Comer “fora de casa”, no sentido de ser refeição sem teto por cima, também pode significar uma colação a bordo de um barco.

Eu escrevi um barco, e não um mastodonte de navio de cruzeiro onde não deve haver grande diferença entre a sala de um bom e grande restaurante terreno e a sala de refeições da bisarma navegadora.

Este era um barco do Tejo onde se comia no “deck” a descoberto. Uma tradicional “falua”, velhinha, que pela dimensão ficaria a meio caminho entre uma canoa cacilheira e uma fragata.

Pertencia a um arrais que era bem conhecido de um amigo nosso, notável pescador desportivo à linha que infelizmente acabou por falecer num acidente de pesca em Sesimbra alguns anos depois, arrebatado pelo mar.

A ideia era aproveitar o feriado de Santo António para nos fazermos ao mar e ir comer uma sardinhada a bordo.

O embarque fazia-se em Vila Franca de Xira de manhã e o percurso seguia por norte do Tejo, até Valada do Ribatejo.

Já se sabe que quem vai para o mar avia-se em terra, por isso o planeamento do almoço especial foi feito com cuidado. Tínhamos todos os ingredientes para a sessão da sardinhada a bordo, desde os pães de Mafra bem cozidos até ao azeite e vinagre, pimentos e alfaces, e um largo alguidar de sardinhas.

A juventude dos passageiros levou a que tivéssemos decidido beber sangria pelo que os ingredientes da mesma também se tinham acomodado nas alcofas. Para desgosto da tripulação (eram três contando com o mestre) que esperava algumas garrafitas de vinho verde branco.

Éramos dez colegas da faculdade e mais três marinheiros, pelo que logo ali na partida se colocou a importante questão do barco não se fazer ao mar (ou ao rio) com treze lá dentro.

Ainda pensámos que era brincadeira.

Mas não era. Ou vinha mais alguém ou saía um dos que já ali estava a bordo. A tripulação era rígida nestas coisas da superstição.

Perante este sufoco a solução foi telefonar para a casa de quem morasse ali mais perto e tentar convencer irmão, irmã, pai ou mãe, para se fazerem connosco ao mar.

Encontrou-se uma irmã disponível, mas foi preciso comprá-la com promessas de idas à “boîte” acompanhada por nós. Estava nessa altura na moda o “Van Gogo” em Cascais, e como era eu que por lá morava já se sabe a quem calhou esta rifa do acompanhamento forçado.

Uma seca que por acaso acabou bastante bem, mas isso é outra história.

Com todas estas exéquias a partida deu-se lá mais para o meio-dia.

Não sei se já tiveram ocasião de fazer um almoço (ou praticar outro tipo de tarefa) a bordo de uma embarcação relativamente pequena, e onde o mar (ou o rio) – mesmo sem estar muito agitado – remexia bem não só o barco como todos os que por lá se encontravam?

É pouco recomendável para não iniciados. Para mais, ao longo de várias horas de mar começavam a aparecer chamadas da mãe natureza, mais insistentes porque as tarefas eram todas feitas de pé.

Tínhamos tido prévia explicação sobre a forma como a bordo daquela falua se aliviava a bexiga. A teoria era sólida, mas a prática revelou-se um pouco mais fluida. Faltava-nos a experiência.

Para os homens a questão tinha mais a ver com a observação do lado para onde soprava o vento. Mas para as mulheres? Era exercício bem mais complexo.

O arrais e os ajudantes riam com gosto face aos exercícios de ginástica da malta jovem para se manter de pé.

A única coisa em que não deram confiança aos clientes foi a preparação das brasas onde as sardinhas iam ser postas a assar. Isso era com eles. Do resto tratássemos nós.

As peripécias sucediam-se a bordo, nem todas simpáticas, de forma que acabámos por tomar a decisão revolucionária de fazer o almoço (e comê-lo) já em Valada, bem atracados em frente da marginal.

Entretanto eram quatro horas da tarde, a fome era negra e as sardinhas despareceram num instante. Nunca – até aos dias de hoje – umas sardinhas assadas me souberam tão bem. Seria o ar do rio, ou a espera forçada, ou ainda a grande paródia em que esta aventura se tornou.

E quanto à sangria? Tínhamos levado um garrafão de cinco litros de tinto, quatro garrafas de litro de gasosa, laranjas, maçãs e limões, pau de canela e açúcar mascavado. Bem assim como uma garrafa de aguardente velha CRF e outra de vinho do Porto.

Gelo era de matacão, partido a bordo com o auxílio de um picador manual (à moda do “Instinto Fatal” e de Sharon Stone).

O mistério é que as garrafas de aguardente e de Porto levaram sumiço e não puderam ser utilizadas na preparação. Terá sido vingança da tripulação que, como referi, esperava umas garrafitas de “Casal Garcia” para pôr na caixa dos matacões de gelo…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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