“Pantagruélisme, vous entendez que c’est une certaine gaîté d’esprit confite dans le mépris des choses fortuites”.

François Rabelais, quando escreveu a sua obra-prima satírica em cinco volumes “Gargântua e Pantagruel” começa por enfatizar um lado cómico que associa o gigantismo ao grotesco e à desmesura da quantidade necessária de materiais (para comer ou para vestir, por exemplo). Para numa segunda fase incorporar uma dimensão crítica da sociedade que se assume como um ideal humanista de expressão renascentista.

Era grande médico e grande erudito, homem do Renascimento, mestre de ciência e de cultura que falava e escrevia fluentemente seis línguas e que influenciou de forma muito importante a produção literária francesa (e não só) que lhe sucedeu, desde Molière e Racine a Balzac e a Anatole France.

O seu Pantagruel come desmesuradamente. É um gigante, come e bebe “à farta” para alimentar o seu corpo gigantesco. Se todos fôssemos gigantes não se notaria a brutalidade de Pantagruel. Éramos todos como ele, à mesa e noutros aspetos…

Nesta questão da potencial “alarvice”, para além da medida absoluta do que se come, pondere-se antes quem come e em que circunstâncias de espaço, tempo, ocupação e idade.

“Comer como um lobo” é normal para quem despende atividade física extrema em idade jovem. Nem tanto assim para quem passa a vida sentado e terá mais de sessenta anos.

Depois de um percurso a pé de muitas horas no deserto de sal de Bonneville (Utah) é normal o atleta, completamente desidratado, beber cinco litros de água quando chega à meta.  É “normal” nestas circunstâncias.  O que não significa pedir ao balcão de algum café, em Lisboa ou no Porto, um balde cheio de água sempre que se tem sede.

Desta forma a verdadeira “alarvice“ terá de se separar dos comportamentos provocados por circunstâncias extremas.

E porque haverá quem ache que só é “alarve” quem “ataca” no porco, leitão, cabidela ou mão-de-vaca, aqui deixo uma grande “alarvice” cometida à base de… salada.

Meu tio José (tio por afinidade) era lavrador e homem de meios. Tratavam-no por Zezinho, apesar dos seus sessenta e alguns anos, exatamente por ser pessoa de avultados cabedais para um meio pequeno de aldeia da Beira. Quem tinha merecimento levava – e ainda acho que leva – o acrescentar do “inho” na forma de tratamento.

Naquela zona do país a refeição do meio (dia) ou é pública e aberta – a quem passa, aos trabalhadores, família e amigos – ou então é privada, uma coisa entre o casal dono da casa, homem e a mulher. Raramente existem meios termos.

No campo, quem se levanta com as galinhas almoça às 12h, janta às 19h e deita-se pelas 21h…

A cortesia manda evitar visitar a essas horas sem ser expressamente convidado, porque a hospitalidade de quem está à mesa obriga de imediato a partilhar.

Todavia, um certo dia apareci à moda de Lisboa (onde se almoça mais tarde) em casa de meu tio Zezinho ao bater das 12 horas. Uma ignorância de rapaz da cidade. Ia pedir emprestado um “motor de curar as vinhas” para essa tarde.

Estava o meu tio à mesa com um grande alguidar de barro à sua frente, onde víamos alface, tomate e cebola.  Materiais que ia temperando com a almotolia do seu azeite, vinagre do seu vinho e sal (esse não era lá da quinta).

Ao ver-me mandou logo que me sentasse para partilhar da refeição.

A tia vinha da cozinha com um tacho de febras e uma travessa de batatas cozidas e ao aliviar a carga em cima da mesa tratou logo de acrescentar mais um prato na toalha, apesar dos meus protestos.

Pediu então licença para ir tratar da salada. O que estranhei ao ver o alguidar já ali plantado.

Percebi então que o tio Zezinho comia, todos os dias e enquanto houvesse material na horta, um alguidar daqueles de salada a cada refeição.  Dizia com orgulho que eram três ou quatro tomates verdes, uma alface e meia de bom tamanho e duas cebolas pequenas (porque eram mais doces).

Fora o “conduto” habitual, está claro. As febrazinhas com as batatinhas naquela ocasião.

Na opinião dele era essa “dieta” que lhe permitia ter ainda vigor naquela idade para acompanhar os trabalhadores da quinta, passo a passo, com uma enxada na mão.

Uma história dos anos 80 do século passado. Altura em que o clamor por opções vegan ainda não era nascido.

Esqueci-me de referir que o meu tio Zezinho também diariamente dava conta da maior parte de um garrafão de 5 litros do vinho feito em sua casa.

Como vinho não é salada não terá tanta graça…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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