mesmo tempo e à frente de cada participante estarem os copos todos prontos a marchar.

A ideia foi votada desfavoravelmente pela falta do número de copos necessários na organização do evento e ainda hoje penso que essa sabotagem foi a responsável pelo que se seguiu.

Na falta de acordo houve um sorteio. E como demorava a cena da prova real, lá teve de vir um vinho branco para acalmar a sede por antecipação.  Três garrafitas de Palácio da Brejoeira… Três vezes seis são dezoito, a dividir por seis gargantas dá três copos a somar aos outros doze…  capacidade já aproximada à de um verdadeiro “seca-adegas”.

Não me lembro da ordem de ingestão de todos os vinhos tintos. Lembro-me apenas do primeiro, o Quinta do Mouro, que por acaso abafou os outros e do último, que foi o Pellada, por singular circunstância o que eu tinha trazido de minha casa.

Depois de tantas impressões sensoriais e sem haver tempo de espera nem cultura e sabedoria de provador encartado (ainda que estes não bebem, segundo penso) o que posso dizer desse jantar é que para lá do terceiro vinho já ninguém ia além da reles vulgaridade do “muito bom!”. “grande vinho!”, e da paradigmática frase que ainda hoje aparece em todas estas circunstâncias: “acompanhava muito bem um cabrito no forno” - parecendo-me que havia mais quem dissesse “cabruto” do que “cabrito” dado o estado adiantado de euforia da agremiação.

Em conclusão: mal-empregados néctares em tamanhos brutamontes.

Só me lembrava do sábio aforismo do Sr. Camelo de Seia: a partir do terceiro copo pode o taberneiro meter-lhes água no vinho que ninguém dá pela diferença.

Desde essa má experiência que eu sempre recomendo: numa prova de amadores que envolve mesmo beber, não se experimentem mais do que três grandes vinhos. Caso contrário nem se respeitam os vinhos, nem nos respeitamos a nós mesmos.

Recomendar, recomendo. Mas praticar? Confesso que nem sempre. A carne é fraca. Fraquíssima…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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