Comecei a ganhar dinheiro de forma estável em final de 1977. Foi nessa altura que começaram as divagações “a solo” por restaurantes de qualidade, já que antes de ter carteira própria com algum recheio que se visse era a entidade paternal que esportulava e convidava para a mesa.

Algum tempo depois – seguro das avaliações no “Expresso” de meu mestre Quitério – todos os meses escolhia um restaurante novo para visitar, iniciando desta forma uma espécie de “caderno de campo” com as notas das visitas, que me acompanhou muitos anos e tem dado o seu contributo não negligenciável para esta tarefa atual onde me meti.

A “Alarvice” aqui em causa consistiu em ter jantado três vezes no mesmo dia, terminando a noite junto da autoridade, todavia não pelos motivos que pensarão.

Bem-avisado cheguei nesse final de tarde bem cedo ao meu poiso favorito junto da Lota de Cascais. O meu grande amigo Sr. Rainha tinha vindo de Carrazeda com grelos e alheiras e o pessoal do restaurante Beira Mar estava a banquetear-se com aquele festim antes de começar a arrumar a sala para os clientes. Seriam seis e meia da tarde.

Logo ali tratei de comer o primeiro jantar dessa noite. Uma alheira, as batatas coradas, o ovo estrelado e os grelos de nabo. O vinho era ele também de Carrazeda.

Quando terminámos (e já se tinha, entretanto, juntado a nós o filho dos proprietários do restaurante) o meu amigo avisou que tinha de ir ao Guincho “jantar” e levar mais uns quilos de alheiras.  Nessa altura tanto o Beira Mar como o Monte Mar no Guincho eram geridos pela mesma família. E lá fomos todos, julgando que era brincadeira.

Mas não era. Estava reservada uma mesa no Monte Mar. Sentámo-nos e comemos outra vez. Os empregados mais antigos e experientes deram pela marosca, porque levámos mais tempo do que era costume a dar conta dos filetes enquanto esperávamos pelo “tournedos saignant”. Mas sobretudo porque o filho do patrão (armado em nosso provador) embirava com o vinho e mandara para dentro duas garrafas de seguida, para grande fúria contida do pai…

Pagámos (nem me lembro se foi à moda do Porto ou se o Sr. Rainha tratou do assunto) e ao dirigirmo-nos para o carro lembrou o meu Amigo se “não deveríamos ir cear ao Beira Mar?”

Eu, para me defender da estocada fatal, respondi que sim, mas só me sentaria à mesa se houvesse bacalhau com todos (coisa que não era nada habitual lá no sítio).

Assim que chegámos fui direito à cozinha e perguntei se havia o tal bacalhau. Resposta do chefe Costa a rir-se que nem um perdido: “Quantas postas”?

Por azar a “patroa” tinha comprado há dias bacalhau para o pessoal e como estava já demolhado era só cozer…

“Noblesse oblige”. Senta-te alarve ao lado dos outros dois alarves. E deram conta de uma larga travessa com couves, batatas, cebola, cenoura, ovo cozido, grão (!) e três postonas de bacalhau bem altas, cortadas do meio.

Já o Sr. Rainha namorava uma garrafita de três litros de Borba quando decidi acabar com a desbunda.  Referi que já era quase meia noite. Que o pessoal do restaurante se queria ir embora. Que não podíamos beber mais pois ainda acabávamos às turras com a Brigada de Trânsito.

O que fui eu dizer…

O excelente Rainha logo se lembrou que tinha ali – na então sede da BT, na rua das janelas verdes –  um compadre de Carrazeda, que seria capitão (ou major).

E vai de telefonar-lhe. Como o dito oficial por casualidade era “oficial de dia” naquela noite, logo ali se combinou irmos lá ter para “beber um copo”, levar mais umas alheiras ao pessoal da guarda e falar de assuntos comuns de Trás-os-Montes.

Foi uma vergonha. Chegámos à sala dos oficiais com os olhos mais pequenos que uma toupeira. Lá bebemos mais qualquer coisinha. E falámos, falámos quase até às 3 da manhã.

Houve depois que regressar a Cascais. Devagar, devagarinho e com as quatro janelas abertas da carrinha “Mercedes Van” do Sr. Rainha, homem cuja compleição física desmesurada não lhe permitia caber noutro tipo de automóvel, mas que também nunca lhe dava para acusar álcool no sangue.

Isso era ele, porque os outros dois penduras há longas horas que estariam ambos muito para lá de Bagdad…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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