Fui campista e escuteiro durante a minha juventude. Está claro que os escuteiros acampam, mas como comecei primeiro o campismo e só depois aderi ao escutismo, mantenho a afirmação inicial.

Com 12 anos partia já todos os verões para 15 dias de campismo com colegas e amigos da mesma idade, obviamente supervisionados pelos pais de um amigo nosso que nos davam boleia e compartilhavam o Parque.

Mas a tenda era só para nós, e ainda éramos encorajados para fazer uma vida independente, com exceção das refeições, momentos em que nos refugiávamos ao pé da mesa da “autoridade paternal”.

Mas mesmo as refeições não tinham horário. Na tenda dos adultos havia sempre pão fresco, queijo e fiambre, carne assada fria e fruta. Tudo disponível para consumo a qualquer hora.

A única obrigação era a apresentação das sete e meia da tarde. As “tropas” cumprimentavam os “oficiais”, contavam o que tinham feito durante o dia e preparavam-se para o recolher obrigatório.

A liberdade dessa semana ou semana e meia era quase absoluta.

Os supervisores eram um casal iluminado e muito à frente do seu tempo, ele médico e ela artista, pintora e escultora, que tinham vivido em Inglaterra longos anos e de lá trouxeram estas ideias do ar livre e da promoção da independência da geração mais nova.

Normalmente – e por causa das saudades dos nossos pais – não íamos para muito longe. O local escolhido era Almornos, um parque do Clube de Campismo de Lisboa perto de Sintra, onde havia uma piscina recente que nos enchia de alegria.

Houve um dia – já perto do final destas férias especiais – em que o casal teve que vir a Lisboa e combinou com os meus pais serem eles a comparecer durante a tarde para a sessão de conversa que encerrava os nossos dias e a ficarem para o dia seguinte a tomarem conta do teatro de operações.

Não deveriam existir pessoas mais diferentes na forma de encarar a educação da juventude. Os meus pais eram do tipo galináceo e protetor, apologistas dos colégios católicos e da educação controlada, e defrontavam-se com uma forma de educar muito lá mais para a frente, incentivadora da iniciativa e da independência da malta jovem.

Os meus amigos, habituados à boa vida, quando foram informados dos novos planos já maldiziam a sorte. Eles e eu…

Éramos quatro, todos conheciam os meus pais e temiam o confronto de ideias.

Mas é na altura da maior borrasca que nunca devemos perder a esperança.

Esta ideia que frequentemente tinha sido implantada na nossa cabeça pelos adultos de britânica persuasão quando nos contavam como tinham passado os dias da Batalha de Inglaterra, acabou por animar a noite anterior à substituição.

Meus pais vieram cedo, à hora do almoço.

A minha mãe tinha trazido bifes de cebolada ainda quentes e batatas cozidas com a pele, dentro de tachos de barro embrulhados em cobertores de “papa”. Havia torta de laranja que tinha sido feita nessa manhã e salada de frutas.

Para o almoço do dia seguinte descobriu-se um cesto de vime forrado a pano branco, cheio de escalopes de vitela panados, e uma enorme taça de plástico com salada russa fria.

Duas latas grandes protegiam os bolinhos secos: areias de Cascais, pratas e petit-fours, da pastelaria Valmar.

A tropa acalmou. Direi mesmo que amansou.

De tal forma que nessa tarde todos nos esquecemos da piscina.

E no dia seguinte, depois do almoço dos panados e das despedidas aos meus progenitores, enquanto aguardávamos os habituais guardadores do rebanho, houve quem filosoficamente tivesse referido, dirigindo-se a mim:

-“O que era bom era os teus pais virem à hora do almoço e os outros fazerem o turno da tarde e da noite…”

Ainda hoje penso nisso.

É a notável questão da “chuva no nabal e sol na eira” que por enquanto ainda não tem solução à vista.

Entre a comida reconfortante à hora certa e a liberdade de fazermos (quase) tudo o que nos der na real gana haveria que escolher.

E não é fácil. Nem agora, nem quando tínhamos 12 anos.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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