"O velho já não segura os braços da cadeira, os joelhos subitamente não trémulos obedecem agora a outra lei, e os pés que sempre calçaram botas (…) já estão no ar", José Saramago (conto “Cadeira”, inserido no livro “Objecto Quase”).

Situamo-nos no tempo e no espaço: a queda da cadeira onde estava sentada a figura pública do Dr. António de Oliveira Salazar deu-se em 1968. Pouco tempo depois o novo inquilino de S. Bento dava ordens para que o velho palácio das Cortes que seria a sua residência oficial fosse completamente remodelado.

Foram obras notáveis, onde o melhor que havia em Portugal foi utilizado. Desde os revestimentos de chão e paredes até ao mobiliário, passando por detalhes como por exemplo a instalação dos primeiros autoclismos de descarga silenciosa que existiram em Portugal.

Sei do que falo porque a empresa de construção civil onde meu pai era guarda-livros ganhou esse concurso público da remodelação e eu, com 14 ou 15 anos, assisti ao “pau-de bandeira” da obra.

O Palácio estava habituado a obras, mas teria de esperar até ao consulado do Prof. Cavaco Silva para se modernizar com a instalação de uma piscina na zona até então ocupada por galinheiros do tempo da governanta de Salazar. E que eu ainda conheci. Os galinheiros, não a governanta.

Pois no dia do referido “pau de bandeira” do Palácio de S. Bento, meu pai e o senhor Casinhas - homem excelente, grande proprietário de pedreiras e fornecedor dos melhores mármores de Negrais - disputaram o trono do “rei do leitão”.

O senhor Casinhas tinha em toda a área circundante do seu condado de Negrais a alcunha do "três cús" (imaginem porquê) e não cabia à frente do volante do seu Mercedes, tal a dimensão do ventre...tinha de ser o neto a conduzi-lo.

O desafio dessa tarde consistia em colocar à frente de cada um deles um leitão inteiro(!) de Negrais e desatarem ambos a comer para ver quem acabava primeiro

Um leitão à frente de cada um, sem esquecer os acompanhamentos - um cesto de pães de Mafra ainda quentes; muitas batatas fritas às rodelas e muita salada!  As garrafas de Espumante tinto não entravam nestas contas, mas seguramente que foram mais do que duas por cabeça...

Ganhou o meu pai. Demorou cerca de duas horas e meia nessa refrega e, quando terminou, o senhor Casinhas ainda tinha na sua travessa algumas costelas, que são a parte mais nobre do leitão assado. O segredo destas desbundas é ir deixando o melhor para o fim, como me explicaram mais tarde.

Foi quase, quase, um “photo finish”. Mas estava declarado o vencedor, com papel passado e assinado pelas testemunhas do evento, armados em “árbitros” da jogatana e que já estavam um bocados verdes de enjoo perante aquelas exéquias.

Desde esse dia e até morrer nunca mais deixou o senhor Casinhas de nos enviar - todos os Natais - um leitão lá para casa.

Moral desta história: por muito grande que se pense ser a alarvice que cometemos há sempre quem tenha feito outra ainda maior... E por vezes nem é preciso sair de casa para encontrar (maus) exemplos...

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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