Sempre comi bem. Na minha juventude mais tenra recordo que eu e todos os meus companheiros de brincadeiras tínhamos apetites vorazes. Não parávamos quietos, fazíamos desporto no colégio e em casa, andávamos sempre na rua durante as férias das 8h às 20h, e o resultado era sentarmo-nos à mesa como se fôssemos as crias da águia, de bicos abertos e sofreguidão total, a olhar para a progenitora que dispensava a comida.

Não seríamos muito adeptos dos brócolos ou do peixe cozido, mas vingávamo-nos (se nos deixassem) no capítulo dos chocolates, gelados e bolos, com ou sem creme a rechear.

Sem descurar alguns “salgados”. Mas quais?

Casas de hambúrgueres não havia, churrascarias de frango assado eram ainda escassas, pizzarias fora dos USA ou de Itália? Só nos filmes.

A malta nova amava as outras coisas “salgadas” que ainda se faziam em casa: os panados de vitela, os empadões de carne e puré de batata, os pastéis de bacalhau, croquetes, rissóis e pasteis de massa-tenra, etc…

A vida era diferente e mais comunitária, quando numa das casas dos meus amigos se fazia um bolo, este era repartido por todos os companheiros de brincadeiras.

As raparigas quando chegavam a uma certa idade começavam a diferenciar-se destes comportamentos. Mas os rapazes continuavam por mais três ou quatro anos, até chegarem à fase das festas de garagem, onde o corpo passava a ser julgado como atributo importante na atribuição dos favores das parceiras de dança.

Era durante essa pré-adolescência masculina, que situaria entre os oito anos e os treze anos, que se cometiam as maiores alarvices (à escondida dos adultos).

Nunca mais me esquecerei (até pelas consequências) de uma dessas parvoíces de “esganado” que envolveu um consumo desalmado de chocolates em minha casa.

O meu maior amigo e eu éramos viciados numa marca de chocolates que se apresentava em tablettes de pequena dimensão, cerca de quinze centímetros, e que a minha mãe comprava em caixas de cinquenta, para poupar dinheiro.

A caixa tinha de estar escondida, como imaginam. E os chocolates eram repartidos diariamente depois do lanche (se nos portávamos bem), um para cada um de nós.

O paradeiro da “caixa” constituía para ambos uma espécie de tesouro a descobrir, sem mapa avulso que permitisse a expedição. Estávamos a ler o Bob Morane (de Henri Vernes, pseudónimo do autor francês Charles-Henri Dewisme) novelas que nos deslumbravam, pela mistura de fantasia, ficção científica e ação real. E cheias de ambientes em que o herói tinha de desvendar charadas complicadas para atingir os seus fins.

Na noite em que – por um acaso feliz – descobri o esconderijo da “caixa”, quase não dormi. Esperei que a minha mãe saísse para o trabalho e como estávamos de férias foi fácil cooptar o meu amigo para esta aventura de roubalheira e desfrute, nas “barbas” de uma tia minha já idosa que nos adorava e nos deixava fazer o que queríamos, sempre com um sorriso nos lábios.

Comemos os chocolates todos que estavam na caixa. Seriam mais de trinta…

Quando a minha mãe chegou (um pouco antes do meu pai) lá deu pela marosca. Nem tanto pela descoberta dos restos da caixa, ou das embalagens dos chocolates no lixo, mas antes porque eu não saía da casa de banho.

Apanhámos uma “soltura” tão grande que a idosa Tia da Beira só dizia: “deu-lhes a borreira, coitadinhos”…

Até aos dias de hoje nunca mais consegui olhar para aquela marca de chocolates, que ainda existe.  E estou convencido que é possível datar desse episódio uma certa aversão que me acompanha no que diz respeito aos doces. Posso comer por curiosidade ou cortesia, mas raramente por escolha voluntária.

Resultado do desprendimento intestinal intempestivo, acompanhado e potenciado por umas palmadas valentes na mesma geografia.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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