Cheguei à crónica número 200.

Há 46 meses que maço os leitores com estas observações de carácter mais ou menos gastronómico mas sempre fruto de observação direta.

Combinar refeições ao relento com o número “200” exige imaginação. Claro que o mais fácil seria falar de algum jantar numa esplanada onde a continha chegasse aos duzentos euros.

Acham caro? Depende do número de convivas e do local escolhido.

Por exemplo, naquele buraco negro do “Made in Correeiros” – vade retro – um cidadão incauto e apenas acompanhado pela sua própria sombra poderia ser obsequiado com uma fatura desse montante sem muita delonga nem justificação.

Falemos contudo de coisas sérias deixando casos de polícia para a polícia ou para a ASAE.

A contrapartida será reportar alguma sessão de manducação onde se sentassem 200 clientes. Casamento ou batizado na época do verão.

Tenho poucas recordações boas dessas ocasiões. Uma exceção merece todavia destaque.

Foi um casamento à moda antiga, em 1980, envolvendo a filha de grandes amigos, abastados agricultores da Beira,

Levanto estas memórias com algum esforço, recordando o épico enquadramento da coisa e o monumental enjoo que se seguiu. Quando penso a sério nisso ainda me incomoda o fígado.

Naqueles tempos ainda era costume estas ocasiões durarem vários dias.

Normalmente um dia de “aperitivo”, para dar as boas vindas a quem vinha de longe, depois o dia da “boda” propriamente dita, a que se seguiam mais um ou dois dias de comezainas para acabar com os “frios” que tinham sobrado na véspera.

Esse era o pretexto oficial, porque na prática a partir do segundo dia começavam outra vez a trabalhar os fogões e os fornos dos familiares da noiva.

Eram três dias seguidos de borga, sempre a comer e a beber. O vinho era da família, o casamento era servido por restaurantes da zona, mas nos dias a seguir entrava o receituário típico da Beira interpretado pelos próprios.

As tias traziam tabuleiros, tachos e panelas, cada uma com a sua especialidade.

E as torneiras dos pipos dos pais e dos tios da noiva estavam quase sempre abertas.

Os desgraçados dos recém-casados, acabada a missa que os uniu, só queriam mesmo é que os deixassem ir embora para outras paragens, pois já não podiam ver nem cabritos assados no forno, nem leitões à moda da Bairrada, nem sequer a cabidela ou os filetes de polvo…

Os convidados jovens que vieram de Lisboa, um grupo de colegas de faculdade do noivo, apanharam uma “borracheira” logo na véspera do casório, em casa dos pais da prometida.

Era então costume fazer com os neófitos a brincadeira do “instrumento da banda filarmónica”.

Cada convidado ou convidada tinha de beber o vinho da terra e em função da quantidade era-lhe atribuído um instrumento, desde os “ferrinhos” para quem tinha pouco andamento, até ao “bombo” ou à “tuba”, para os grandes especialistas.

Tão grande foi a “cadela”, ou não estivéssemos na pátria da raça “serra-da-estrela”, que só a passaram dias depois, quando era mister porem-se outra vez nos carros e fazerem as quase 5,5 horas que – naquele tempo – os separava do betão lisboeta.

E poucos se lembram do que entretanto se teria passado pelos caminhos da aldeia…

Mas mesmo sem telemóveis à mão de semear (começaram em 1989) existe comigo documentação fotográfica em papel que prova a desbunda total.

Sempre de copo na mão a passearem-se de cá para lá nas ruas da aldeia, chamados pelos vizinhos para entrarem nas suas adegas, de onde só saíam para outra adega ou para a pensão onde ficavam a ressonar até ao dia seguinte.

O que deu cabo da juventude habituada aos whiskeys e às “bejecas” do Bairro Alto foi um pipito de 150 litros de vinho branco para onde um dos parentes da noiva tinha maldosamente lançado um mês antes punhados de maçãs bravo de Esmolfe para lhe apressar a maturação…

Recordo-me que aquele branco bem fresco, bebido durante a tarde de verão cá fora debaixo dos alpendres, estava de cair para o lado, em mais do que um sentido.

Já não haverá casamentos assim.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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