“Sirva-se como se esteja em sua casa! À Tramoços e Minuins!”

Citação de A. Silva Garcia (Processos Metonímicos no Calão).

As velhas tascas de bairro podem não ser geridas por mestres da língua de Camões, mas estou convencido que o dono do “Mal Cozinhado”,  por andou o vate há quatro séculos e tal, a afogar as mágoas, também não criava sonetos…

Sou normalmente mais viajado por outro tipo de “resorts” onde se come e bebe, mas de vez em quando dou por mim ao balcão de uma tasca ou à mesa de uma esplanada de roulotte, que são as tascas do século XXI,  a pedir uma bica, ou uma imperial e um petisco,  para fazer horas para qualquer coisa que se passe ali por perto.

O linguarejar que – se tivermos sorte – se pode ouvir  nesses locais é extraordinário.

Muito do público que assim fala e que por lá  encontro quando por vezes  me penduro nesses balcões faz parte do que se convencionou chamar “lumpen proletariat”.

Uma palavra cunhada por Marx e Engels , do alemão “pessoa esfarrapada”, para designar a faixa mais baixa do proletariado, oposta aos trabalhadores mais esclarecidos e mais politizados.

Diríamos hoje, “refrescando” a teoria, que se trata de trabalhadores manuais  sem trabalho certo, por oposição aos trabalhadores manuais que ainda têm emprego. Muitos são imigrantes oriundos da Africa de expressão portuguesa. E todos são marginalizados. Vieram para cá antes da crise, trabalharam nas obras, casaram e fizeram filhos. Agora estão sem dinheiro para regressar e, da mesma forma, sem dinheiro para cá se manterem, a eles e às suas famílias.

Encontram-se naqueles locais, porque – como vim a saber – ali são procurados por alguns patrões ou capatazes para fazerem biscates. Hoje na estiva, amanhã na serventia a pedreiro, depois podem ser chamados para dar uma ajuda para fazer umas mudanças lá em casa, ou para coisas (ainda) menos legais como dar uns apertões a alguém que ficou a dever dinheiro a algum agiota.

Num desses locais (na Rocha do Conde de Óbidos) apercebi-me pelo contexto que várias frases eram criadas em calão por processos metonímicos (aproximação de sentido).

Estava caminho de um evento a bordo de um navio que fazia cruzeiros fluviais no Tejo e, como sou experiente nestas matérias de convites sociais que incluem “buffet”, decidi aviar-me em terra, com receio do que se poderia ali oferecer a bordo, e sobretudo temendo as horas tardias a que começaria o repasto.

Sentei-me a uma mesa na pequena esplanada e deliciei-me com o que ouvia.

Estive lá pouco tempo, o suficiente para comer um cachorro quente e beber uma imperial, aproveitando para pedir indicações ao proprietário sobre a amarração das docas que procurava.

Das conversas que presenciei destaco algumas frases.  Assim,” morrer” podia ser também “Ir passar o Natal à terra” ou “Acordar com a boca cheia de formigas”.  E uma senhora “da vida” era uma “fedorenta”. E ainda aprendi que “brilho” estava para a cocaína como “cavalo” para a heroína. Alguns dos termos menos próprios, como “Abusar da Maçaneta” ou “Agasalhar o Palhaço” nem traduzo por motivos de decoro.

Bebia-se muito àquela hora que já era quase de almoço, e o que estava mais em voga eram os “submarinos”, uma mistura de bagaço com cerveja, como vim depois a descobrir.

Não vi letreiros a anunciar “Tramoço” nem “Minuins”. Mas lá estava um outro painel bem visível: “Pagamento Adiantado”. Sinal dos tempos.

Saí com mais instrução do que aquela  que tinha quando entrei. E, pagando 3,5 euros pelo cachorro e cerveja, ainda com direito a pires de tremoços, achei barato o curso.

Nota: O principal processo que leva à criação de palavras do calão é a metonímia. A metonímia é utilizada na associação semântica através da contiguidade de significados, ou seja, o falante de uma determinada língua faz uma aproximação entre o significado de um termo e o significado de um outro termo.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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