Esta “alarvice” tem mais “bebes” do que propriamente “comes”. Passou-se num local da nossa predileção – a quinta do meu amigo Álvaro – e consistiu numa proeza de tal forma invulgar que nos ia deixando a todos (ou a quase todos) embasbacados.

Havia relações de amizade entre as Instituições de Solidariedade Social oficiais de Portugal e de Cuba. Em Portugal era o ISS I.P. criado em 2001 com algumas das atribuições do Ministério do Trabalho e da Segurança Social. Em Cuba seria a sua contraparte (de que não me recordo o nome).

Perante a necessidade de bem receber aqui no pátrio recanto uma delegação de Cuba, e estando os serviços oficiais um pouco apertados de verbas, foi feito apelo ao contributo voluntário desse meu amigo, para dar na sua quinta uma “festa campestre” em honra da delegação. Havia relações de parentesco muito próximas entre uma alta funcionária do ISS e o Álvaro.

A delegação cubana era (no mínimo) multifacetada. Traziam músicos populares, traziam instrumentos, traziam malta de Vuelta Abajo (terra-mãe dos charutos) com a competente “folha” para cá fazerem os ditos cujos, traziam artistas – pintores e escultores, mas também homens e mulheres de letras. Tudo isto debaixo da competente (veremos mais tarde) orientação e coordenação de um aprumado chefe de delegação e de uma “sub-chefa”, também ela muito aprumada. Até mais do que o chefe.

Lá chegou à quinta a viatura alugada para o efeito, um autocarro de 63 lugares onde apenas viajavam 17 pessoas da delegação, mas incluindo alguns (quatro ou cinco) acompanhantes portugueses e a bagagem, que era de respeitável dimensão e muito espaço ocupava.

A refeição era um churrasco ao ar livre, com as partes mais adequadas de um porco que se tinha sacrificado para o efeito uns dias antes: febras, costelas, lombo. E para arredondar ainda se tinham atirado para as brasas umas boas postas de bacalhau.

O pão, magnífico cozido em forno tradicional, era de Alcaravela. E os legumes que acompanhavam o conduto eram todos ali criados na horta.

Para além de umas grades de cervejas “minis” e de laranjadas que refrescavam em baldes de lata com gelo, estavam à disposição dos convivas  vários garrafões de água-pé e de vinho branco,  ambos vinificados ali na zona.

Depois dos primeiros encontros dos visitantes com os “comes e bebes”, e passada a sofreguidão inicial, armou-se ali um bailarico. Com música feita pelos presentes.

Isto tudo enquanto que alguns de nós – mais do tipo “pé de chumbo” – nunca mais largávamos os artistas dos charutos até podermos provar aquelas maravilhas.

A festa durou até ao pôr do sol, e na altura da partida foi preciso acordar o “chefe” da banda, que pelo meio da tarde se tinha encostado a uma oliveira e por lá ficara com uma garrafita de aguardente ao lado.

O meu amigo, quando ao fim do dia de “trabalho” fez as contas aos garrafões de água-pé, vinho branco, grades de cerveja e garrafas de bagaço “vertidas”,  ia-lhe dando uma coisinha má…

Cerca de 25 presentes, dos quais quase metade eram senhoras, deram cabo de oito garrafões e cinco grades de cerveja (para quem não sabe são 120). Embora fossem “minis” é obra.

E quanto ao bagaço? Preparem-se. Sobrou um restinho no fundo da última garrafa. Tinham vindo para a festa seis…

Ninguém foi para o El Malecon a dizer mal de Portugal! Et pour cause…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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